A mais bonita história de amor do fundo dos mares

Eu, Maria, recebo-te Manuel para meu marido, para o melhor e para o pior, na riqueza e na pobreza, na doença e na saúde, para amar-te e honrar-te, até que a morte nos separe.

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Ah, o romantismo do casamento. Hoje em dia já não é o que era, e muitos casamentos acabam em divórcio, mas isso não impede as pessoas de jurarem e prometerem tudo até que a morte os separe. Separe da união espiritual à qual se comprometeram, queremos dizer – seria bizarro pensar em dois parceiros literalmente unidos para a vida, fisicamente, partilhando o mesmo alimento e fluidos corporais! Seriam a perfeita união, a perfeita história de amor.

Como de costume, a natureza antecipa-se aos nossos devaneios mais bizarros. Hoje trago-vos uma bonita história de amor de peixes das profundezas…

Uma bonita história com bonitos actores - Fonte: Bruce Robison/Corbis

As personagens desta história não são quaisquer peixes das profundezas, mas sim os estranhos ceratioídeos (Ceratioidae), parentes do tamboril. Os ceratioídeos, dos quais se conhecem 160 espécies, encontram-se distribuídos por todos os mares do mundo, a profundidades nunca inferiores a 300 metros. Nestes ambientes, nos quais a luz solar é escassa se não mesmo inexistente, eles desenvolveram uma característica que os torna muitos conhecidos – uma armadilha luminosa na cabeça, constituída por um filamento (“illicium”) na ponta do qual se localiza uma fonte luminosa (“esca”). Nesta, a luz é produzido por um sistema complexo que inclui bactérias simbióticas e estruturas de reflexão e absorção de luz, tudo isto com o objectivo de atrair outros peixes que servirão de alimento ao ceratioídeo.

Embora esta seja a característica mais conhecida destes peixes, o seu ciclo de vida é talvez a mais bizarra. Tudo assenta no grande dimorfismo sexual destas espécies.

Uma fêmea de Photocorynus spiniceps com uma estranha protuberância nas costas - é o macho! - Fonte: Theodore W. Pietsch

As fêmeas e machos de ceratioídeos não poderiam ser mais diferentes: as fêmeas, apesar da sua aparência disforme, podem ser considerados peixes normais… ou quase, com um corpo largo ou alongado, uma grande boca, olhos reduzidos e o mecanismo luminoso de captura de presas . Os machos são seres diminutos, dezenas de vezes mais pequenos que a fêmea (na espécie Ceratias holboelli, a fêmea é 60 vezes mais comprida e 500 000 vezes mais pesada), sem o aparelho de captura de presas, mas com sistemas visuais e olfactivos extremamente bem desenvolvidos. Esta grande diferença iludiu os zoólogos durante muitos anos, levando-os a acreditar que haveria muitas espécies de grandes e pequenas dimensões, quando na realidade em muitos dos casos os peixes pequenos eram machos de espécie apenas conhecidos pelas fêmeas!

Após os machos eclodirem do seu ovo, nadam à procura de fêmeas, tentando encontrá-las com uso da sua grande visão e olfacto. No escuro mundo das profundezas dos oceanos, encontrar uma fêmea da mesma espécie não é fácil, pelo que estes encontros se revestem de enorme importância. Em algumas espécies, isto é tão importante que, se um macho acasalasse com uma fêmea e a deixasse seguir para procurar mais fêmeas, arriscava-se a ficar à míngua para o resto da vida! É aqui que as coisas se tornam bizarras: em muitas espécies de ceratioídeos os machos, para não deixar uma fêmea escapar fundem-se a ela. Permanentemente!

Detalhe do macho de Photocorynus spiniceps após fusão com o corpo da fêmea - Fonte: Theodore W. Pietsch

Para além das características mencionadas acima, os machos diferem das fêmeas pela presença não de dentes, mas sim de dentículos em gancho, com os quais se agarram à pele da fêmea. Após este “beijo”, os dois começam a ficar inseparáveis: a epiderme e derme dos amantes começa a fundir-se, os vasos sanguíneos ligam-se e o macho aumenta de tamanho, sobretudo os seus testículos. O macho deixa de poder viver de forma livre, transformando-se literalmente num testículo da fêmea, a bombear continuamente esperma para o seu sistema circulatório. A este fenómeno dá-se o nome de parasitismo sexual.

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Foi este ciclo de vida bizarro que permitiu fazer a associação entre machos e fêmeas deste grupo de peixes, quando Charles Tate Regan, do Museu de História Natural britânico, descobriu um macho parasítico numa fêmea em 1924. No entanto, nem todos os machos de ceratioídeos são parasitas sexuais obrigatórios: outros usam esta estratégia de forma facultativa, enquanto outros nem sequer a empregam. E no extremo oposto, conhecem-se casos de vários machos ligados a uma única fêmea, incluindo um caso de uma fêmea que transportava consigo simultaneamente oito amantes!

Estes machos parasitas fazem-nos olhar com maravilha para as estranhas soluções inventadas pela Natureza para resolver os problemas da sobrevivência, solução que neste caso passa pela perda da identidade do organismo a favor da união física total com a sua parceira. Haverá melhor exemplo de romantismo neste mundo?

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Referências

Pietsch, T. (1976). Dimorphism, Parasitism and Sex: Reproductive Strategies among Deepsea Ceratioid Anglerfishes Copeia, 1976 (4) DOI: 10.2307/1443462 (link)

– Pietsch, T. W. (2009). Oceanic Anglerfishes: Extraordinary Diversity in the Deep-sea. University of California Press, Berkeley and Los Angeles  (link)

– Shedlock, A. M., T. W. Pietsch, M. G. Haygood, P. Bentzen and M. Hasegawa. (2004). Molecular systematics and life history evolution of anglerfishes (Teleostei: Lophiiformes): evidence from mitochondrial DNA. Steenstrupia, J. Zool. Mus. Univ. Copenhagen 28(2): 129-144. (link)

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