O mistério de Sverdlovsk

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Ekaterinburgo é uma das maiores cidades russas, localizada no coração do grande país, no interior dos Montes Urais. É banhada pelo rio Iset, e é uma região rica em minérios, o que sustentou o crescimento da cidade para a transformar num dos maiores centros industriais da Rússia. A cidade, fundada em 1723, foi o local de um dos mais importantes momentos da história russa recente, a morte em 1918 de Nicolau II e da sua família, que levou definitivamente ao fim da dinastia Romanov. Em 1924 a cidade foi renomeada Sverdlovsk, em honra do líder soviético Yakov Sverdlov, e só em 1991 se voltou a chamar Ekaterinburgo. Durante a 2ª Guerra Mundial e a Guerra Fria, Sverdlovsk tornou-se um dos principais centros da indústria militar russa.

Nos anos 1970, pouco depois de assinar a “Biological and Toxin Weapons Convention” (uma convenção internacional que proibiu o desenvolvimento, produção, armazenamento e aquisição de armas biológicas), a União Soviética violou o tratado, ao criar o Biopreparat, um programa secreto que consistia numa rede de instalações localizadas em vários pontos na União Soviética que desenvolviam e produziam armas biológicas. Um dos laboratórios localizava-se em Sverdlovsk.

Foto actual de Chkalovsky, perto de Ekaterinburgo, onde na Primavera de 1979 começaram a surgir vários casos de carbúnculo - Fonte: http://www.panoramio.com/photo/24367623

Em Abril e Maio de 1979 ocorreu em Sverdlovsk, mais concretamente na região de Chkalovsky, uma epidemia de carbúnculo (caracterizada por sintomas como febre, falta de ar, tosse, dores de cabeça, vómitos, e dores abdominais e no peito). O carbúnculo, também conhecido como antraz ou antrax, é uma doença provocada por uma bactéria esporulante, Bacillus anthracis, característica de climas temperados, e encontra-se sobretudo no solo, plantas ou água, infectando sobretudo animais herbívoros como veados, elefantes e várias espécies de gado.

A infecção pode ser de três tipos, sucessivamente mais graves: cutânea, quando os esporos penetram na pele através de feridas quando se manuseia material contaminado (como lã ou couro); gastrointestinal, após o consumo de carne de um animal infectado; e inalacional, após a inalação de esporos lançados para a atmosfera. Esta doença não é contagiosa.

A bactéria causadora de carbúnculo, Bacillus anthracis - Fonte: Centers for Disease Control and Prevention

Apesar dos casos de carbúnculo em Sverdlovsk fossem inicialmente abafados, já no início dos anos 1980 começaram a surgir notícias fora da Rússia que um grande evento de infecção por carbúnculo tinha ocorrido, e imediatamente se começou a questionar a sua verdadeira causa. A explicação oficial do governo soviético (e posteriormente russo) era infecção devido a carne contaminada, mas mesmo cientistas soviéticos começaram a questionar abertamente esta interpretação. Entre eles estava Faina Abramova, uma patologista russa de Ekaterinburgo, que analisou os resultados das autópsias a 42 pessoas infectadas, e que concluiu que os sintomas eram melhor explicados pela ocorrência de carbúnculo inalacional, e não gastrointestinal e cutâneo como diziam as autoridades soviéticas. Mas como comprovar uma infecção por via aérea?

Após várias tentativas para ganhar acesso ao local, só em 1992 é que a equipa do influente microbiólogo americano Matthew Meselson teve autorização. A fase inicial de recolha de informação não foi fácil – o KGB, a polícia secreta soviética, tinha confiscado os registos hospitalares. A equipa não desistiu, e arranjou maneiras bastante inventivas de arranjar informação, de uma forma que quase podemos imaginar um episódio do CSI a decorrer: uma lista das famílias dos mortos elaborada para fins de compensação permitiu entrevistar as famílias para saber a localização dos doentes na época da infecção; informação das campas no cemitério destinado às vítimas; uma lista adicional com autópsias realizadas a doentes de carbúnculo (da qual só um indivíduo não estava na lista das famílias), e outras listas hospitalares relevantes.

Mapa que mostra a localização dos 77 pacientes estudados pela equipa de Meselson (a vermelho), os dois complexos militares (rodeados a branco), e a direcção do vento nos dias prováveis de libertação dos esporos - Fonte: Meselson et al (1994)

Foram também obtidos dados geográficos, como fotografias de satélite e dados meteorológicos. Todas estas informações permitiram traçar a localização provável de 77 pessoas infectadas entre 2 e 6 de Abril de 1979, das quais 66 morreram e 11 sobreviveram. A maioria destes 77 vivia ou trabalhava na parte Sul da cidade, e outros 9 frequentavam treino militar na região no início de Abril. Houve também nesta época um surto de cabúnculo em gado, mas apenas nesta região específica.

Localizaram-se duas instalações militares perto da região, a Norte o Complexo 19, e a Sul o Complexo 32. Dado que as pessoas que estavam a receber treino militar e ficaram doentes começaram esse treino no dia 2 Abril, é esse o ponto de partida para vermos os dados meteorológicos, e logo logo vemos algo “interessante”: nesse dia 2 o vento soprava bastante forte de Norte para Sul, colocando justamente a área afectada e o Complexo 19 na direcção do vento. Esta direcção do vento muito raras vezes se repetiu durante o resto do mês.

Os restos do Complexo Militar 19, em Ekaterinburgo, onde eram desenvolvidas armas biológicas - Fonte: Petra Wijnsema (http://petra.wijnsema.nl)

Todas estas observações permitiram concluir que se deu uma libertação de esporos de Bacillus anthracis no dia 2 de Abril de 1979, que foram espalhados pelo vento numa pequena região a Sul do Complexo 19. O governo russo, liderado por Boris Yeltsin (que curiosamente era em 1979 delegado do Partido Comunista na região de Sverdlovsk), admitiu que a epidemia se deveu a uma libertação acidental de esporos de carbúnculo a partir do Complexo 19, tendo se mais tarde vindo a saber que a causa foi uma falha na substituição de um filtro de ar.

O número oficial de mortos é de 66, mas parece bastante provável que possa ter sido maior, tendo em conta a grande dimensão da cidade. A destruição de vários registos pelo KGB impede que se possa saber com mais detalhe os verdadeiros contornos do caso. O que se sabe é que a política de secretismo soviético não ajudou em nada ao caso: não evitou o pânico na população, e impediu uma resposta mais rápida e eficiente no tratamento de vários pacientes.

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Referências

Abramova, F. (1993). Pathology of Inhalational Anthrax in 42 Cases from the Sverdlovsk Outbreak of 1979 Proceedings of the National Academy of Sciences, 90 (6), 2291-2294 DOI: 10.1073/pnas.90.6.2291 (link)

– Croddy, E. (2002) Chemical and biological warfare: a comprehensive survey for the concerned citizen. New York, Springer-Verlag. 306 p.

– EFNS Regional Teaching course in Yekaterinburg, Russia (2006) (programa da conferência)

Meselson, M., Guillemin, J., Hugh-Jones, M., Langmuir, A., Popova, I., Shelokov, A., & Yampolskaya, O. (1994). The Sverdlovsk anthrax outbreak of 1979 Science, 266 (5188), 1202-1208 DOI: 10.1126/science.7973702 (link)

– P.C.B. Turnbull, WHO Anthrax Working Group. (2008) Anthrax in humans and animals (4th ed.), World Health Organization, Geneva (link)

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