Imagem do dia – Allosaurus fragilis

Foto (c) Pedro Andrade

Toda a gente tem um dinossauro preferido. Eu sempre tive muitos ao longo dos anos! Dos grandes carnívoros o mais famoso será certamente Tyrannosaurus rex, que já antes do fenómeno dos filmes Jurassic Park já seria o dinossauro mais facilmente reconhecível pelo grande público, o grande predador do final do Cretácico. 85 milhões de anos antes da época dos Tyrannosaurus, vagueou pelo nosso planeta um outro dinossauro carnívoro, de tamanho mais pequeno que o rei tirano mas ainda assim um animal formidável e que impunha respeito – estou a falar de Allosaurus fragilis, a minha espécie preferida de dinossauro!

A foto de hoje mostra uma réplica de um crânio desta linda espécie, em exposição no Museu de História Natural de Berlim (Museum für Naturkunde). A. fragilis era um dos predadores mais importantes do seu tempo, do final do período Jurássico, 150 milhões de anos antes dos nossos dias, atingindo comprimentos de cerca de 8 a 9 metros, e pesando pouco menos de duas toneladas. Tal como os outros dinossauros terópodes, sustentava-se nos seus fortes membros posteriores, deixando os anteriores livres para auxiliar na caça e possivelmente manipular alimentos – as suas presas deveriam incluir uma grande variedade de herbívoros jurássicos, incluindo vários ornitópodes, estegossáurios e saurópodes. Não era no entanto o único predador a caçar estas presas, dado que partilhava o habitat com outros terópodes de grandes dimensões como Torvosaurus e Ceratosaurus.

Os vestígios deste animal são abundantes na formação de Morrison, nos Estados Unidos, uma das mais importantes jazidas fossilíferas de dinossauros do mundo – estes vestígios indicam grande variabilidade morfológica, o que pode significar que estamos perante várias espécies de Allosaurus. Ainda não há consenso sobre o estatuto taxonómico destes fósseis, embora uma dessas espécies seja provavelmente segura, o grande Allosaurus maximus (também conhecido como Saurophaganax maximus), que atingiria comprimentos superiores a 10 metros. São também conhecidos alguns vestígios de Allosaurus em Portugal, que foram considerados pelo paleontólogo português Octávio Mateus como sendo suficientemente diferentes para pertencer à sua própria espécie: Allosaurus europaeus.

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Referências

- Paul, G.S. (2010)  - The Princeton Field Guide to Dinosaurs. Princeton University Press

O que eram… os saurópodes?

De todo o vasto conjunto de tipos de dinossauros, dificilmente diríamos que um tipo é mais extremo e estranho que os outros, mas no que se refere ao grande tamanho, uma característica pela qual tanta gente conhece estes répteis, mais nenhum grupo bate os saurópodes.

O grupo dos saurópodes (Sauropoda) inclui os grandes  dinossauros de pescoço comprido, que atingiram durante a sua evolução tamanhos incríveis para animais terrestres: Brachiosaurus brancai, o maior saurópode conhecido por um esqueleto quase completo, deveria atingir 26 metros de comprimento, 12 metros de altura e 38 toneladas, mais que 7 elefantes! E provavelmente não era o maior: recentemente várias espécies foram descobertas que pesariam mais, sobretudo os grandes titanossáurios (Titanosauria) como Argentinosaurus huinculensis, Puertasaururus reuili ou Paralititan stromeri. Por vezes fala-se também de Amphicoelias fragillimus, uma espécie descrita com base numa vértebra desaparecida que, caso se venha a verificar a veracidade da descrição, poderá ser de um animal com 58 metros de comprimento e 122 toneladas…

Um dos últimos saurópodes, Alamosaurus sanjuanensis, viveu há cerca de 69 milhões de anos, quase no fim do Cretácico na América do Norte - Fonte: Dmitry Bogdanov

Apesar destes enormes tamanhos, estes fantásticos herbívoros tiveram origens humildes, em pequenos prossaurópodes com menos de 2 metros, no período Triásico. Quando os primeiros saurópodes surgiram, na recta final do Triásico, já eram dos maiores dinossauros, mas dificilmente se previa que atingissem tão grandes tamanhos! Isto pode ter acontecido para facilitar a digestão de plantas pouco nutritivas (o maior tempo de permanência do alimento no tubo digestivo facilita a digestão em grandes mamíferos herbívoros), como protecção contra os grandes dinossauros predadores, para se alimentarem de plantas mais altas ou para aumentar a eficiência energética (um animal mais maciço perde energia mais lentamente). O aumento de tamanho foi compensado pela evolução de um muito eficaz sistema de respiração, com recurso a sacos de ar (semelhantes ao das aves) e ossos ocos. No entanto, nem todos os saurópodes eram gigantes, como comprovado pelo Europasaurus holgeri, descrito pelo paleontólogo português Octávio Mateus, que não teria uma altura superior à de uma pessoa.

Para além dos mencionados acima, outros saurópodes famosos incluem Diplodocus spp., Apatosaurus spp., Camarasaurus spp. e Mamenchisaurus spp. Como o resto dos dinossauros não-avianos, os saurópodes extinguiram-se no final do período Cretácico, há cerca de 65 milhões de anos.

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Referências

- Benton, M. J. (2005), Vertebrate Paleontology, 3rd ed. Blackwell Science Ltd

- Carpenter, Kenneth (2006). “Biggest of the Big: A Critical Re-Evaluation of the Mega-Sauropod Amphicoelias fragillimus Cope, 1878″. In Foster, John R.; Lucas, Spencer G.. Paleontology and Geology of the Upper Jurassic Morrison Formation. 36. New Mexico Museum of Natural History and Science Bulletin. pp. 131–138.

Vídeo – Tyrannosaurus e galinhas: o caminho para recriar um dinossauro

Avanços recentes no estudo de partes moles de dinossauros permitiram descobrir células ósseas e do sangue preservadas em fósseis de Tyrannosaurus rex. Conseguiremos usá-las para recriar um dinossauro, tal como no Jurassic Park? Se não, podemos pegar numa galinha e alterar o seu desenvolvimento embrionário para fazer regressar características dos seus antepassados? Estes são alguns dos temas que o conhecido paleontólogo americano Jack Horner aborda nesta excelente apresentação!

As origens dos dinossauros – parte 3

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Durante uma grande fatia da era Mesozóica, os dinossauros dominaram a maioria dos nichos ecológicos terrestres mais visíveis. Isto apesar de terem começado de raízes humildes, durante o Triásico Superior. Nesta época, há cerca de 230 milhões de anos (Ma), os dinossauros eram elementos menores da paisagem, representados apenas por pequenos predadores e herbívoros, cerca de 5% de todos os vertebrados terrestres.

Este valor refere-se mais concretamente ao Carniano (230 a 215 Ma), a primeira idade dentro do Triásico Superior, a idade dos primeiros dinossauros. A ele sucede-se o Noriano (215 a 205 Ma) e nesta idade os dinossauros já representavam de 25% a 60% das faunas de vertebrados terrestres. Na fronteira do Triásico para o Jurássico (TJ), há 200 Ma, deu-se uma igualmente dramática expansão. Como é que os dinossauros passaram de figurantes a actores principais?

Alguns dos primeiros dinossauros do Carniano e Noriano (Triásico Superior), mostrando a grande radiação entre estas duas idades do tempo geológico - Fonte: Langer et al (2010)

A visão tradicional, e provavelmente a mais conhecida, será o modelo competitivo, que afirma que os dinossauros estavam melhor equipados para sobreviver que os os outros grandes répteis contemporâneos, sobretudo os Crurotarsi (parentes dos crocodilos, que na época estavam adaptados a muitos nichos diferentes) tendo-os substituído gradualmente devido às suas vantagens locomotivas e fisiológicas. Este modelo surge muito bem enquadrado nas antigas visões progressistas da evolução, que afirmam a inevitabilidade de, com a evolução, aparecerem novas formas superiores às anteriores.

Foi nos anos 1980 que se começou a questionar esta ideia, principalmente pela mão do paleontólogo britânico Michael J. Benton. Chega-se a esta constatação quando verificamos que a expansão dos dinossauros não foi gradual ao longo do Triásico Superior, mas sim muito associada a dois “pulsos” de radiação, nomeadamente no final do Carniano e na fronteira TJ. O evento do final do Carniano não é um evento isolado de radiação dos dinossauros: está associado a uma extinção de vários répteis dominantes, mas também numa alteração global da flora (uma transição entre florestas de fetos para florestas de coníferas), alterações nas comunidades marinhas e uma alteração de um clima de grande pluviosidade para um clima árido. Por sua vez, a mais conhecida extinção do final do Triásico, uma das 5 maiores extinções em massa da história do nosso planeta, não tem causas bem conhecidas, mas aponta-se para alguns culpados, como alterações do nível das águas do mar, impacte de meteroritos ou aumento de magmatismo associado à abertura do oceano Atlântico, que levaria a um aumento do efeito de estufa.

Ornithosuchus longidens, um réptil carnívoro do Triásico mais próximo dos crocodilos que dos dinossauros, mas que podia correr em duas patas e mantinha os membros posteriores erectos por baixo do corpo - Fonte: Dmitry Bogdanov

Para além destas mudanças ambientais globais, numa análise mais detalhada podemos ver que muitos répteis contemporâneos dos primeiros dinossauros partilhavam algumas das suas características supostamente “superiores”, como a própria postura erecta tão característica dos dinossauros.

Estas conclusões levaram à formulação de um modelo mais “oportunístico” da evolução dos dinossauros, segundo o qual estes beneficiaram da extinção dos animais anteriormente dominantes para poderem ocupar posições de destaque. Esta visão é hoje globalmente aceite pela maioria dos paleontólogos, mas é preciso ter atenção: quando falamos numa substituição oportunística, o que queremos na realidade dizer? Será que os dinossauros são meros sortudos que beneficiaram com o azar dos outros?

A realidade não costuma ser tão simples quanto as palavras a querem fazer parecer, e este é um desses casos. Na verdade, se os dinossauros não tivessem qualquer vantagem ecológica sobre os outros répteis triásicos, porque tiveram várias espécies de dinossauros sucesso, e os outros animais não? A substituição de um conjunto de espécies por outro resulta da combinação de vários factores, por vezes ambientais, por vezes intrínsecos à biologia de um grupo, e analisar estes factores de forma separada pode ser demasiado redutor.

No caso dos dinossauros, o estudo de variáveis como diversidade, abundância ou ritmo evolutivo sugerem que embora seja possível que certas características morfológicas ou fisiológicas pudessem favorecer os dinossauros, isto só entrou em jogo devido a vários eventos que afectaram os seus competidores, que durante o Triásico tinham tanto ou mais sucesso que eles, e se esses eventos não tivessem acontecido o mundo poderia não ter conhecido a grande diversidade de dinossauros que conheceu.

Um grupo de andorinhões (Apus apus) a voar num dia de Verão: quem adivinharia que num futuro longínquo os descendentes daquele pequeno grupo de répteis triásicos aprenderia a voar? - Fonte: Keta (http://commons.wikimedia.org/wiki/User:Keta)

Diversidade essa, aliás, que não morreu há 65 Ma, quando um meteorito colidiu com a Terra, e trouxe mais uma grande onda de extinções. É verdade que uma porção substancial dos grupos de dinossauros extinguiram-se mas alguns deles, com penas e capazes de voar, resistiram aos nossos dias. Da próxima vez que vir um pombo na rua, um melro a fugir alarmado ou um chamariz a chilrear num fio eléctrico, lembre-se do grande caminho que os seus antepassados fizeram desde as suas humildes origens há mais de 200 milhões de anos.

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As origens dos dinossauros – parte 1

As origens dos dinossauros – parte 2

As origens dos dinossauros – parte 3

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Referências

- Brusatte, S.L., Nesbitt, S.J., Irmis, R.B., Butler, R.J., Benton, M.J., & Norell, M.A. (2010). The origin and early radiation of dinosaurs Earth-Science Reviews, 101, 68-100 DOI: 10.1016/j.earscirev.2010.04.001 (link)

- Langer, M.C., Ezcurra, M.D., Bittencourt, J.S., & Novas, F.E. (2010). The origin and early evolution of dinosaurs Biological Reviews, 85, 55-110 DOI: 10.1111/j.1469-185X.2009.00094.x (link)

As origens dos dinossauros – parte 2

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Num ecossistema em recuperação após a maior extinção em massa de sempre, no meio de uma biodiversidade cada vez mais rica, uma pequena linhagem de répteis começava a evoluir. Os ramos iniciais, os dinossauromorfos, já os conhecemos: pequenos e ágeis, uns bípedes e outros quadrúpedes; uns talvez mais adaptados a comer outros animais, outros seriam herbívoros, e que viveram durante o Triásico Médio e Superior, durante cerca de 30 milhões de anos (Ma). Quando desapareceram, os seus parentes mais próximos começavam a tomar conta do mundo, um grupo que começou lentamente, mas que eventualmente iria originar os vertebrados terrestres que possivelmente mais marcaram a história do nosso planeta: os dinossauros.

Um esquema simplificado das principais linhagens evolutivas dos dinossauros - Fonte: Thomas Holtz (http://www.geol.umd.edu/~tholtz/G104/lectures/104dinorise.html)

Como grupo biológico, os dinossauros são definidos como todos os descendentes do último antepassado partilhado pelos seus dois grandes ramos evolutivos, os Ornithischia e os Saurischia. Apesar de ser fácil definir este grupo desta forma, torna-se complicado ter a certeza como é que os primeiros dinossauros encaixam realmente nestas divisões – como são tão primitivos, e descenderam há pouco tempo desse antepassado universal dos dinossauros, as diferenças entre os membros iniciais destes grupos não estão ainda muito marcadas. Isto é evidente sobretudo nos dois principais grupos de saurísquios: Theropoda (dinossauros carnívoros e seus parentes) e Sauropodomorpha (dinossauros de pescoço comprido e seus antepassados).

Herrerasaurus ischigualastensis, um dos primeiros dinossauros de Ischigualasto - Fonte: Dmitry Bogdanov

Herrerasaurus ischigualastensis, um dos primeiros dinossauros de Ischigualasto - Fonte: Dmitry Bogdanov

O “berço” clássico dos dinossauros é na América do Sul – é de lá, da formação de Ischigualasto, que provém os fósseis mais antigos de dinossauros, datados do início do Triásico Superior (cerca de 228 Ma), a maioria na linhagem dos saurísquios: entre eles os terópodes predadores Herrerasaurus ischigualastensis e Staurikosaurus pricei e os sauropodomorfos Saturnalia tupiniquim e Panphagia protos, são alguns dos exemplos. A única excepção, o mais antigo ornitísquio, é Pisanosaurus mertii.

Mais dois saurísquios de Ischigualasto têm causado bastante debate. Um é o já bem conhecido Eoraptor lunensis, um pequeno dinossauro cujo aspecto físico faz parecer à vista que é o um dos primeiros dinossauros carnívoros. Na realidade, a sua classificação tem sido algo problemática, ora saltando entre uma posição na base dos terópodes ou como membro basal dos saurísquios, sem ser terópode ou sauropodomorfo. Em 2011 surgiu um novo capítulo a esta história: com a descrição de Eodromeus murphi, mais um terópode primitivo, Eoraptor passa a ser considerado um sauropodomorfo primitivo, um antecessor dos grandes dinossauros de pescoço comprido como Brachiosaurus ou Diplodocus. Esta interpretação não é, por enquanto, consensual, e só o tempo, mais espécimes e mais análises poderão resolver estes problemas.

A descrição em 2011 do terópode basal Eodromaeus murphi (aqui junto de um dos seus descobridores, Paul Sereno) obrigou de novo a repensar as afinidades dos dinossauros primitivos - Fonte: Mike Hettwer (http://www.hettwer.com)

Problemas aliás dos quais este é só um exemplo. Guaibasaurus candelariensis ou Agnosphitys cromhallensis, ligeiramente mais recentes que os dinossauros de Ischigualasto, são outros exemplo de animais que saltam entre os terópodes e sauropodomorfos, ou que podem mesmo ser saurísquios mas fora destes ramos. Confuso decerto, mas de esperar dado a proximidade evolutiva de animais na base de dois grupos em início de divergência.

Fora da América do Sul tem sido mais difícil encontrar vestígios de dinossauros desta época. Embora isto possa acontecer por uma procura insuficiente noutros locais, parece mais certo que foi no Sul da Pangea que surgiram os primeiros dinossauros. Mas no Triásico Superior, como indicam os esqueletos fósseis, ou um pouco mais cedo até, no Triásico Médio? Isto é o que algumas pegadas parecem sugerir, em conjunto com o facto de que o grupo-irmão dos dinossauros, os silessaurídeos, já existiam nesta época. Mas por enquanto, à falta de evidência fóssil mais concreta, permanece a dúvida…

O que se sabe é que ao longo do Triásico Superior e até ao início do Jurássico, os dinossauros foram passando de pequenos elementos da paisagem a ocuparem as posições ecológicas mais visíveis. Isso aconteceu às custas de outros animais que já ocupavam esses nichos, mas como é que os dinossauros chegaram a esse ponto? Estariam mais adaptados a um mundo em mudança, ou foram felizardos que se aproveitaram do infortúnio de outros grupos? Este será o tema da terceira parte desta série de posts.

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As origens dos dinossauros – parte 1

As origens dos dinossauros – parte 2

As origens dos dinossauros – parte 3

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Referências

- Langer, M.C., Ezcurra, M.D., Bittencourt, J.S., & Novas, F.E. (2010). The origin and early evolution of dinosaurs Biological Reviews, 85, 55-110 DOI: 10.1111/j.1469-185X.2009.00094.x (link)

- Martinez RN, Sereno PC, Alcober OA, Colombi CE, Renne PR, Montañez IP, & Currie BS (2011). A basal dinosaur from the dawn of the dinosaur era in southwestern Pangaea. Science (New York, N.Y.), 331 (6014), 206-10 PMID: 21233386 (link)

As origens dos dinossauros – parte 1

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Tyrannosaurus. Velociraptor. Brachiosaurus. Triceratops. A grande maioria das pessoas já se cruzou a certa altura da sua vida com estes nomes, alguns representantes da enorme diversidade de dinossauros descritos desde que Richard Owen criou esta designação em 1842 para um grupo de répteis diferentes de todos os outros conhecidos até à altura. Com o passar dos anos vão-se conhecendo cada vez mais espécies, umas mais estranhas que outras, aumentando o nosso conhecimento da sua diversidade, e isto sem esquecer o facto que as aves, incluindo os pardais e melros que enchem as nossas cidades, ou as gaivotas das nossas praias, são elas próprias dinossauros, sobreviventes da grande catástrofe do final do Cretácico, quando um meteorito atingiu o planeta e causou mais alterações ambientais do que as que a maioria dos dinossauros conseguiu aguentar.

Allosaurus fragilis e Stegosaurus stenops: no final do Jurássico já existiam os mais variados tipos de dinossauros, mas de onde surgiu tanta diversidade de formas? - Fonte: Luke Jones (http://commons.wikimedia.org/wiki/File:DMSN_dinosaurs.jpg)

Apesar da sua enorme diversidade, a presença de algumas características morfológicas partilhadas por todos os dinossauros, nomeadamente nos membros, vértebras e crânio, indica que estes tiveram todos uma origem num único antepassado comum, cujos descendentes evoluíram e diversificaram-se ao longo de mais de 200 milhões de anos. Mas como seria esse antepassado, onde viveu, como é que deu origem a todos os grandes grupos de dinossauros que conhecemos?

Os dinossauros pertencem a um dos grandes grupos de répteis, os Archosauria, que surgiram no final do Pérmico ou início do Triásico. Actualmente os arcossauros incluem os crocodilos e as aves, representantes das duas grandes linhagens de arcossauros. Todos os animais que partilharem uma afinidade evolutiva maior com as aves que com os crocodilos pertencem a uma destas linhagens, os Ornithodira, que por sua vez podem também ser caracterizados por uma dicotomia basal – de um lado, temos os parentes mais próximos dos dinossauros, os pterossauros, e do outro os próprios dinossauros. Os pterossauros são répteis voadores que conviveram com os dinossauros durante o Mesozóico, foram os primeiros vertebrados a descobrir a arte do voo e são muitas vezes confundidos como um grupo de dinossauros.

Entre os dinossauros e os pterossauros temos uma série de pequenas espécies, pouco conhecidas, mas que nos fornecem pistas muito importantes para perceber de onde vieram os primeiros dinossauros. Estes surgiram no Triásico, num mundo ainda em recuperação da grande extinção do final do Pérmico, e numa altura em que as massas continentais estavam reunidas formando o supercontinente Pangea. Haviam variações climáticas extremas, com algumas regiões muito áridas e outras com florestas luxuriantes de fetos e gimnospérmicas; ao longo do Triásico, o clima foi ficando cada vez mais húmido, aumentando as ocorrências de monções. Os nichos ecológicos terrestres de maior visibilidade eram ocupados por uma série já variada de arcossauros e outros répteis, e por parentes próximos dos mamíferos. Os dinossauros surgiram por isso num mundo já habitado pelos seus “leões”, “rinocerontes”, “javalis” e “raposas”.

Localização geográfica de vários dinosauromorfos, num mapa da Pangea - Fonte: Langer et al (2010)

Foi no Triásico Médio, há cerca de 240 milhões de anos (Ma), que apareceram os primeiros parentes próximos dos dinossauros. Lagerpeton chanarensis e Dromomeron (que sobreviveu até ao Triásico Superior) estão já nesta linhagem, mais perto dos dinossauros do que dos pterossauros. A estes juntam-se também Marasuchus liloensis, Pseudolagosuchus major, Lewisuchus admixtus e talvez o problemático Lagosuchus talampayensis. Inicialmente pensava-se que estes pequenos animais teriam existido apenas no Triásico Médio na América do Sul, mas a descoberta em 2007 de Dromomeron do Triásico Superior (cerca de 210 Ma) na América do Norte mostra que estes “dinosauromorfos” chegaram a coexistir com os verdadeiros dinossauros, e em vários locais.

O estranho Silesaurus opolensis, um parente muito próximo dos dinossauros - Fonte: Dmitry Bogdanov

Apesar de não serem dinossauros, um olhar rápido para estes animais mostra já parecenças com os dinossauros mais primitivos, mas estes não eram os únicos dinossauromorfos próximos dos dinossauros. Em 2003 a comunidade paleontológica viu com bastante surpresa a revelação da existência de Silesaurus opolensis. Embora partilhando várias características morfológicas com os primeiros dinossauros, à primeira vista isto não seria evidente: andavam sobre quatro patas, eram herbívoros e possuíam um estranho bico na mandíbula inferior. Desde 2003 já se descobriram mais alguns silesaurídeos, entre eles Sacisaurus agudoensis, Eucoelophysis baldwini ou Technosaurus smalli, e até alguns dos dinossauromorfos referidos anteriormente podem também ser silessaurídeos. Tal como Dromomeron, também os silessaurídeos resistiram até ao Triásico Superior, e estavam distribuídos por uma boa parte da Pangea.

No meio desta diversidade despontou uma tímida linhagem, o dinossauro original, cujos descendentes se foram diversificando, e adaptando…

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As origens dos dinossauros – parte 1

As origens dos dinossauros – parte 2

As origens dos dinossauros – parte 3

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Referências

Langer, M.C., Ezcurra, M.D., Bittencourt, J.S., & Novas, F.E. (2010). The origin and early evolution of dinosaurs. Biological Reviews, 85, 55-110 DOI: 10.1111/j.1469-185X.2009.00094.x (link)

- Preto, N., Kustatscher, E., & Wignall, P.B. (2010). Triassic climates — State of the art and perspectives. Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, 20, 1-10 DOI: 10.1016/j.palaeo.2010.03.015 (link)

A curiosa história de um ladrão de ovos

Nos anos 1920 o Museu Americano de História Natural (American Museum of Natural History, AMNH) organizou uma série de grandes expedições ao remoto Deserto de Gobi, na Mongólia. Apesar do local extremo (especialmente para época quando era ainda pouco conhecido) as expedições foram um grande sucesso, produzindo uma grande quantidade de material, sobretudo paleontológico, que ficou mundialmente conhecido. O rosto da expedição era o seu líder, Roy Chapman Andrews, naturalista empenhado que subiu na carreira à custa da sua dedicação e conhecimento, começando como funcionário de limpeza e chegando ao posto de director (e que pode ter servido de inspiração para a criação de Indiana Jones, embora isto nunca tenha sido confirmado).

 

Trabalho difícil... (Fonte: Getty Images)

Durante a primeira expedição, mais concretamente a 13 de Julho de 1923 em Bayn Dzak, um técnico de paleontologia, George Olsen, anunciou aos restantes membros da expedição que tinha encontrado ovos fossilizados. A descrença inicial foi superada quando membros séniores da expedição analisaram o achado, concluindo que deveriam tratar-se de ovos de dinossauro. Fez-se uma grande publicidade aos achados, e chegou mesmo a ser publicitado que eram os primeiros ovos de dinossauro a serem descobertos, o que não corresponde exactamente à realidade, embora seja possível que tenha sido a primeira vez que ovos de dinossauro foram reconhecidos como tal.

O dinossauro mais frequentemente encontrado pela equipa nesta região foi um parente do conhecido Triceratops, mas com algumas características primitivas, e que por isso foi designado Protoceratops andrewsi. Era tão comum que, certamente, os ovos encontrados por Olsen pertenceriam a esta espécie. O que era estranho era a presença de ossos de um estranho animal por cima dos ovos.

Estes achados foram enviados para o AMNH, onde foram analisados pelo seu presidente e influente paleontólogo Henry Fairfield Osborn. Em 1924, publicou um artigo em que descreveu três novos dinossauros terópodes (o grupo que inclui os dinossauros carnívoros, as aves, e outros parentes próximos). Estes incluíam dois pequenos e ágeis predadores, Velociraptor mongoliensis e Saurornithoides mongoliensis, e o esqueleto encontrado por cima dos ovos de Protoceratops de Olsen. Este era um animal realmente estranho: um crânio desdentado, com um bico, com múltiplas aberturas e proporções bizarras comparado com qualquer outro dinossauro conhecido até à altura. A análise da anatomia dos membros anteriores foi fundamental para perceber que realmente era um dinossauro terópode.

 

Crânio do espécime original de Oviraptor philoceratops (Fonte: Osborn, 1924)

Osborn deu-lhe o nome Oviraptor philoceratops – literalmente “ladrão de ovos que gosta de ceratópsios”. Os ovos de Olsen deveriam ser de Protoceratops. O estranho Oviraptor, cujo curioso crânio poderia servir perfeitamente para quebrar cascas de ovo, foi encontrado por cima dos ovos, por isso a conclusão lógica seria que este animal morreu soterrado por uma tempestade de areia precisamente no momento em que se preparava para se alimentar dos ovos do herbívoro Protoceratops.

Sendo o centro de um dos mais célebres achados de uma das mais célebres expedições científicas de todos os tempos, rapidamente o estranho Oviraptor ganhou a reputação de ladrão de ovos, aproximando-se sorrateiramente dos ninhos do pobre Protoceratops para fazer uma refeição às custas da sua prole. Esta imagem era um clássico em muitos dos livros de dinossauros que li em criança. Não que um animal que se alimente de ovos de outros seja “mau” – isto é uma prática comum na Natureza, e nada tem de maldoso. A Natureza não se rege por padrões morais, e não devemos cair na tentação de os atribuir a qualquer comportamento natural. Mas a verdade é que a maioria das pessoas inconscientemente acaba por os atribuir, e o próprio Osborn sabia disso, quando afirmou que:

“Os nomes genérico e específico … podem levar-nos completamente ao engano sobre os seus hábitos alimentares e difamar o seu carácter”

As evidências de predação neste caso eram completamente circunstanciais,  mas só nos anos 1990 se começou a questionar seriamente esta associação. Em 1993 chega a primeira grande evidência contra a interpretação clássica: um embrião de oviraptorídeo preservado dentro de um ovo muito semelhante aos de 1923. Em 1995 a história é definitivamente virada do avesso, com a descoberta de um novo ninho, de novo com um espécime de oviraptorídeo (que mais tarde seria atribuído à espécie Citipati osmolskae), só que desta vez a relação não era ambígua: os ovos, arranjados circularmente à volta do ninho, eram certamente de oviraptorídeo, e o esqueleto encontrava-se numa posição semelhante à que as aves usam hoje em dia para incubar os ovos!

 

Ninho de Citipati osmolskae (Fonte: cienciaviva.pt)

A imagem clássica de oviraptorídeos a predar ninhos de Protoceratops começa cada vez a ser mais distante, e cada vez mais os novos livros propagam uma imagem do Oviraptor como uma mãe cuidadosa. Até na ciência isso se reflecte: quando foi necessário mudar o nome do oviraptorídeo Nemegtia (nome já usado por um crustáceo), foi escolhido o nome Nemegtomaia, ou “boa mãe de Nemegt”.

Quanto aos hábitos alimentares destes estranhos animais, a dúvida persiste, embora se pense que possam ser omnívoros (um novo oviraptorídeo sugere que se alimentavam sobretudo de material vegetal, embora já tenham sido encontrados vestígios de um lagarto no holótipo de Oviraptor).

 

Referências

- Carpenter, K. (1999), Eggs, Nests, and Baby Dinosaurs: A Look at Dinosaur Reproduction: Bloomington, Indiana University Press

- Clark, J.M., Norell, M.A., & Chiappe, L.M. (1999). “An oviraptorid skeleton from the Late Cretaceous of Ukhaa Tolgod, Mongolia, preserved in an avianlike brooding position over an oviraptorid nest.” American Museum Novitates, 3265

- Fastovsky, D.E. & Weishampel, D.B. (2009).Dinosaurs: A Concise Natural History (Cambridge: Univ. of Cambridge Press)

- Osborn, H. F. (1924). Three new Theropoda, Protoceratops zone, central Mongolia. American Museum Novitates 144: 1–12.

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