Quanto vale a natureza?

A conservação da natureza é um assunto quente hoje em dia. Sendo uma pessoa que gosta das ciências naturais, a conservação sempre me pareceu algo lógico, mas para alguém não ligado a estas áreas é perfeitamente legítimo perguntar: porquê preservar a natureza? Se tenho um terreno com algum mato e carvalhos, porque não plantar eucaliptos para vender? Se no meu concelho há um paúl, porque não drená-lo para criar um campo de cultivo? Porque não construir casas à beira mar, nas dunas, para as pessoas desfrutarem melhor do Verão?

A paisagem na Serra do Gerês - o sítio perfeito para um novo hotel de luxo, ou património a preservar? - Foto (c) Pedro Andrade

Quem estudou ecologia está familiarizado com o conceito de “serviços dos ecossistemas”. Estes serviços referem-se a todos os benefícios que a sociedade humana retira de um ecossistema em particular; podemos definir alguns tipos principais de benefícios: serviços de produção (alimentos, combustíveis, água, materiais de construção ou medicamentos), de regulação (regulação climática, controlo de pragas, polinização ou purificação do ar e água) e mesmo serviços culturais (turismo, educação e valores patrimoniais ou espirituais). Para além destes temos também que considerar os serviços de suporte, cuja manutenção permite que o ecossistema possa fornecer os outros serviços, e que incluem a produção de matéria orgânica, formação de solos, produção de oxigénio ou reciclagem de nutrientes.

Percebemos assim que a capacidade que o ecossistema tem de prestar serviços que possamos utilizar em nosso benefício é não só importante, mas está na base de todo o funcionamento das nossas sociedades, por muito que a nossa vivência urbana nos desligue da realidade. Mas as questões levantadas em cima ainda se mantêm. É certo que é importante preservar a natureza, mas como medimos isso? Como pode um político aprovar medidas de conservação se não souber quanto dinheiro isso movimentará para o seu país/região? Todos sabemos que as florestas são responsáveis por uma grande fatia da produção de oxigénio, ou que um rio fornece água essencial para muitos campos agrícolas, mas torna-se muito difícil traduzir esses benefícios para algo palpável no nosso complexo mundo humano. Isto não impediu uma vasta equipa de cientistas no Reino Unido de abordar este problema e responder à questão: qual é o valor dos ecossistemas britânicos?

Os 8 grandes tipos de habitat estudados pelo National Ecosystems Assessment, e os principais serviços que retiramos deles (a amarelo serviços de produção, a lilás serviços de regulação e a verde serviços culturais) - Fonte: UK NEA 2011

O UK National Ecosystem Assessment (NEA, Avaliação dos Ecossistemas Nacionais) teve como objectivo avaliar o estado dos recursos naturais e as suas perpectivas de evolução para o futuro no Reino Unido, e juntou cerca de 500 cientistas (tanto de ciências naturais como sociais), economistas e decisores de várias organizações governamentais ou privadas, que fizeram uma avaliação do valor de 8 grandes tipos de habitats britânicos: montanhas e matagais, pastagens semi-naturais, zonas agrícolas, florestas, ecossistemas de água doce (rios, lagos e paúis), zonas urbanas, regiões costeiras e habitats marinhos.

Este estudo centrou-se em mais do que a mera valorização económica da natureza britânica, abordando também a sua evolução temporal, as suas relações com o desenvolvimento da sociedade, a visão que a sociedade tem dos serviços dos ecossistemas e tendências futuras. Com excepção talvez dos habitats florestais, todos os outros estão a sofrer muitas perturbações causadas directa ou indirectamente pela actividade humana, como crescimento populacional, sobre-exploração de recursos, alterações nas características dos habitats e poluição atmosférica e aquática. E embora os serviços de produção dos ecossistemas estejam a ser aumentados para servir as crescentes necessidades de consumo, isto vem à custa da capacidade dos ecossistemas prestarem outros serviços, como os de regulação ambiental.

A avaliação económica propriamente dita teve uma abordagem de cariz prático: em última análise, a existência humana seria impossível sem os serviços prestados pelos ecossistemas! Em vez de se analisar o valor total, analisou-se o valor dos vários serviços separadamente. Este valor é estimado com recurso a vários métodos, como preços de mercado, questionários ou pela avaliação de custos que surgiriam se os serviços fossem degradados (dado que muitos, se não a maioria dos serviços, não têm um valor de mercado).

Cursos de água como a Ribeira de Alcolobre, no concelho de Constância, são muito importantes na regulação do ciclo hídrico - Foto (c) Pedro Andrade

Os resultados do estudo revelam o grande impacto económico anual que os serviços têm na economia britânica. Entre os muitos números, podemos destacar: cerca de 490 milhões de euros gerados pela polinização, efectuada não só por abelhas mas por muitos outros grupos de himénopteros, moscas, escaravelhos e outros insectos; a melhoria da qualidade da água efectuada por zonas húmidas interiores pode valer 1700 milhões de euros, e de rios 1250 milhões de euros; o sequestro de carbono efectuado pelas florestas dá benefícios na ordem dos 770 milhões de euros; o custo médio anual relativo aos danos causados por inundações é de cerca de 1600 milhões de euros; a animação sócio-cultural dependente da natureza é uma fonte enorme de riqueza: 11400 milhões de euros anuais!

Isto é só uma pequena amostra, que ilustra bem quanto beneficiamos economicamente da protecção dos nossos recursos naturais. Para além destes benefícios económicos, o NEA salienta também os benefícios directos e indirectos para a saúde que advém do contacto com a natureza: redução da pressão arterial, melhor recuperação de doenças, e mais estímulo para maior actividade e estilo de vida mais saudável são alguns dos exemplos.

Até uma pequena mosca tem um importante papel na manutenção de serviços ecológicos importantes como a polinização - Fonte: Rui Andrade

Por um lado, penso que temos sempre que ver estas análises com cuidado. Não no sentido em que estejam mal executadas, ou que não sejam relevantes – pelo contrário, serão ferramentas indispensáveis para assegurar uma futura gestão adequada dos ecossistemas. Mas ao mesmo tempo, não podemos deixar de pensar no valor mais intrínseco da natureza, os seus valores cultural, estético e patrimonial; porque nem tudo o que tem valor tem necessariamente que ter um preço.

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Referências

– UK National Ecosystem Assessment (2011) The UK National Ecosystem Assessment: Synthesis of the Key Findings. UNEP-WCMC, Cambridge (link)

2 Responses to Quanto vale a natureza?

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