Antes da Terra e do Mar: Uma história natural do território português

Olá a todos os leitores resistentes! Nos últimos anos o blog esteve inactivo, mas isso não significa necessariamente que tenha deixado de escrever sobre história natural. Em parte, tenho escrito alguns artigos para a revista digital da Associação Pé Ante Pé, a Saramela (https://issuu.com/saramela). Uma outra (grande) parte do esforço dediquei ao que é agora o meu primeiro livro de divulgação científica: Antes da Terra e do Mar: Uma história natural do território português.

De forma simples, o livro conta a história da natureza de Portugal – não só a história dos animais e plantas que hoje habitam o nosso país, mas sobretudo a história mais “profunda” do mundo físico e biológico que ao longo das últimas centenas de milhões de anos construiu o que é agora o nosso território. Espero que este possa ser um pequeno contributo para que quem o leia possa olhar para a nossa paisagem e compreender como é que algumas destas “coisas” cá chegaram: o mar, as rochas, as serras, os vales, os animais e as plantas.

Boas leituras!

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O livro pode ser adquirido pela internet através da Amazon: https://www.amazon.es/Antes-Terra-Mar-territ%C3%B3rio-portugu%C3%AAs/dp/9892086864/

Ver índice do livro e um capítulo de amostra: https://drive.google.com/file/d/1gE09WpL7ZiLYEeOV4y71M4mLRNIAyyh3/view?usp=sharing

SINOPSE

“Desde há muito tempo que o Homem habita a parte mais ocidental da península Ibérica…”- Parafraseando o início de muitos livros de história de Portugal

Mas… e antes disso? Antes de Portugal? Antes de existirem pessoas por cá? Antes de o Douro desaguar no Porto, ou do próprio Porto “ser feito” de granito? Antes de Lisboa ter colinas basálticas e a tão característica rocha calcária usada para empedrar as calçadas? Antes de o Norte ser montanhoso? Antes de existirem ilhas no Atlântico? Antes até de o Atlântico existir?

O objectivo deste livro é ir além da curta história das pessoas que habitaram o território português, para levar o leitor numa viagem de centenas de milhões de anos, atravessando o nascimento e morte de oceanos, a elevação e erosão de cordilheiras montanhosas, o aparecimento e extinção de inúmeras formas de vida, e descobrir porque é que a “nossa” terra é assim como é, nos nossos dias. Nesta história, que se inicia com a formação de uma antiga cadeia de vulcões e que termina com a colonização do nosso território pelo Homem durante uma prolongada era glaciar, vemos como este pequeno rectângulo à beira-mar plantado contém dentro das suas fronteiras uma história natural muito rica. Esta ajuda-nos não só a perceber a história do país onde vivemos, mas também algumas das grandes etapas da evolução do nosso planeta.

 

ESTRUTURA

A história segue as principais etapas da evolução do nosso território ao longo do tempo:

  • A génese das primeiras formações rochosas portuguesas, num ambiente de vulcanismo intenso;
  • A abertura do antigo oceano Reico, um antecessor do Atlântico, contemporâneo das trilobites;
  • O fecho desse mesmo oceano Reico durante a formação da Pangeia, que levou à formação de uma extensa cordilheira montanhosa;
  • A abertura das bacias oceânicas do Atlântico e Mediterrâneo, coincidindo com a evolução dos dinossauros, dos mamíferos e das plantas com flor, grupos dos quais temos vestígios de importância mundial;
  • A “montagem” da península Ibérica como a conhecemos, com a génese das grandes formas actuais da paisagem e a evolução dos grupos de fauna e flora que ainda hoje predominam;
  • Uma conturbada fase final com a formação das ilhas atlânticas e a ocorrência de períodos glaciares, durante os quais o Homem começou a habitar o nosso território.
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“Your brain evolved from Bacteria”

Por: Dwayne Godwin e Jorge Cham

 

 

Vídeo – Spirit of Lusitania

Vários momentos dos documentários de Daniel Pinheiro em Portugal. Um país lindo!

Vídeo – Entre o céu e as marés

O estuário do Sado constitui uma das principais zonas húmidas de Portugal.
Separado do oceano pelo extenso cordão dunar da península de Tróia, o estuário proporciona características excepcionais à vida selvagem, principalmente às aves aquáticas. Aqui podemos observar cerca de metade das espécies de aves existentes em todo o país. O documentário revela a vida das aves nos vários habitats do estuário e a forma como é condicionada pela grande força motriz deste ecosistema – as marés.

Filmagens de Daniel Pinheiro e locução de Eduardo Rêgo. Sem dúvida do melhor que temos em divulgação da vida selvagem nacional!

A (má) gestão florestal, os incêndios e o futuro de Portugal

Texto da autoria de José Baptista da Ascenção (Professor de Biologia e Geologia na Escola Secundária Carlos Amarante, em Braga)

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“Agosto de 2013 chegou ao fim com as matas portuguesas consumidas num mar de fogo, ao longo de muitos dias, apesar dos enormes gastos com meios de ataque, como aviões e carros de bombeiros, com enormes prejuízos económicos, ambientais e sociais e, sobretudo, com a morte de várias pessoas.

Digamo-lo frontalmente: com o desmazelo a que estão sujeitas as nossas florestas, com a acumulação de matéria altamente combustível ano após ano, com espécimes altamente inflamáveis como o pinheiro bravo e o eucalipto, com a desertificação do interior rural, onde só restam idosos, muitos deles com limitações de locomoção, por doença e idade, e também consequência de vagas de calor que parecem tornar-se cada vez mais frequentes e intensas, lutar contra o fogo quando as temperaturas ambientais sobem acima dos 35 ºC e a humidade atmosférica é muito baixa, é tarefa praticamente impossível. Dito isto, parece que estamos condenados ao inferno literal, nos meses de Julho e Agosto. Não é bem assim. E se até agora os factos parecem confirmar a inevitabilidade da desgraça, a verdade é que o desastre continuado a que temos assistido se deve à responsabilidade de todos nós e dos governantes que temos escolhido. O que se pode fazer então?

Fogo no Alto de Quintela (2005) – Fonte: Nuno Sequeira André (http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Fogo_Quintela.jpg)

A mais importante medida é gerir a floresta. Segundo as previsões dos climatologistas, a tendência é para a média das temperaturas continuar a subir nas próximas décadas. Assim, vale a pena pensar nas diferentes regiões do país, no coberto vegetal que melhor se adaptaria a cada uma e na rendibilidade dos produtos silvícolas, em face da ocupação antrópica (características da população humana) de cada zona.

No sul do país, particularmente no Alentejo, os montados de sobro e azinho são bem adequados à secura dos solos e também à resistência ao fogo, particularmente no caso do sobreiro. A bolota é um alimento útil na criação de porcinos e estes animais contribuem para a limitação do crescimento de vegetação rasteira. Acresce que a cortiça é um bem de elevado valor económico, de que Portugal é o primeiro produtor mundial. Conservar o montado existente e expandi-lo a outras regiões de Verões quentes e muito secos, fomentando actividades como a exploração de cortiça, de madeira para combustível, a caça, a pastorícia, a apicultura, etc, parece razoável.

No centro e norte do país montanhoso, onde os incêndios têm deixado muitas zonas despidas de coberto arbóreo, outrora revestido de árvores como os castanheiros e os carvalhos, estes largamente abatidos para construção das naus com que se fizeram os descobrimentos e, muito posteriormente, para obtenção das travessas das linhas de caminho de ferro, devastação que se prolongou até final do século passado, as zonas hoje florestadas são-no essencialmente com pinheiro bravo e eucalipto, cujas culturas se expandiram enormemente durante o século vinte, o pinheiro a partir do seu início e o eucalipto a partir da segunda metade. O pinheiro-bravo é fonte de rendimento importante de madeira, resina e pasta de papel e o eucalipto sobretudo de pasta de papel. Porém, a florestação com pinheiro-bravo e eucalipto com o clima a aquecer, sem desbaste e remoção periódica da matéria vegetal seca acumulada no solo devido à desertificação humanal do interior do país, tornou pinhais e eucaliptais em “barris de pólvora” prontos a deflagrar à menor ignição, seja ela criminosa ou natural ou resultante de descuido. Parece pois que as zonas do centro e norte do país, com características mais atlânticas (mais húmidas) ou mais mediterrânicas (com estações secas mais longas) deveriam receber espécimes florestais mais convenientes e variados, escolhidos entre os carvalhos, o castanheiro ou mesmo o sobreiro ou outras árvores que, consoante os locais, fossem vantajosas: coníferas de agulha curta, bétulas, medronheiros, etc. Os carvalhos ainda recentemente foram entre nós fonte de madeira útil e muito apreciada no fabrico de móveis e de barrotes de grande resistência e durabilidade para a construção bem como de matéria lenhosa para combustão. E o castanheiro também, além da produção de fruto que, noutros tempos, foi componente importante da alimentação dos portugueses e hoje pode ser usado na confecção de variados produtos alimentares. De resto, também a bolota chegou a ser usada na alimentação humana, até no fabrico de pão! Mas o principal benefício da florestação com caducifólias residiria na sua maior resistência à combustão e, por essa via, na prevenção de incêndios. Naturalmente, para além das escolhas das espécies arbóreas, a prevenção de fogos implica sempre a remoção de matos rasteiros, a construção de faixas de contenção e muito ganharia, seguramente, com o recurso adequado ao uso de contrafogo.

Obviamente, tomar decisões fortes sobre a floresta implicaria tocar em poderosos interesses económicos e em postos de trabalho que existem, para além das mentalidades, mas tinha a vantagem de proporcionar novas possibilidades económicas e novas perspectivas de emprego. Não sei que outros caminhos se possam seguir. Sei, no entanto, que não podemos assistir impotentes à destruição do país pelas chamas infernais de cada estio.

Monocultura de eucalipto no distrito de Leiria – Fonte: Alexandre de Oliveira Brites (http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Eucaliptos_Serra_da_Senhora_do_Monte.JPG)

 

Entretanto, seria bom acautelar efectivamente e por meio legal habitações e pessoas do perigo do fogo florestal: relativamente a casas de habitação, devia a legislação estabelecer um perímetro de limpeza obrigatório de dezenas de metros (vinte, trinta metros?…) que, não sendo feito pelos proprietários dos terrenos, pudesse ser feito pelos donos ou ocupantes das casas, revertendo, neste caso, em seu proveito os materiais colhidos na operação de limpeza.

Entretanto resta-nos chorar os mortos e esperar pelas primeiras chuvas, o que é (além do prejuízo, incalculável) imensamente triste.

Não termino este texto sem a homenagem devida à coragem e abnegação dos soldados da paz.

José Baptista da Ascenção”

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Referências

– “Os Carvalhais – Um património a conservar”. Árvores e florestas de Portugal, vol 2. Edição: Público, Comunicação Social, SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Vários autores. Lisboa. Abril de 2007.

– “Os Montados – Muito para além das árvores”. Árvores e florestas de Portugal, vol 3. Edição: Público, Comunicação Social, SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Vários autores. Lisboa. Abril de 2007.

– “Pinhais e eucaliptais – A floresta cultivada”. Árvores e florestas de Portugal, vol 4. Edição: Público, Comunicação Social, SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Vários autores. Lisboa. Maio de 2007.

– “Do castanheiro ao teixo – As outras espécies florestais”. Árvores e florestas de Portugal, vol 5. Edição: Público, Comunicação Social, SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Vários autores. Lisboa. Maio de 2007.

– “Proteger a floresta – Incêndios, pragas e doenças”. Árvores e florestas de Portugal, vol 8. Edição: Público, Comunicação Social, SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Vários autores. Lisboa. Maio de 2007.

As árvores e a internet

Estudar borboletas… com dignidade!

Lycaenidae

Foto (c) Pedro Andrade

... the study of butterflies – creatures selected as the types of airiness and frivolity – instead of being despised, will some day be valued as one of the most important branches of Biological science.

– Henry Walter Bates, naturalista inglês do séc. XIX

E não é que tinha razão?

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