Segredos escondidos nas dunas – novas espécies para a ciência nas praias de Portugal

Portugal é um país de praia. Chega-se a Agosto e muitos de nós, do mais humilde cidadão aos políticos nos mais altos cargos, acorrem às praias em busca de Sol, mar e areia, aproveitando umas semanas de férias para poder esquecer o stress do dia-a-dia. Os habitats costeiros ficam sobre-lotados de gente nos meses de Verão, o que nos poderia levar a pensar que todos os cantos estão mais que conhecidos. Puro engano!

As dunas da praia da Apúlia, mesmo ao lado da vila, são muito visitadas pelos veraneantes, mas apesar disso ainda há muito que descobrir mesmo por baixo dos nossos narizes! - Fonte: Rui Andrade

Ao contrário da maioria das pessoas, o meu irmão Rui não é grande apreciador de praia. Ou melhor, não era. Não que se tenha convertido às delícias do bronze, simplesmente percebeu isto que já vos falei: longe de serem habitats mais que vasculhados, as praias podem ser um baú cheio de tesouros! Para isso basta ter olho, e isso é coisa que não falta ao Rui.

É preciso ter olho para os detalhes, aqueles detalhes que escapam aos desatentos, e gosto pelo que as pessoas mais desgostam, e as moscas são disso um óptimo exemplo. No dia 6 de Setembro de 2008, em visita à praia da Apúlia (concelho de Esposende) o Rui aventurou-se numa das primeiras vezes pelas praias à procura de moscas e outros insectos. Nessa simples saída de campo observou várias espécies, tendo guardado alguns espécimes para analisar em casa. Desses, havia duas espécies de moscas que eram particularmente curiosas.

Uma era de cor clara, com manchas escuras nas asas, perfeita para se esconder na areia – basta um pequeno voo para um potencial predador perder esta pequena mosca de 2 mm de vista. A outra era ainda mais ridiculamente pequena, com cerca de 1,5 mm de comprimento! Mas esta não era a característica mais singular da mosca: praticamente não tinha asas, reduzidas a pequenas escamas no dorso.

A elegante Tethina lusitanica, mestre da camuflagem na areia das dunas do litoral português - Fonte: Rui Andrade

Tão invulgares moscas mereceram uma atenção mais cuidada por parte de especialistas, a quem os espécimes foram enviados. A mosca cor da areia foi enviada para o entomólogo italiano Lorenzo Munari, do Museu de História Natural de Veneza, especialista nos Canacidae, um grupo de moscas tipicamente associadas a habitats costeiros, onde se alimentam de algas e matéria orgânica. Dentro destas, era especialmente parecida com Tethina pictipennis, um canacídeo marroquino com as mesmas pintas nas asas, mas com algumas características diferentes, nomeadamente nos órgãos genitais dos machos.

Dois machos de Tethina lusitanica em luta - Fonte: Rui Andrade

Diferenças nos órgãos genitais funcionam muitas vezes vezes como uma barreira reprodutiva que separa indivíduos em diferentes espécies, pelo que esta nova mosca era de uma espécie nunca observada até à altura! Em 2009, em conjunto com o entomólogo português Jorge Almeida, o Rui e o Lorenzo Munari publicaram a descrição desta nova espécie, à qual chamaram Tethina lusitanica.

A biologia da T. lusitanica, a mosca-das-dunas, não é ainda muito bem conhecida, mas não deverá ser muito diferente dos restantes canacídeos. É uma espécie que aparece sobretudo na Primavera e Outono, escapando aos meses mais extremos, e deposita os ovos na areia; para além disso, vários comportamentos já foram observados. Apesar de as asas lhe permitirem voar, esta mosca não é grande adepta dos ares: quando a incomodam, dá apenas um pequeno voo, beneficiando da camuflagem para desaparecer na areia quando aterra. Mais curioso ainda será o comportamento sexual, em especial o dos machos, que competem entre si realizando várias “danças” e “empurrando-se” com as patas, talvez para medir forças.

A outra pequena mosca teve que esperar mais algum tempo até lhe darem mais atenção. Pertencente ao grupo dos Hybotidae, moscas predadoras comuns em muitos habitats, foi analisada pelo belga Patrick Grootaert e pelo russo Igor Shamshev, trabalhadores do Instituto Real Belga de Ciências Naturais, que determinaram ser uma nova espécie dentro do género Chersodromia. No final de 2010 deram-lhe o nome de Chersodromia squamata, uma referência às pequenas asas em forma de escama.

Tal como a mosca-das-dunas, C. squamata não é grande fã do voo, levando isso ao extremo de perder quase completamente as asas! Um paleontólogo do futuro até lhe chamaria “fóssil de transição”, pois parece possível que no futuro esta espécie evolua no sentido de as perder completamente, estando nós a assistir a um passo transitório nesse percurso evolutivo. A razão para a perda das asas, assim como para a pouca apetência da mosca-das-dunas para realizar voos longos, pode estar relacionada com os fortes ventos que se fazem sentir no litoral, e que atrapalham o voo de pequenos insectos como estes. Outra curiosa característica desta pequena mosca escura é a sua espantosa velocidade, o que faz com que seja bastante difícil de fotografar!

Chersodromia squamata, uma minúscula mas veloz corredora das praias - Fonte: Rui Andrade

Tanto a T. lusitanica como a C. squamata já foram encontradas noutras praias do Litoral Norte, e no caso da C. squamata até nas praias de Sanxenxo, no Norte de Espanha. Aparecem quando as praias possuem dunas com alguma qualidade, o que sugere que podemos retirar delas benefícios práticos, nomeadamente na monitorização da qualidade do ambiente costeiro. As dunas são importantes para proteger a costa da erosão do mar, pelo que podemos usar a presença de espécies como estas para controlar a qualidade destes ecossistemas.

Estas duas moscas, encontradas nas dunas de uma praia numa zona habitada, mostram como não é preciso ir para uma remota floresta tropical para encontrar novas e espantosas formas de Vida, nunca antes conhecidas. Com atenção e dedicação, podemos encontrar por baixo dos nossos narizes coisas raras, ou mesmo inéditas em todo o mundo!

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Referências

– Grootaert, P., I. Shamshev & Andrade. 2010. Notes on Chersodromia from Portugal, Spain and France with the description of a new brachypterous species (Diptera, Hybotidae, Tachydromiinae). Bulletin de la Societe Royale Belge d’Entomologie 146(9-12): 203-206.

– Munari, L., J. Almeida & R. Andrade, 2009. A very peculiar new species of Tethina Haliday, 1838 and a new record of Tethina illota (Canacidae, Tethininae). – Lavori, Soc. Ven. Sc. Nat. 34: 123-126. (link)

– Oosterbroek P. (2006) The European families of the Diptera – identification, diagnosis, biology. KNNV Publishing, Utrecht

4 Responses to Segredos escondidos nas dunas – novas espécies para a ciência nas praias de Portugal

  1. miguel diz:

    Gostei muito.
    Excelente trabalho do Pedro e do Rui!

    Parabéns!

  2. maria diz:

    Parabéns pelo vosso trabalho.
    Precisamos de pessoas assim.

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