Imagem do dia – “Natureza não é onde se tira férias”

Foto (c) Pedro Andrade

Encontrei há já uns tempos esta frase  escrita numa parede da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Infelizmente, para muita gente a Natureza é um conceito bastante abstracto, uma coisa que anda por aí, onde se podem tirar umas férias porreiras, fazer uns documentários com paisagens lindas e animais esquisitos, fazer umas campanhas eco-qualquer-coisa com uns logos verdes e garantia de que a coisa parece muito bonita. A Natureza é muito mais do que isso: é o meio onde todos nos inserimos, pessoas, animais, fungos, bactérias, plantas, etc., etc., constituído por todos estes actores vivos e outros tantos não vivos, cada um com uma história para contar, um valor inerente à sua condição de agente natural, e valor também como fonte que providencia o funcionamento do nosso planeta como um local onde a vida e todos os processos naturais podem florescer. A Natureza é tudo e também o que permite que tudo o seja.

Vídeo – O que é o famoso Bosão de Higgs?

Autoria: Jorge Cham (PHD Comics)

Chapim-real peculiar

Este artigo foi publicado originalmente na Revista Parques e Vida Selvagem nº31 (Primavera de 2010)

Foto (c) Pedro Andrade

Um dos novos visitantes frequentes nas sessões de anilhagem no Parque Biológico de Gaia é um bocado diferente do habitual. Está um pouco esbranquinçado, mas não é a idade a causa. Este chapim-real (Parus major, uma espécie bastante comum) apresenta várias penas do corpo descoloradas, mas a razão não parece clara. A explicação mais habitual nestes casos é o leucismo, uma condição genética que difere do albinismo porque, enquanto este representa uma incapacidade na síntese dos pigmentos chamados melaninas (determinam cores como castanhos, cinzentos e pretos), as aves leucistas sintetizam as melaninas mas não conseguem que estas sejam depositadas em algumas, ou todas, as penas. Esta explicação não é no entanto completamente satisfatória, porque este chapim possui algumas penas individuais parcialmente descoloradas – isto é mais nítido nas grandes penas caudais. Embora se conheçam casos de leucismo em que isto ocorre, o mais provável é que a ave tenha tido problemas alimentares no momento em que produziu este conjunto de penas (isto é comum em aves que vivem em cidades, como em Londres, onde por vezes se vêem gralhas com algumas penas brancas).

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Referências

- Grouw, Hein van (2006). “Not every white bird is an albino: sense and nonsense about colour aberrations in birds”. Dutch Birding 28: 79–89 (pdf)

Escaravelhos

Os verdadeiros “Beatles”.

Imagem do dia – Allosaurus fragilis

Foto (c) Pedro Andrade

Toda a gente tem um dinossauro preferido. Eu sempre tive muitos ao longo dos anos! Dos grandes carnívoros o mais famoso será certamente Tyrannosaurus rex, que já antes do fenómeno dos filmes Jurassic Park já seria o dinossauro mais facilmente reconhecível pelo grande público, o grande predador do final do Cretácico. 85 milhões de anos antes da época dos Tyrannosaurus, vagueou pelo nosso planeta um outro dinossauro carnívoro, de tamanho mais pequeno que o rei tirano mas ainda assim um animal formidável e que impunha respeito – estou a falar de Allosaurus fragilis, a minha espécie preferida de dinossauro!

A foto de hoje mostra uma réplica de um crânio desta linda espécie, em exposição no Museu de História Natural de Berlim (Museum für Naturkunde). A. fragilis era um dos predadores mais importantes do seu tempo, do final do período Jurássico, 150 milhões de anos antes dos nossos dias, atingindo comprimentos de cerca de 8 a 9 metros, e pesando pouco menos de duas toneladas. Tal como os outros dinossauros terópodes, sustentava-se nos seus fortes membros posteriores, deixando os anteriores livres para auxiliar na caça e possivelmente manipular alimentos – as suas presas deveriam incluir uma grande variedade de herbívoros jurássicos, incluindo vários ornitópodes, estegossáurios e saurópodes. Não era no entanto o único predador a caçar estas presas, dado que partilhava o habitat com outros terópodes de grandes dimensões como Torvosaurus e Ceratosaurus.

Os vestígios deste animal são abundantes na formação de Morrison, nos Estados Unidos, uma das mais importantes jazidas fossilíferas de dinossauros do mundo – estes vestígios indicam grande variabilidade morfológica, o que pode significar que estamos perante várias espécies de Allosaurus. Ainda não há consenso sobre o estatuto taxonómico destes fósseis, embora uma dessas espécies seja provavelmente segura, o grande Allosaurus maximus (também conhecido como Saurophaganax maximus), que atingiria comprimentos superiores a 10 metros. São também conhecidos alguns vestígios de Allosaurus em Portugal, que foram considerados pelo paleontólogo português Octávio Mateus como sendo suficientemente diferentes para pertencer à sua própria espécie: Allosaurus europaeus.

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Referências

- Paul, G.S. (2010)  - The Princeton Field Guide to Dinosaurs. Princeton University Press

Arte rupestre

Fonte: Zack Weiner (Saturday Morning Breakfast Cereal)

Vídeo – Cannabis, the evil weed?

Documentário da série Horizon (da BBC) sobre a planta Cannabis, que está na origem das drogas leves mais consumidas em todo o mundo. Embora o documentário se foque mais nos aspectos toxicológicos e sociais da droga, como seria de esperar, gostei bastante dos minutos iniciais que falam da história natural dos compostos activos.

Um ano depois, mais histórias de rotíferos!

ResearchBlogging.org

O meu primeiro post neste blog foi sobre rotíferos, um grupo de pequenos animais (aliás, bastante pequenos) comuns em virtualmente qualquer habitat onde se encontre humidade. Na altura planeei fazer um segundo post para continuar a escrever informação sobre estes fascinantes invertebrados, infelizmente desconhecidos da maioria das pessoas, mas o tempo lá passou… e escrevi sobre outras coisas… e pronto, lá decidi que seria hoje que voltaria aos rotíferos. E aqui estamos nós!

O bdelóide Habrotrocha rosa - Fonte: Rtitko (http://commons.wikimedia.org/wiki/User:Rkitko)

Recapitulando um pouco do que foi dito no artigo que escrevi no ano passado,  os rotíferos são animais invertebrados, que formam um grupo evolutivo coerente, os Rotifera. São na sua maioria animais microscópicos que habitam zonas com humidade, e que podem ser reconhecidos pela característica anatomia do corpo dividida em três partes principais: uma cabeça (na qual se localiza a coroa de cílios), o tronco (que contém a maioria dos órgãos corporais) e a cauda (serve para os rotíferos se agarrarem ao substrato). O nome destes animais provém do aparente movimento rotatório da coroa de cílios quando estes se mexem para canalizar alimento para a boca. Um dos pontos de interesse mais conhecidos dos rotíferos é o facto dos membros de um dos seus grupos, os Bdelloidea, apresentarem um estilo de vida completamente assexual – cerca de 300 espécies das quais só se conhecem fêmeas, um estilo de vida partilhado desde há cerca de 80 milhões de anos, antes da extinção dos dinossauros não-avianos (mais de 10 milhões de anos antes de terem surgido Tyrannosaurus)!

Dentro da grande cadeia de relações evolutivas que formam o grupo dos animais, os rotíferos são parte do grupo dos Lophotrochozoa (animais protostómios). Tradicionalmente considerava-se que os seus parentes mais próximos eram os acantocéfalos (Acanthocephala), um grupo com cerca de 1000 espécies, essencialmente parasitas intestinais de vertebrados (o seu nome refere-se aos espinhos presentes no probóscide anterior dos adultos, que servem para se agarrarem à parede intestinal dos hospedeiros), até que o advento de técnicas moleculares para determinação de filogenias ter revelado que estes parasitas são na realidade rotíferos extremamente modificados! As características morfológicas não parecem dar indicações conclusivas, mas os estudos moleculares apontam para que os acantocéfalos e os bdelóides formem um grupo próximo dentro dos rotíferos. Assim temos como grandes grupos de rotíferos os Monogononta, Seisonidea, Bdelloidea e Acanthocephala.

Andracantha tandemtesticulata, um acantocéfalo parasita de corvos-marinhos - Fonte: Monteiro et al 2006 (http://www.scielo.br/pdf/rbzool/v23n3/a27v23n3.pdf)

Uma característica conhecida dos bdelóides (sem dúvida as estrelas no mundo dos rotíferos!) é a sua grande resistência a condições ambientais extremas, nomeadamente radiação e falta de água. Na realidade, a resistência à radiação elevada ocorre como resultado da resistência à seca – o habitat de muitos rotíferos são corpos de água temporários como charcos. Quando o meio onde vivem seca, para além da falta de água, as cadeias de transporte de electrões são afectadas pela falta de água, levando à formação de agentes oxidantes (algo que também acontece quando o animal é exposto a radiação ionizante). Como tinha sido mencionado no primeiro post, os bdelóides possuem mecanismos celulares que lhes permitem recuperar o seu material genético quando este é degradado pelas condições de dessecação, fazendo com que o genoma actual destes animais seja um resultado de milhões de anos de corta-e-cola de DNA, incluindo por vezes material genético de outros organismos.

Um pequeno charco a secar é um futuro perigo para a maioria dos animais que lá habitam, mas uma boa perspectiva de sobrevivência para os bdelóides - Fonte: Jim Champion (http://www.geograph.org.uk/profile/1086)

Embora geralmente um estilo de vida assexual, como o dos bdelóides, seja evolutivamente pouco estável (a reprodução sexuada permite que adaptações favoráveis às alterações ambientais surjam e se espalhem mais rapidamente pela população), neste grupo este estilo de vida pode ter sido mantido precisamente graças à grande resistência à seca – poucos serão os animais que aguentam condições de seca tão extrema, logo estes rotíferos conseguem sobreviver quando muitos dos seus predadores, agentes patogénicos ou outros não conseguem, para além de poder facilitar a sua dispersão (deixam de estar completamente dependentes da água).

E por hoje fico-me por aqui. Talvez daqui um ano escreva mais alguma coisa sobre rotíferos! Para concluir, mais uma vez, deixo-vos com um bonito vídeo com bonitos animais.

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Rotifera – pequeno resumo (parte 1)

Um ano depois, mais histórias de rotíferos! (parte 2)

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Referências
- Brusca, R. C., and G. J. Brusca (2003). Invertebrates. Second edition. Sinauer Associates, Inc., Sunderland, MA.

- Garey, J.R., Schmidt-Rhaesa, A., Near, T.J., & Nadler, S.A. (1998). The evolutionary relationships of rotifers and acanthocephalans Hydrobiologia (387-388), 83-91 DOI: 10.1007/978-94-011-4782-8_12 (link)

- Gladyshev, E., & Meselson, M. (2008). Extreme resistance of bdelloid rotifers to ionizing radiation Proceedings of the National Academy of Sciences, 105 (13), 5139-5144 DOI: 10.1073/pnas.0800966105 (link)

Um ano de Histórias da Vida e da Terra

Faz hoje um ano que me decidi a arriscar colocar um post no blog e realmente arrancar com isto. Já desde Julho de 2010 que tinha esta conta activa, tinha acabado os exames desse ano e estava cheio de vontade de escrever tanto sobre temas de biologia, a minha principal área de estudo, mas também sobre geologia, o meu interesse mais recente na altura depois de ter passado um ano a fazer cadeiras desta ciência na universidade. O nome para o blog foi relativamente fácil de arranjar, embora convenhamos que também não é muito imaginativo! Quando pesquisei por ele no Google apercebi-me que já existia uma série de documentários com este nome, mas percebi que havia uma pequena diferença: o documentários é sobre Histórias da Vida NA Terra. O meu blog seria um sítio onde a Terra teria também um lugar de destaque, mais do que um mero suporte do espectáculo da vida, um protagonista por direito próprio, também com belas histórias que merecem ser conhecidas, daí este sítio ser sobre Histórias da Vida e da Terra.

E concluído um ano de “blogagem”, não posso deixar de me considerar extremamente satisfeito com os níveis de leitura que o blog tem tido. Apesar de as actualizações não serem muito regulares, um bom número de pessoas visita diariamente o blog, segundo o contador de visitas do WordPress, uns que chegam a partir do Google, outros pelo Facebook, mais alguns pelo Blog de Ciências, alguns até já terão o blog nos seus marcadores. A todos os que por cá passaram neste primeiro ano, envio um grande agradecimento!

Para os mais curiosos, seguem em baixo alguns gráficos com as estatísticas deste primeiro ano (clicar para aumentar a imagem). O dia mais visitado foi 17 de Novembro de 2011, quando o blog foi visitado 307 vezes. Até ao momento o blog recebeu 34125 visitas no total, embora a estas devemos retirar as obtidas antes de 19 de Fevereiro de 2011 –  ficam assim 34110. Foram publicados 97 posts (incluindo este).

Crackpot scorecard

Crackpot scorecard

Uma boa maneira de classificar a grande quantidade de lixo disfarçado de ciência oculta ou espiritual.

Fonte: Tony Piro (Calamities of Nature)

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