Cuscuta, uma planta parasita

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Esta população de Artemisia crithmifolia (madorneira), fotografada em dunas perto de Espinho, possui uma série de estranhos filamentos amarelados à volta do seu corpo. Sob um olhar mais desatento até poderiam passar por algum tipo de lixo, mas a estranha verdade é que são nada menos que plantas parasitas do género Cuscuta.

Uma estranha massa amarela a cobrir madorneiras... - Foto (c) Pedro Andrade

Membros do grupo Convolvulaceae, juntamente com plantas como a corriola ou a batata-doce, as espécies de Cuscuta apresentam um conjunto de estranhas características que lhes permite adaptarem-se a uma vida parasítica. Como é conhecido da maioria das pessoas, a maior parte das plantas possui de um modo geral o corpo dividido em raíz, caule e folhas. Esta estrutura básica está muito modificada na cuscuta, que não possui raíz, possuí folhas muito reduzidas e em forma de escama, e cujo caule é fino e alongado e com raízes adventícias, os haustórios, para se ligar ao hospedeiro. Ao contrário também da maioria das plantas, a presença de clorofila é muito reduzida ou mesmo inexistente em alguns casos, o que faz com que este parasita possa estar completamente dependente da água e nutrientes fornecidos pela planta hospedeira (é um holoparasita).

Estas estranhas características anatómicas sempre deram dores de cabeça aos taxonomistas vegetais na hora de classificar Cuscuta. As características das flores sugeriam afinidades com as restantes convolvuláceas, mas apurar as afinidades dentro dessa família com maior rigor sempre foi muito complicado até ao advento de técnicas de biologia molecular, e mesmo com recurso a estas as relações não são claras, embora se demonstre claramente que formam um grupo monofilético dentro das convolvuláceas. Existem três grandes grupos, geralmente designados subgéneros, de Cuscuta: Cuscuta, Monogyna e Grammica.

 

Cuscuta nas dunas da Apúlia - Foto (c) Rui Andrade

Vários nomes comuns são dados a estas plantas, como cabelos, cabelos-de-nossa-senhora, enleios ou o mais simples cuscuta.

 

Haustórios de cuscuta - Fonte: University of Winnipeg

 

Quando as sementes de cuscuta germinam na Primavera ou Verão, não surgem pequenas folhas (cotilédones) como em plantas ditas “normais”, mas sim um pequeno caule, que cresce e roda até atingir o caule ou folha de outra planta, começando-se a enrolar à volta dela, e formando haustórios que penetram nos tecidos vasculares do hospedeiro. Após algum tempo quebra-se a ligação do parasita ao solo, passando este a viver permanentemente ligado à parte aérea do hospedeiro. A floração pode ocorrer desde a Primavera até ao Outono, e as sementes geradas podem permanecer num estado dormente durante 10 a 30 anos até germinarem. A germinação ocorre em temperaturas óptimas de 30 ºC, mas pode também ocorrer entre 15 e 38 ºC, e é necessário a semente estar localizada nos 1,5 cm mais superficiais do solo.

 

Haustórios da cuscuta em evidência (foto tirada nas dunas da Apúlia) - Foto (c) Rui Andrade

Várias espécies de cuscuta têm-se tornado um grande problema económico por serem parasitas de várias espécies agrícolas. O controlo das suas populações é feito necessariamente com recurso a várias técnicas, como a remoção física da planta ou controlo químico com recurso a alguns herbicidas. A prevenção também é uma boa medida no combate à cuscuta: sempre que se trabalha num campo infestado, é sempre aconselhável lavar bem os equipamentos antes de passar para um campo não infestado; cuidados semelhantes devem ter-se com animais que pastem num campo infestado, pois sabe-se que as sementes resistem à passagem pelo sistema digestivo dos herbívoros. Outro método eficaz é a rotação de culturas, especialmente se se plantarem durante anos sucessivos espécies não-hospedeiras como muitas espécies cerealíferas – a cuscuta germina mas não consegue arranjar um hospedeiro compatível, morrendo pouco depois, esgotando-se assim progressivamente o banco de sementes depositado no solo.

 

Referências

– Ashigh, J. & Marquez, E. E. (2010) – Dodder (Cuscuta spp.) Biology and Management. NM State University

– Lanini, W.T.; Kogan, M. (2005) Biology and management of Cuscuta in crops. Cienca e InvestigacionAgraria, 32, 165-179

– Stefanovic, S., Krueger, L., & Olmstead, R. (2002). Monophyly of the Convolvulaceae and circumscription of their major lineages based on DNA sequences of multiple chloroplast loci American Journal of Botany, 89 (9), 1510-1522 DOI: 10.3732/ajb.89.9.1510

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