Tordo-zornal: diferentes predadores, diferentes defesas

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O tordo-zornal (Turdus pilaris) é uma espécie menos conhecida de tordo, parente do melro (Turdus merula) e do tordo-comum (Turdus philomelos), que em Portugal aparece só nos meses mais frios (Outubro a Março), vindo de países do Norte da Europa. Na Primavera e Verão volta a migrar para esses países, onde nidifica.

Os ninhos de tordo-zornal, que podem ser solitários ou inserir-se numa colónia, são muitas vezes alvo de predação por parte de corvídeos (como corvos ou gralhas) ou mustelídeos (doninhas e parentes). Os tipos de predadores predominantes num local são determinantes para escolher a forma como as aves se agrupam e comportam durante a nidificação, segundo um estudo realizado pelo ornitólogo Olav Hogstad em 2003, numa floresta de bétulas em Budal, na Noruega.

Tordo-zornal (Turdus pilaris) - Fonte: Estormiz (http://commons.wikimedia.org/wiki/User:Estormiz/Birds)

O ninho desta espécie, em forma de taça, é construído na ramificação entre o tronco principal e um ramo, entre 1,5 a 5 metros do solo, e é bastante visível, podendo facilmente ser detectado pelos seus predadores avianos e mamíferos – estes conseguem trepar às árvores para chegar ao ninho. A experiência de Hogstad consistiu em registar o comportamento defensivo de tordos-zornais na fase final da incubação, ao ser-lhes colocado à beira do ninho bonecos de gralha-cinzente (Corvus cornix) e arminho (Mustela erminea).

As experiências mostram comportamentos diferentes consoante o predador: o boneco de gralha-cinzenta foi atacado muito mais activamente pelos tordos do que o boneco do arminho, e os próprios movimentos dos tordos quando estavam no ninho eram mais discretos quando o arminho estava nas proximidades. Isto muda, no entanto, quando tanto o arminho como a gralha estão muito próximos do ninho – nesse caso ambos são ferozmente atacados pelo tordo-zornal.

Predadores do tordo-zornal no estudo de Olav Hogstad: a gralha-cinzenta (Corvus cornix) e o arminho (Mustela erminea) - Fontes: Mindaugas Urbonas e Steve Hillebrand

Os comportamento defensivos foram divididos em três classes: 1) abandonar o ninho silenciosamente, e só dar o alarme quando bastante afastados do ninho; 2) abandonar o ninho silenciosamente, vocalizando persistentemente a 15 metros do ninho; 3) atacar o predador, muitas vezes defecando nele. Os resultados demonstram que, quando o predador é um corvídeo, como a gralha, os tordos-zornais adoptam mais frequentemente a estratégia 3, mais ofensiva. Quando o predador é um mustelídeo, como o arminho, o tordo adopta quase sempre as estratégias 1 e 2, para tentar atrair o predador para longe do ninho, e só quando o arminho está a 1 metro é que os tordos têm mais tendência para o atacar (mas nunca tanto como para a gralha).

Também se registou o tempo que o tordo-zornal leva para voltar ao ninho após o predador ser removido, e demonstrou-se que demora mais tempo a voltar no caso do arminho (3 a 10 minutos, contra 1 a 4 minutos no caso da gralha).

(David Attenborough explica como o tordo-zornal usa as fezes para se defender de um corvídeo, neste caso o corvo Corvus corax. Infelizmente a BBC não deixa incorporar o vídeo no post, por isso tem que ser visto no YouTube)

Estes comportamentos mais tímidos contra o arminho estão relacionados com as estratégias que o tordo-zornal usa para se defender. Esta ave é conhecida por atacar os corvídeos defecando neles – as fezes mancham a plumagem e fazem com que perca a capacidade de isolamento térmico, uma das suas principais funções, deixando a ave predadora vulnerável; isto já não será problemático para a pelagem dos mamíferos. Para além disso há o problema de, ao contrário das aves, os mustelídeos serem animais essencialmente nocturnos, pelo que o ataque aos mustelídeos e o uso de fezes é mais complicado.

Enquanto que os tordos se conseguem defender mais eficazmente contra os corvídeos usando o ataque, para os mustelídeos a defesa passa por uma mudança de hábitos – nos locais onde predominam mustelídeos como predadores, os tordos-zornais têm tendência a fazer ninhos solitários. Se os ninhos estivessem em colónias, era muito mais fácil a estes mamíferos predarem todos os ninhos. O comportamento mais tímido frente ao arminho também se explica porque, embora os corvídeos sejam essencialmente predadores dos ovos, os mustelídeos, mais discretos, podem também caçar os próprios tordos adultos. Quando um corvídeo aparece o tordo-zornal tem muito menos perigos se for agressivo, pois não é atacado e consegue perceber para onde o corvídeo foge; é muito mais difícil ter a certeza onde está o discreto mustelídeo, e ele pode mesmo apanhar o tordo desprevenido e fazer dele o almoço!

Referências

Hogstad, O. (2004). Nest defence strategies in the fieldfare Turdus pilaris: the response on an avian and a mammalian predator Ardea, 92 (1), 79-84 (link)

2 Responses to Tordo-zornal: diferentes predadores, diferentes defesas

  1. Tata diz:

    Como são esses ninhos em colônia??? Vários numa mesma árvore?

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