Rotifera – pequeno resumo

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Os rotíferos (Rotifera) são um curioso grupo de animais que poucas pessoas que não estudaram biologia conhecem. São pequeninos (incluem de facto as espécies de animais mais pequenas), vivem na água… não se cruzam directamente com a nossa vida diária, razão suficiente para podermos ignorar estes bichos chatos sem problemas! Mas ignoremos o ignorar (!) por momentos, e prestemos-lhes um bocadinho mais de atenção…

Os rotíferos são animais de tamanho pequeno mas com uma morfologia muito variada – a principal característica deste grupo, e que lhe dá o nome, é a coroa de cílios na cabeça, que quando está em movimento dá a impressão de estar em rotação. São frequentes sobretudo em habitats dulciaquícolas, embora existam também várias espécies marinhas, terrestres (em solo húmido e musgo – um dia, no laboratório de desenvolvimento vegetal na FCUP, descobri um rotífero ao ver raízes de Arabidopsis thaliana ao microscópio!), endoparasitas ou em simbiose com outras formas de vida.

Rotífero - (Fonte: http://biodidac.bio.uottawa.ca)

Anatomicamente, o seu corpo está dividido em três partes: cabeça, tronco e cauda. Na cabeça localiza-se a coroa de cílios acima referida, cuja principal função é gerar uma corrente que empurra partículas na direcção da boca, podendo ser utilizada também para locomoção. A boca está ligada a uma faringe mandibulada, chamada mastax (os biólogos inventam nomes fantásticos!), que é usada para triturar os alimentos que entram no tubo digestivo. A maioria dos restantes órgãos localiza-se no tronco, e a cauda, que permite ao rotífero agarrar-se ao substrato (e por isso está ausente em formas natatórias, e modificado em formas que estão permanentemente agarradas).

A forma mais comum de alimentação é a descrita acima, usando o movimento dos cílios da coroa para gerar uma corrente que leva partículas em suspensão na água para o interior do mastax, que as desfaz. No entanto podemos encontrar muitos mais métodos de subsistência nestes animais, muitos dos quais bizarros! Se não vejamos: alguns são predadores, utilizando um mastax que se projecta para fora da boca para capturar as presas (animais ou vegetais, que depois são desfeitas ou sugadas pelo mastax); noutros os cílios da coroa estão transformados em espinhos numa armadilha em forma de funil; outros são parasitas dentro de protistas coloniais como Volvox!

Se os rotíferos predadores fossem do nosso tamanho (Fonte: http://dotancohen.com)

Provavelmente o aspecto mais conhecido dos rotíferos é o comportamento reprodutivo.  Machos é algo muito fora de moda no mundo destes invertebrados – na grande maioria das espécies os machos são em menor número, ou em menor tamanho, ou em menor complexidade. Ou inexistentes! Os Bdelloidea são um grupo de rotíferos para os quais nunca se observou um único macho, reproduzindo-se as fêmeas assexualmente (por partenogénese – cada fêmea gera uma nova fêmea geneticamente idêntica). São de facto o maior grupo animal conhecido com este método de reprodução – os animais que adoptam este método de reprodução geralmente não demoram muito tempo até se extinguirem, mas os bdelóides escapam a esse destino há já  80 milhões de anos! Geralmente explica-se a desvantagem das linhagens assexuais como não tendo capacidade de se adaptarem rapidamente a mudanças ambientais (a falta de cruzamento entre indivíduos dificulta que mutações favoráveis se espalhem), mas para os bdelóides a ausência de cruzamentos pode muito bem ser um estímulo à diversidade – um estudo de 2007 mostra como a ausência de recombinação faz com que todos os genes possam evoluir de forma independente, e por isso adquirir novas funções.

Outro forma bizarra através da qual os bdelóides aquirem diversidade genética é um fenómeno conhecido por transferência horizontal de genes. Este processo, comum em seres unicelulares mas mais raro em animais, consiste basicamente em “capturar” material genético de outro ser vivo (nos humanos ocorre sobretudo graças a vírus que se inserem no nosso DNA, e que acabam por lá ficar). Nos bdelóides, que vivem em habitats sujeitos a períodos de seca, a constante dissecação e processo de recuperação causam rupturas no DNA e membranas celulares. Para isto estes animais evoluíram mecanismos de reparação, mas durante este processo fragmentos de DNA que estejam presentes no meio são também incorporados – no bdelóide Adineta vaga foram detectados genes de bactérias, fungos e plantas.

Não quero que este primeiro post fique longo demais, por isso paro por aqui. No futuro voltarei a falar dos rotíferos – resistência à radiação, sistemática, colonialismo e mais. Mas para terminar…

A savana no charco…

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Rotifera – pequeno resumo (parte 1)

Um ano depois, mais histórias de rotíferos! (parte 2)

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Referências

– Brusca, R. C., and G. J. Brusca (2003). Invertebrates. Second edition. Sinauer Associates, Inc., Sunderland, MA.
Gladyshev, E., Meselson, M., & Arkhipova, I. (2008). Massive Horizontal Gene Transfer in Bdelloid Rotifers Science, 320 (5880), 1210-1213 DOI: 10.1126/science.1156407
Pouchkina-Stantcheva, N., McGee, B., Boschetti, C., Tolleter, D., Chakrabortee, S., Popova, A., Meersman, F., Macherel, D., Hincha, D., & Tunnacliffe, A. (2007). Functional Divergence of Former Alleles in an Ancient Asexual Invertebrate Science, 318 (5848), 268-271 DOI: 10.1126/science.1144363

6 Responses to Rotifera – pequeno resumo

  1. Nina diz:

    Os rotíferos e os tardígrados (estes também davam um bom tema!) são os grupos de invertebrados mais espectaculares que conheci no decorrer do curso de biologia..vê-los ao microscópio é mesmo…especial =)
    Quanto aquela referência do estudo de 2007 mostrar que a ausência de recombinação faz os genes evoluir de forma independente, isso foi demonstrado com base no genoma de espécies de rotíferos? Essa conclusão é muito interessante.

  2. vidaterra diz:

    Sim, em espécies sexuais a recombinação genética tem um efeito de homogeneização, que faz com que o conteúdo de um locus para os dois cromossomas homólogos nunca seja muito diferente. Num organismo assexual, os dois cromossomas homólogos adoptam basicamente percursos evolutivos distintos, actuando como entidades independentes, o que permite que de outra forma seja possível aumentar a diversidade do genoma. Nesse artigo de 2007 os autores estudaram divergência funcional em genes que eram anteriormente alelos do mesmo locus nos dois cromossomas previamente homólogos, e verificaram que esses genes evoluíram para codificar proteínas diferentes mas complementares na protecção contra a dissecação.

    • Bianca diz:

      Qual foi a metodologia, o objetivo que fez com que você publicasse esse artigo?

      • vidaterra diz:

        Olá Bianca, o artigo do blog foi escrito com base em artigos científicos de outras pessoas, que são citados no fim, na secção das referências. Se carregares nos links tens acesso pelo menos ao abstract, e lá podes ter uma ideia da metodologia que os autores usaram.

  3. Pingback: Origem e evolução dos animais – parte 4 « Histórias da Vida e da Terra

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