O carvalho-cerquinho

O carvalho-cerquinho (Quercus faginea) é uma árvore de tamanho médio, atingindo no máximo um tamanho entre 20-25 metros de altura (por vezes desenvolve um porte arbustivo). Desenvolve uma copa ampla com folhagem relativamente esparsa, e possui uma casca acinzentada com estrias pouco profundas. São reconhecidas três subespécies: Q. faginea faginea (pedamarro, ou cerquinho-espanhol), mais comum em zonas de maior altitude e secura, encontrando-se no Norte de Portugal e Espanha; Q. faginea broteroi (o cerquinho-português) é mais comum na Estremadura e Beira Litoral, em zonas mais húmidas e de menor altitude; a terceira subespécie, Q. faginea alpestris, é típica do Norte de África, ocorrendo ocasionalmente no Algarve.  O pedamarro ocorre muitas vezes em bosques mistos com sobreiros (Q. suber) ou azinheiras (Q. rotundifolia), não se sabendo ao certo se forma bosques maduros ou se constitui uma etapa na recuperação dos bosques dos outros carvalhos; o cerquinho-português forma bosques maduros, por vezes com outros carvalhos e mesmo outros tipos de árvores.

Folhas de um carvalho-cerquinho (pedamarro, Quercus faginea faginea), foto tirada em Romeu (perto de Mirandela) - Foto (c) Pedro Andrade

Este carvalho é característico das zonas de transição entre os dois grandes regimes climáticos de Portugal, o clima Atlântico e o clima Mediterrânico. Partilha a preferência do clima com o carvalho-negral (Quercus pyrenaica), estando no entanto melhor adaptado do que este para climas secos (o carvalho-cerquinho possui folhas mais estreitas, e por isso perde menos água por transpiração). Estes dois carvalhos são aliás bastante próximos evolutivamente, partilhando, entre outras características, a marcescência – apesar das folhas secarem no Outono, estas só caem na Primavera seguinte, mantendo-se ligadas à árvore para proteger as gemas foliares.

Tal como acontece em muitas outras espécies vegetais, o cerquinho poder formar híbridos quando se cruza com os seus parentes mais próximos. Estes híbridos são designados de Quercus x coutinhoi (cruzamento com Q. robur), Quercus x marianica (com Q. canariensis), Quercus x neomairei (cruzado com Q. pyrenaica) e Quercus x senneniana (com Q. rotundifolia).

Pormenor do tronco de um carvalho-cerquinho (o pedamarro, Quercus faginea faginea), foto tirada em Romeu (perto de Mirandela) - Foto (c) Pedro Andrade

Esta é uma espécie característica de locais com solos bem desenvolvidos e ricos, por isso desde a Idade Média se têm vindo a destruir cercais (um cercal é um carvalhal dominado por Q. faginea) para aproveitamento agrícola. Estas práticas, quando mal geridas, levam à erosão dos solos e subsequente abandono dos terrenos, e quando isto acontece o carvalho-cerquinho geralmente não é o primeiro na linha de recolonização do espaço – este problema é acentuado quando as reflorestações são feitas recorrendo a árvores com maior retorno económico imediato, como pinheiros, sobreiros, eucaliptos…

Antigamente a madeira do carvalho-cerquinho era utilizada para construções de naus, caravelas ou carros-de-bois, mas actualmente não há uma exploração sistemática da sua madeira no nosso país. Estudos recentes sugerem que esta poderá ser utilizada para a produção de soalhos, painéis e mobiliário de alta qualidade, dadas as suas qualidades estéticas, de alta resistência e densidade, e facilidade de serem trabalhadas com vernizes e colas.

Como os restantes carvalhais, os cercais são habitats bastante ricos em biodiversidade, prestando vários serviços ecológicos como retenção do solo, regulação do ciclo da água e valores estéticos e educativos, pelo que a sua preservação e recuperação se reveste de uma grande importância. Actualmente os cercais bem preservados ocupam uma área bastante reduzida, devido a uma série de ameaças que se terá que controlar para preservar estes habitats: alteração do uso do solo, mau planeamento florestal, incêndios, abate, trânsito de pessoas e veículos e falta de informação sobre a necessidade de preservação destas florestas.

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Referências

– Binge, P. & Damasceno, P. (2007) – Biologia e ecologia das florestas de carvalho-português. In Os carvalhais – Um património a conservar. Árvores e Florestas de Portugal nº2. Público

– Capelo, J. & Catry, F.  (2007) – A distribuição do carvalho-português em Portugal. In Os carvalhais – Um património a conservar. Árvores e Florestas de Portugal nº2. Público

– Gomes-Pedro, J. (1989)  Carta da Distribuição de Carvalhos e Castanheiros / Notícia Explicativa (II.3) Portugal. Atlas do Ambiente, Direcção Geral dos Recursos Naturais, Lisboa

– ICN – Instituto da Conservação da Natureza – Carvalhais ibéricos de Quercus faginea e Quercus canariensis. Plano Sectorial da Rede Natura 2000, habitats naturais.

– Knapic, S. (2007) – Utilizações da madeira do carvalho-português. In Os carvalhais – Um património a conservar. Árvores e Florestas de Portugal nº2. Público

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