Vídeo – Entre o céu e as marés

O estuário do Sado constitui uma das principais zonas húmidas de Portugal.
Separado do oceano pelo extenso cordão dunar da península de Tróia, o estuário proporciona características excepcionais à vida selvagem, principalmente às aves aquáticas. Aqui podemos observar cerca de metade das espécies de aves existentes em todo o país. O documentário revela a vida das aves nos vários habitats do estuário e a forma como é condicionada pela grande força motriz deste ecosistema – as marés.

Filmagens de Daniel Pinheiro e locução de Eduardo Rêgo. Sem dúvida do melhor que temos em divulgação da vida selvagem nacional!

A (má) gestão florestal, os incêndios e o futuro de Portugal

Texto da autoria de José Baptista da Ascenção (Professor de Biologia e Geologia na Escola Secundária Carlos Amarante, em Braga)

.

“Agosto de 2013 chegou ao fim com as matas portuguesas consumidas num mar de fogo, ao longo de muitos dias, apesar dos enormes gastos com meios de ataque, como aviões e carros de bombeiros, com enormes prejuízos económicos, ambientais e sociais e, sobretudo, com a morte de várias pessoas.

Digamo-lo frontalmente: com o desmazelo a que estão sujeitas as nossas florestas, com a acumulação de matéria altamente combustível ano após ano, com espécimes altamente inflamáveis como o pinheiro bravo e o eucalipto, com a desertificação do interior rural, onde só restam idosos, muitos deles com limitações de locomoção, por doença e idade, e também consequência de vagas de calor que parecem tornar-se cada vez mais frequentes e intensas, lutar contra o fogo quando as temperaturas ambientais sobem acima dos 35 ºC e a humidade atmosférica é muito baixa, é tarefa praticamente impossível. Dito isto, parece que estamos condenados ao inferno literal, nos meses de Julho e Agosto. Não é bem assim. E se até agora os factos parecem confirmar a inevitabilidade da desgraça, a verdade é que o desastre continuado a que temos assistido se deve à responsabilidade de todos nós e dos governantes que temos escolhido. O que se pode fazer então?

Fogo no Alto de Quintela (2005) – Fonte: Nuno Sequeira André (http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Fogo_Quintela.jpg)

A mais importante medida é gerir a floresta. Segundo as previsões dos climatologistas, a tendência é para a média das temperaturas continuar a subir nas próximas décadas. Assim, vale a pena pensar nas diferentes regiões do país, no coberto vegetal que melhor se adaptaria a cada uma e na rendibilidade dos produtos silvícolas, em face da ocupação antrópica (características da população humana) de cada zona.

No sul do país, particularmente no Alentejo, os montados de sobro e azinho são bem adequados à secura dos solos e também à resistência ao fogo, particularmente no caso do sobreiro. A bolota é um alimento útil na criação de porcinos e estes animais contribuem para a limitação do crescimento de vegetação rasteira. Acresce que a cortiça é um bem de elevado valor económico, de que Portugal é o primeiro produtor mundial. Conservar o montado existente e expandi-lo a outras regiões de Verões quentes e muito secos, fomentando actividades como a exploração de cortiça, de madeira para combustível, a caça, a pastorícia, a apicultura, etc, parece razoável.

No centro e norte do país montanhoso, onde os incêndios têm deixado muitas zonas despidas de coberto arbóreo, outrora revestido de árvores como os castanheiros e os carvalhos, estes largamente abatidos para construção das naus com que se fizeram os descobrimentos e, muito posteriormente, para obtenção das travessas das linhas de caminho de ferro, devastação que se prolongou até final do século passado, as zonas hoje florestadas são-no essencialmente com pinheiro bravo e eucalipto, cujas culturas se expandiram enormemente durante o século vinte, o pinheiro a partir do seu início e o eucalipto a partir da segunda metade. O pinheiro-bravo é fonte de rendimento importante de madeira, resina e pasta de papel e o eucalipto sobretudo de pasta de papel. Porém, a florestação com pinheiro-bravo e eucalipto com o clima a aquecer, sem desbaste e remoção periódica da matéria vegetal seca acumulada no solo devido à desertificação humanal do interior do país, tornou pinhais e eucaliptais em “barris de pólvora” prontos a deflagrar à menor ignição, seja ela criminosa ou natural ou resultante de descuido. Parece pois que as zonas do centro e norte do país, com características mais atlânticas (mais húmidas) ou mais mediterrânicas (com estações secas mais longas) deveriam receber espécimes florestais mais convenientes e variados, escolhidos entre os carvalhos, o castanheiro ou mesmo o sobreiro ou outras árvores que, consoante os locais, fossem vantajosas: coníferas de agulha curta, bétulas, medronheiros, etc. Os carvalhos ainda recentemente foram entre nós fonte de madeira útil e muito apreciada no fabrico de móveis e de barrotes de grande resistência e durabilidade para a construção bem como de matéria lenhosa para combustão. E o castanheiro também, além da produção de fruto que, noutros tempos, foi componente importante da alimentação dos portugueses e hoje pode ser usado na confecção de variados produtos alimentares. De resto, também a bolota chegou a ser usada na alimentação humana, até no fabrico de pão! Mas o principal benefício da florestação com caducifólias residiria na sua maior resistência à combustão e, por essa via, na prevenção de incêndios. Naturalmente, para além das escolhas das espécies arbóreas, a prevenção de fogos implica sempre a remoção de matos rasteiros, a construção de faixas de contenção e muito ganharia, seguramente, com o recurso adequado ao uso de contrafogo.

Obviamente, tomar decisões fortes sobre a floresta implicaria tocar em poderosos interesses económicos e em postos de trabalho que existem, para além das mentalidades, mas tinha a vantagem de proporcionar novas possibilidades económicas e novas perspectivas de emprego. Não sei que outros caminhos se possam seguir. Sei, no entanto, que não podemos assistir impotentes à destruição do país pelas chamas infernais de cada estio.

Monocultura de eucalipto no distrito de Leiria – Fonte: Alexandre de Oliveira Brites (http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Eucaliptos_Serra_da_Senhora_do_Monte.JPG)

 

Entretanto, seria bom acautelar efectivamente e por meio legal habitações e pessoas do perigo do fogo florestal: relativamente a casas de habitação, devia a legislação estabelecer um perímetro de limpeza obrigatório de dezenas de metros (vinte, trinta metros?…) que, não sendo feito pelos proprietários dos terrenos, pudesse ser feito pelos donos ou ocupantes das casas, revertendo, neste caso, em seu proveito os materiais colhidos na operação de limpeza.

Entretanto resta-nos chorar os mortos e esperar pelas primeiras chuvas, o que é (além do prejuízo, incalculável) imensamente triste.

Não termino este texto sem a homenagem devida à coragem e abnegação dos soldados da paz.

José Baptista da Ascenção”

.

Referências

- “Os Carvalhais – Um património a conservar”. Árvores e florestas de Portugal, vol 2. Edição: Público, Comunicação Social, SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Vários autores. Lisboa. Abril de 2007.

- “Os Montados – Muito para além das árvores”. Árvores e florestas de Portugal, vol 3. Edição: Público, Comunicação Social, SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Vários autores. Lisboa. Abril de 2007.

- “Pinhais e eucaliptais – A floresta cultivada”. Árvores e florestas de Portugal, vol 4. Edição: Público, Comunicação Social, SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Vários autores. Lisboa. Maio de 2007.

- “Do castanheiro ao teixo – As outras espécies florestais”. Árvores e florestas de Portugal, vol 5. Edição: Público, Comunicação Social, SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Vários autores. Lisboa. Maio de 2007.

- “Proteger a floresta – Incêndios, pragas e doenças”. Árvores e florestas de Portugal, vol 8. Edição: Público, Comunicação Social, SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Vários autores. Lisboa. Maio de 2007.

As árvores e a internet

Estudar borboletas… com dignidade!

Lycaenidae

Foto (c) Pedro Andrade

... the study of butterflies – creatures selected as the types of airiness and frivolity – instead of being despised, will some day be valued as one of the most important branches of Biological science.

- Henry Walter Bates, naturalista inglês do séc. XIX

E não é que tinha razão?

As dimensões da Biologia

Biology is a science of three dimensions. The first is the study of each species across all levels of biological organization, molecule to cell to organism to population to ecosystem. The second dimension is the diversity of all species in the biosphere. The third dimension is the history of each species in turn, comprising both its genetic evolution and the environmental change that drove the evolution. Biology, by growing in all three dimensions, is progressing toward unification and will continue to do so.

- Edward O. Wilson, biólogo americano

Vídeo: Floresta numa garrafa

Documentário: “Forest in a Bottle” from EcoLogicalCork.com on Vimeo.

Normalmente estamos habituados a ver documentários da BBC produzidos em locais remotos de beleza natural exótica, mas para demonstrar que na nossa velha Europa, e em particular em Portugal, ainda se encontram valores naturais de grande riqueza, beleza e importância, a televisão britânica visitou o nosso país para fazer um documentário sobre a biodiversidade dos montados, esse habitat tão tipicamente português.

O crivo da selecção natural

Each generation is a filter, a sieve; good genes tend to fall through the sieve into the next generation; bad genes tend to end up in bodies that die young or without reproducing. Bad genes may pass through the sieve for a generation or two, perhaps because they had the luck to share a body with good genes. But you need more than luck to navigate successfully through a thousand sieves in succession.

- Richard Dawkins, biólogo britânico

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

%d bloggers like this: