Sedas de aranha

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As aranhas não costumam ser dos animais preferidos das pessoas, mas é inegável que prestam um serviço ecológico imprescindível, dado que são dos principais predadores de muitos insectos, uma força de controlo crítica que evita que populações de muitos insectos ultrapassem a capacidade de suporte do ecossistema. Vitais neste controlo, e provavelmente as características mais conhecidas das aranhas, são as teias e outras estruturas feitas de seda que as aranhas produzem, e é a história delas que vou contar hoje.

O que se esconde no fundo do túnel? - Foto (c) Pedro Andrade

A seda que as aranhas usam para fazer teias e para outros fins é um complexo fibro-proteico composto principalmente por três aminoácidos: glicina, alanina e serina. Inicialmente produzida sob a forma de um líquido solúvel em água, torna-se sólida quando entra em contacto com o ar, e com isto o seu peso molecular e a força das ligações intermoleculares aumenta substancialmente – a teia pode ser 5 vezes mais forte que o aço!

A seda líquida é produzida em glândulas especializadas (das quais há vários tipos diferentes, fazendo diferentes tipos de seda) localizadas na parte posterior do abdómen da aranha, e depois é trabalhada por uma série de órgãos que tecem fibras de diferentes espessuras, e esta combinação de diferentes tipos de seda com fibras de diferentes diâmetros permite às aranhas produzir filamentos com diferentes características, para diferentes propósitos: para trepar, construir ninhos e casulos, armadilhas, para armazenar presas, revestir tocas… A construção da teia é completamente independente da visão, com a aranha apenas a usar os seus receptores tácteis para a controlar, e nem a gravidade parece ter grande efeito na construção da teia, comprovado pela construção de teias por aranhas enviadas para o espaço.

O uso mais conhecido para a seda é a construção de armadilhas (atenção que há muitas aranhas que não as constroem, embora usem seda para outros fins) – estas são geralmente teias feitas de seda, que podem ter diversas formas, nas quais a presa fica agarrada por uma cola especial ou emaranhada nas fibras que as constituem, com o seu movimento a alertar a aranha para a presença de algo na sua teia. Aquando da captura da presa, a aranha muitas vezes enrola-a em seda e imobiliza-a para impedir que a teia seja danificada, ou mesmo que ela própria seja atacada por uma presa mais perigosa.

A aranha-vespa (Argiope bruennichi) a enrolar uma presa em seda - Foto (c) Pedro Andrade

A origem desta fascinante estrutura natural está envolvida em alguma controvérsia, com algumas hipóteses competidoras a serem avançadas por vários investigadores. Dado que as aranhas descendem de aracnídeos aquáticos, que provavelmente se adaptaram ao meio terrestre durante o Devónico, a seda poderá ter as suas origens em algum tipo de comportamento aquático. Algumas aranhas aquáticas poderiam usar seda para reforçar as suas tocas de lama, ou como uma cobertura para tapar e humedecer o aparelho respiratório enquanto as aranhas não tinham evoluído as brânquias-livro que lhes permitem respirar o oxigénio atmosférico. Outra hipótese sugere que as teias inicias formariam uma protecção para os ovos contra os agentes externos, tendo evoluído com o tempo para ficar mais fibroso e adesivo para os ovos não dispersarem. Curiosamente, aranhas do género Argyroneta usam a seda para ambos os fins (protecção de ovos, e como protecção dos pulmões em épocas de cheia), e é possível que isso tenha acontecido durante a evolução das aranhas.

A partir daí poderiam evoluir outros mecanismos mais simples de uso de seda, como linhas para guiar o movimento ou como simples detectores de movimento de presas.

A forma da teia de uma dada espécie está intimamente ligada à sua morfologia e comportamentos, o que permite reconstruir com alguma fiabilidade a forma da teia de aranhas extintas há muitos milhões de anos (Ma). De facto, embora fósseis de aranhas não sejam muito comuns, há um bom número de fósseis com um bom grau de preservação que nos permite olhar para comportamentos passados através da morfologia de espécies extintas. Dentro destes os mais comuns serão vestígios preservados em âmbar, resina fossilizada.

A aranha mais antiga conhecida é Attercopus fimbriunguis, do Devónico Médio, e embora possua um conjunto de características mais primitivas que as aranhas actuais, já possui um aparelho produtor de seda relativamente moderno, o que demonstra que, para além de serem dos primeiros animais terrestres, as aranhas tinham já na altura características semelhantes às que retêm hoje. As suas presas seriam outros artrópodes terrestres primitivos, numa altura em que não existiriam ainda insectos voadores.

A evolução destes, no final do Devónico ou início do Carbonífero, poderá ter sido um motor que levou à construção de teias por partes das aranhas, seus predadores: com os insectos a adquirir asas, as aranhas tiveram que arranjar um meio para as “seguir” pelos céus, com as teias a evoluir para permitir às aranhas continuar a caçar esses insectos. No entanto, isto é especulativo, visto não haver evidências que demonstrem isto conclusivamente. A evolução das aranhas continuou pelo Paleozóico e Mesozóico, acompanhando a diversificação dos insectos, mas sem que haja até agora evidências que alguma vez tiveram uma capacidade de diversificação igual à dos insectos.

Uma teia de aranha circular, uma boa maneira de apanhar insectos em voo - Foto (c) Pedro Andrade

Foi há mais de 200 Ma, durante o Triásico, que provavelmente surgiu a primeira teia circular semelhante às actuais, o que é sugerido por fósseis de aranhas com características dos membros muito semelhantes às aranhas actuais que as fazem. Durante o Jurássico já existiriam aranhas que construíam teias em funil e aranhas escavadoras, e durante o Cretácico já estariam presentes muitos dos grupos actuais de aranhas.

 

Referências

– Brusca, R. C., and G. J. Brusca (2003). Invertebrates. Second edition. Sinauer Associates, Inc., Sunderland, MA

Vollrath, F., & Selden, P. (2007). The Role of Behavior in the Evolution of Spiders, Silks, and Webs Annual Review of Ecology, Evolution, and Systematics, 38 (1), 819-846 DOI: 10.1146/annurev.ecolsys.37.091305.110221

2 Responses to Sedas de aranha

  1. Existe homem aranha, mas aranha homem não encontrei por aqui, se alguem achar solicite.me please

  2. elvis vieira dos santos diz:

    Era o que eu procurava.
    Aranhas são muito interessante

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