As origens dos dinossauros – parte 3

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Durante uma grande fatia da era Mesozóica, os dinossauros dominaram a maioria dos nichos ecológicos terrestres mais visíveis. Isto apesar de terem começado de raízes humildes, durante o Triásico Superior. Nesta época, há cerca de 230 milhões de anos (Ma), os dinossauros eram elementos menores da paisagem, representados apenas por pequenos predadores e herbívoros, cerca de 5% de todos os vertebrados terrestres.

Este valor refere-se mais concretamente ao Carniano (230 a 215 Ma), a primeira idade dentro do Triásico Superior, a idade dos primeiros dinossauros. A ele sucede-se o Noriano (215 a 205 Ma) e nesta idade os dinossauros já representavam de 25% a 60% das faunas de vertebrados terrestres. Na fronteira do Triásico para o Jurássico (TJ), há 200 Ma, deu-se uma igualmente dramática expansão. Como é que os dinossauros passaram de figurantes a actores principais?

Alguns dos primeiros dinossauros do Carniano e Noriano (Triásico Superior), mostrando a grande radiação entre estas duas idades do tempo geológico - Fonte: Langer et al (2010)

A visão tradicional, e provavelmente a mais conhecida, será o modelo competitivo, que afirma que os dinossauros estavam melhor equipados para sobreviver que os os outros grandes répteis contemporâneos, sobretudo os Crurotarsi (parentes dos crocodilos, que na época estavam adaptados a muitos nichos diferentes) tendo-os substituído gradualmente devido às suas vantagens locomotivas e fisiológicas. Este modelo surge muito bem enquadrado nas antigas visões progressistas da evolução, que afirmam a inevitabilidade de, com a evolução, aparecerem novas formas superiores às anteriores.

Foi nos anos 1980 que se começou a questionar esta ideia, principalmente pela mão do paleontólogo britânico Michael J. Benton. Chega-se a esta constatação quando verificamos que a expansão dos dinossauros não foi gradual ao longo do Triásico Superior, mas sim muito associada a dois “pulsos” de radiação, nomeadamente no final do Carniano e na fronteira TJ. O evento do final do Carniano não é um evento isolado de radiação dos dinossauros: está associado a uma extinção de vários répteis dominantes, mas também numa alteração global da flora (uma transição entre florestas de fetos para florestas de coníferas), alterações nas comunidades marinhas e uma alteração de um clima de grande pluviosidade para um clima árido. Por sua vez, a mais conhecida extinção do final do Triásico, uma das 5 maiores extinções em massa da história do nosso planeta, não tem causas bem conhecidas, mas aponta-se para alguns culpados, como alterações do nível das águas do mar, impacte de meteroritos ou aumento de magmatismo associado à abertura do oceano Atlântico, que levaria a um aumento do efeito de estufa.

Ornithosuchus longidens, um réptil carnívoro do Triásico mais próximo dos crocodilos que dos dinossauros, mas que podia correr em duas patas e mantinha os membros posteriores erectos por baixo do corpo - Fonte: Dmitry Bogdanov

Para além destas mudanças ambientais globais, numa análise mais detalhada podemos ver que muitos répteis contemporâneos dos primeiros dinossauros partilhavam algumas das suas características supostamente “superiores”, como a própria postura erecta tão característica dos dinossauros.

Estas conclusões levaram à formulação de um modelo mais “oportunístico” da evolução dos dinossauros, segundo o qual estes beneficiaram da extinção dos animais anteriormente dominantes para poderem ocupar posições de destaque. Esta visão é hoje globalmente aceite pela maioria dos paleontólogos, mas é preciso ter atenção: quando falamos numa substituição oportunística, o que queremos na realidade dizer? Será que os dinossauros são meros sortudos que beneficiaram com o azar dos outros?

A realidade não costuma ser tão simples quanto as palavras a querem fazer parecer, e este é um desses casos. Na verdade, se os dinossauros não tivessem qualquer vantagem ecológica sobre os outros répteis triásicos, porque tiveram várias espécies de dinossauros sucesso, e os outros animais não? A substituição de um conjunto de espécies por outro resulta da combinação de vários factores, por vezes ambientais, por vezes intrínsecos à biologia de um grupo, e analisar estes factores de forma separada pode ser demasiado redutor.

No caso dos dinossauros, o estudo de variáveis como diversidade, abundância ou ritmo evolutivo sugerem que embora seja possível que certas características morfológicas ou fisiológicas pudessem favorecer os dinossauros, isto só entrou em jogo devido a vários eventos que afectaram os seus competidores, que durante o Triásico tinham tanto ou mais sucesso que eles, e se esses eventos não tivessem acontecido o mundo poderia não ter conhecido a grande diversidade de dinossauros que conheceu.

Um grupo de andorinhões (Apus apus) a voar num dia de Verão: quem adivinharia que num futuro longínquo os descendentes daquele pequeno grupo de répteis triásicos aprenderia a voar? - Fonte: Keta (http://commons.wikimedia.org/wiki/User:Keta)

Diversidade essa, aliás, que não morreu há 65 Ma, quando um meteorito colidiu com a Terra, e trouxe mais uma grande onda de extinções. É verdade que uma porção substancial dos grupos de dinossauros extinguiram-se mas alguns deles, com penas e capazes de voar, resistiram aos nossos dias. Da próxima vez que vir um pombo na rua, um melro a fugir alarmado ou um chamariz a chilrear num fio eléctrico, lembre-se do grande caminho que os seus antepassados fizeram desde as suas humildes origens há mais de 200 milhões de anos.

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As origens dos dinossauros – parte 1

As origens dos dinossauros – parte 2

As origens dos dinossauros – parte 3

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Referências

- Brusatte, S.L., Nesbitt, S.J., Irmis, R.B., Butler, R.J., Benton, M.J., & Norell, M.A. (2010). The origin and early radiation of dinosaurs Earth-Science Reviews, 101, 68-100 DOI: 10.1016/j.earscirev.2010.04.001 (link)

- Langer, M.C., Ezcurra, M.D., Bittencourt, J.S., & Novas, F.E. (2010). The origin and early evolution of dinosaurs Biological Reviews, 85, 55-110 DOI: 10.1111/j.1469-185X.2009.00094.x (link)

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