A curiosa história de um ladrão de ovos

Nos anos 1920 o Museu Americano de História Natural (American Museum of Natural History, AMNH) organizou uma série de grandes expedições ao remoto Deserto de Gobi, na Mongólia. Apesar do local extremo (especialmente para época quando era ainda pouco conhecido) as expedições foram um grande sucesso, produzindo uma grande quantidade de material, sobretudo paleontológico, que ficou mundialmente conhecido. O rosto da expedição era o seu líder, Roy Chapman Andrews, naturalista empenhado que subiu na carreira à custa da sua dedicação e conhecimento, começando como funcionário de limpeza e chegando ao posto de director (e que pode ter servido de inspiração para a criação de Indiana Jones, embora isto nunca tenha sido confirmado).

 

Trabalho difícil... (Fonte: Getty Images)

Durante a primeira expedição, mais concretamente a 13 de Julho de 1923 em Bayn Dzak, um técnico de paleontologia, George Olsen, anunciou aos restantes membros da expedição que tinha encontrado ovos fossilizados. A descrença inicial foi superada quando membros séniores da expedição analisaram o achado, concluindo que deveriam tratar-se de ovos de dinossauro. Fez-se uma grande publicidade aos achados, e chegou mesmo a ser publicitado que eram os primeiros ovos de dinossauro a serem descobertos, o que não corresponde exactamente à realidade, embora seja possível que tenha sido a primeira vez que ovos de dinossauro foram reconhecidos como tal.

O dinossauro mais frequentemente encontrado pela equipa nesta região foi um parente do conhecido Triceratops, mas com algumas características primitivas, e que por isso foi designado Protoceratops andrewsi. Era tão comum que, certamente, os ovos encontrados por Olsen pertenceriam a esta espécie. O que era estranho era a presença de ossos de um estranho animal por cima dos ovos.

Estes achados foram enviados para o AMNH, onde foram analisados pelo seu presidente e influente paleontólogo Henry Fairfield Osborn. Em 1924, publicou um artigo em que descreveu três novos dinossauros terópodes (o grupo que inclui os dinossauros carnívoros, as aves, e outros parentes próximos). Estes incluíam dois pequenos e ágeis predadores, Velociraptor mongoliensis e Saurornithoides mongoliensis, e o esqueleto encontrado por cima dos ovos de Protoceratops de Olsen. Este era um animal realmente estranho: um crânio desdentado, com um bico, com múltiplas aberturas e proporções bizarras comparado com qualquer outro dinossauro conhecido até à altura. A análise da anatomia dos membros anteriores foi fundamental para perceber que realmente era um dinossauro terópode.

 

Crânio do espécime original de Oviraptor philoceratops (Fonte: Osborn, 1924)

Osborn deu-lhe o nome Oviraptor philoceratops – literalmente “ladrão de ovos que gosta de ceratópsios”. Os ovos de Olsen deveriam ser de Protoceratops. O estranho Oviraptor, cujo curioso crânio poderia servir perfeitamente para quebrar cascas de ovo, foi encontrado por cima dos ovos, por isso a conclusão lógica seria que este animal morreu soterrado por uma tempestade de areia precisamente no momento em que se preparava para se alimentar dos ovos do herbívoro Protoceratops.

Sendo o centro de um dos mais célebres achados de uma das mais célebres expedições científicas de todos os tempos, rapidamente o estranho Oviraptor ganhou a reputação de ladrão de ovos, aproximando-se sorrateiramente dos ninhos do pobre Protoceratops para fazer uma refeição às custas da sua prole. Esta imagem era um clássico em muitos dos livros de dinossauros que li em criança. Não que um animal que se alimente de ovos de outros seja “mau” – isto é uma prática comum na Natureza, e nada tem de maldoso. A Natureza não se rege por padrões morais, e não devemos cair na tentação de os atribuir a qualquer comportamento natural. Mas a verdade é que a maioria das pessoas inconscientemente acaba por os atribuir, e o próprio Osborn sabia disso, quando afirmou que:

“Os nomes genérico e específico … podem levar-nos completamente ao engano sobre os seus hábitos alimentares e difamar o seu carácter”

As evidências de predação neste caso eram completamente circunstanciais,  mas só nos anos 1990 se começou a questionar seriamente esta associação. Em 1993 chega a primeira grande evidência contra a interpretação clássica: um embrião de oviraptorídeo preservado dentro de um ovo muito semelhante aos de 1923. Em 1995 a história é definitivamente virada do avesso, com a descoberta de um novo ninho, de novo com um espécime de oviraptorídeo (que mais tarde seria atribuído à espécie Citipati osmolskae), só que desta vez a relação não era ambígua: os ovos, arranjados circularmente à volta do ninho, eram certamente de oviraptorídeo, e o esqueleto encontrava-se numa posição semelhante à que as aves usam hoje em dia para incubar os ovos!

 

Ninho de Citipati osmolskae (Fonte: cienciaviva.pt)

A imagem clássica de oviraptorídeos a predar ninhos de Protoceratops começa cada vez a ser mais distante, e cada vez mais os novos livros propagam uma imagem do Oviraptor como uma mãe cuidadosa. Até na ciência isso se reflecte: quando foi necessário mudar o nome do oviraptorídeo Nemegtia (nome já usado por um crustáceo), foi escolhido o nome Nemegtomaia, ou “boa mãe de Nemegt”.

Quanto aos hábitos alimentares destes estranhos animais, a dúvida persiste, embora se pense que possam ser omnívoros (um novo oviraptorídeo sugere que se alimentavam sobretudo de material vegetal, embora já tenham sido encontrados vestígios de um lagarto no holótipo de Oviraptor).

 

Referências

– Carpenter, K. (1999), Eggs, Nests, and Baby Dinosaurs: A Look at Dinosaur Reproduction: Bloomington, Indiana University Press

– Clark, J.M., Norell, M.A., & Chiappe, L.M. (1999). “An oviraptorid skeleton from the Late Cretaceous of Ukhaa Tolgod, Mongolia, preserved in an avianlike brooding position over an oviraptorid nest.” American Museum Novitates, 3265

– Fastovsky, D.E. & Weishampel, D.B. (2009).Dinosaurs: A Concise Natural History (Cambridge: Univ. of Cambridge Press)

– Osborn, H. F. (1924). Three new Theropoda, Protoceratops zone, central Mongolia. American Museum Novitates 144: 1–12.

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