O sismo de Benavente de 1909

Corria o mês de Abril de 1909. Por esta altura o Panamá já se tinha tornado independente, Joana d’Arc foi beatificada e fundou-se a cidade de Tel Aviv, ao mesmo tempo que se semeava a Primeira Guerra Mundial. Para lá do complexo mundo humano e das suas pequenas histórias, num Reino de Portugal em crise a Terra imóvel e constante deu sinal de si, abanando com violência no dia 23 de Abril na região do Vale do Tejo. Os principais estragos ocorreram nas vilas de Benavente e Samora Correia, que quase ficaram destruídas por este terramoto que tomou 46 vidas.

A destruição em Samora Correia, no concelho de Benavente, após o sismo de 1909 - Fonte: http://fotos.sapo.pt/fotosamora/perfil

Uma análise da ocorrência dos sismos no mundo revela que a maioria surge em zonas de contacto entre as grandes placas tectónicas, pois é nestes locais que se dão os principais movimentos de compressão, distensão ou deslizamento das placas que compõe a litosfera, a camada de rocha rígida que envolve o planeta. Uma destas zonas de contacto é a famosa falha Açores-Gibraltar, que separa a placa euroasiática (a Norte) da placa africana (a Sul), e cuja movimentação está na origem da maior parte da ocorrência de sismos em Portugal continental, incluindo o grande sismo de 1755 (neste caso talvez associado a um acidente mais pequeno, a falha do Marquês do Pombal).

Noutros casos a “culpa” recai sobre falhas interiores às placas, originando sismicidade intraplaca. Na Península Ibérica a maioria destas falhas são falhas antigas, com mais de 300 milhões de anos, do período da orogenia varisca, e que devido à acção da mais recente tectónica alpina (que faz aproximar África da Europa) têm sido reactivadas nos últimos milhões de anos. Entre estas está a responsável pelo sismo de Benavente, a falha do Vale Inferior do Tejo (VIT).

Sismicidade no território continental português entre 1970 e 2007, com algumas das principais falhas assinaladas: falha do Vale Inferior do Tejo (VIT), que provocou o sismo de Benavente, a falha do Marquês de Pombal (MP), Banco de Gorringe (BG), Cabo de São Vicente (CSV), falha da Ferradura (FF), Pereira do Sousa (PS), Banco de Guadalquivir (GQ) e Coral Ridge (CR) - Fonte: Bezzeghoud et al

A intensidade do sismo de 1909 não é ainda bem conhecida, mas o valor mais consensual parece ser cerca de 6.3 na escala de Richter – o equivalente a fazer explodir mais de 15 000 toneladas de TNT debaixo da terra! Os grandes movimentos tectónicos nesta falha têm ocorrido com uma periodicidade de cerca de 200 anos, tendo em conta outros sismos históricos em 1344, 1531 e talvez até mesmo em 1755 – embora não tenha sido a causadora do grande sismo de Lisboa, a  falha do VIT pode ter sofrido uma rotura durante este terramoto.

Os eventos sísmicos no VIT parecem estar relacionados com roturas em dois segmentos diferentes da falha: um a Sul, entre Alverca e Azambuja, e outro mais a Norte entre Azambuja e Asseca. Sismos com magnitude próxima de 7, como se estima ser o caso em 1531, ocorrem por rotura em ambos os segmentos simultâneamente, enquanto que em sismos menores, como o de Benavente, verifica-se rotura de apenas um dos segmentos – neste caso foi o segmento Azambuja-Asseca.

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Referências

– Bezzeghoud, M., Borges, J.F. & Caldeira, B. – Actividade sísmica em Portugal. Departamento de Física e Centro de Geofísica de Évora (link)

– Senos, M. L. & Carrilho, F. (2003) Sismicidade de Portugal Continental. Fisica de la Tierra. 15. 93-110 (link)

– Vilanova, S.P. & Fonseca, J. (2004) A falha do Vale Inferior do Tejo na análise da perigosidade sísmica. Sísmica 2004 – 6º Congresso Nacional de Sismologia e Engenharia Sísmica. 379-388 (link)

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