Formigas invasoras do inferno (ou mais correctamente, da Argentina)

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As formigas são animais fantásticos. Parentes das abelhas e vespas, partilham com muitas espécies destes grupos a formação de colónias complexas constituídas por castas, diferentes classes morfológicas dentro da mesma colónia, cada uma com uma função específica, sendo mais comum encontrarmos a rainha, a mãe de toda a colónia e responsável pela produção de novos indivíduos e de futuras rainhas, os soldados, que protegem a colónia, e as incansáveis obreiras, que com o seu trabalho asseguram a construção, manutenção e a obtenção da comida para o formigueiro. O trabalho de todas as formigas de uma colónia é tão bem coordenado que podemos afirmar que no seu conjunto as formigas formam um superorganismo, e não digo isto de forma poética: o ano passado foram encontradas evidências matemáticas que apoiam que, sob o ponto de vista funcional, e de crescimento das colónias, elas obedecem às mesmas regras que organismos individuais!

Admiro bastante estes animais, e é por isso com alguma tristeza que tenho que admitir que estou um pouco farto de formigas. Não de todas, apenas de uma espécie em particular, que não obstante ser também uma espécie notável, tem uma colónia instalada em nossa casa, constantemente organizando expedições ao caixote do lixo e à banca da cozinha, experimentando novas entradas na casa de banho e perto da minha secretária, e percorrendo o corredor do meu andar até à porta dos vizinhos (espero que nenhum leia este blog).

Ao menos colaboraram na escrita deste post, e apreciaram um pouco da linguiça que lhes dei... - Foto (c) Pedro Andrade

As formigas em questão pertencem à espécie Linepithema humile, a formiga-argentina, e são provavelmente uma das espécies de formigas mais estudadas do mundo. Para isto muito contribui o facto de ser uma espécie invasora com enorme sucesso! Esta espécie é nativa da América do Sul, mais propriamente do Norte da Argentina e Sul do Brasil, Paraguai e Uruguai, habitando florestas subtropicais que partilha com muitas outras espécies de formigas, num ambiente muito competitivo. Forma pequenas colónias (embora algumas colónias atinjam tamanhos consideráveis, com territórios de algumas centenas de metros de diâmetro), e tal como noutras espécies de formigas, indivíduos de outras colónias, mesmo dentro da mesma espécie, são ferozmente atacadas como inimigos. Este reconhecimento é feito com base em moléculas odoríferas presentes na cutícula que reveste o corpo das formigas, e a grande diversidade genética das formigas no seu habitat natural ajuda a assegurar uma grande variabilidade de moléculas entre colónias diferentes, permitindo às formigas reconhecer as suas irmãs obreiras e combater os estranhos.

Um grupo de formigas-argentinas (Linepithema humile) ataca uma enorme mas impotente formiga-ceifeira (Pogonomyrmex sp.) na Califórnia - Fonte: Alexander Wild (http://www.alexanderwild.com/)

Em 1891, Edward Foster regista pela primeira vez a presença desta espécie nos Estados Unidos, em Nova Orleães, provavelmente trazida a bordo de barcos de comércio de café provenientes do Brasil. No entanto, parece que já antes se começava a espalhar para o outro lado do Altlântico: em 1894, o padre e ornitólogo alemão Ernst Schmitz, residente na Madeira, informou o mirmecólogo suíço Auguste Forel que esta espécie era já uma praga na ilha portuguesa. Tal como acontece na maioria das invasões biológicas, antes desta explosão populacional já a espécie estava introduzida na Madeira, conhecendo-se um espécime recolhido antes de 1858. Esta explosão populacional não teve efeitos graves nas espécies indígenas, dado que hoje em dia não é uma espécie dominante na ilha, mas certamente ajudou à passagem de indivíduos para o continente europeu, sendo Portugal um bom candidato para a porta de entrada – os registos seguintes são de Portugal continental.

Hoje em dia a formiga-argentina está dispersa por vários pontos do mundo, conhecendo-se a ocorrência em seis continentes e várias ilhas oceânicas, estando a espécie sobretudo bem distribuída em locais com climas quentes, sobretudo climas mediterrânicos mas também subtropicais e temperados, precisando da presença humana para sobreviver em locais mais frios. Esta presença humana foi aliás necessária para a espécie se conseguir dispersar com tanta rapidez para tantos locais diferentes do globo, pois a dispersão pela formação de novas colónias nunca seria suficiente para explicar tão rápida expansão. E tem feito estragos em muitos dos novos locais onde habitam, sobretudo competir e suplantar as espécie de formigas nativas, o que tem implicações noutras espécies dependentes de formigas, quer espécies vegetais quer animais, sobretudo outros artrópodes.

Distribuição mundial da formiga-argentina - Fonte: Alexander Wild - (http://myrmecos.wordpress.com)

Há no entanto mais um facto muito curioso relacionado com a expansão desta espécie. Como atrás referi, no seu habitat natural os membros de cada colónia de formiga-argentina reconhecem-se entre si, fruto da detecção de moléculas específicas da cutícula, sendo isto geneticamente determinado. Se pegarmos numa formiga e a colocarmos no meio de uma colónia a 100 metros de distância, o mais provável é que ela seja atacada. Mas se tentarmos fazer isso com formigas-argentinas noutro local que não o original, podemos ter uma surpresa: elas podem-se dar surpreendentemente bem, como se fossem da mesma colónia! Eu e o meu irmão chegamos mesmo a testar isso no Verão de 2008: pegamos em formigas que trouxemos acidentalmente da Reserva Natural da Lagoa de Sto. André, a 340 km do Porto, pusemo-las em contacto com as cá de casa – deram-se lindamente!

Descobriu-se recentemente que as populações introduzidas de formiga-argentina são um excelente caso da ocorrência de super-colónias. Na Península Ibérica ocorrem duas super-colónias: uma sul-europeia, que vai da Galiza até à Itália (e que por isso deve incluir as formigas cá de casa), e uma que ocorre na Catalunha. Testes de agressão entre membros das duas grandes colónias mostra que elas são agressivas entre si: agem como colónias no seu habitat natural, tirando o facto de que cada uma delas inclui ninhos fisicamente separados por centenas ou mesmo milhares de quilómetros.

As formigas-argentinas são uma espécie em que se formam super-colónias, conjuntos de ninhos separados entre si, mas cujos membros actuam como se fossem do mesmo formigueiro - Fonte: Alexander Wild (http://www.alexanderwild.com/)

A quebra da diversidade genética a nível das moléculas de reconhecimento parece ser a causa mais imediata para explicar esta alteração na organização social – menos diversidade, mais uniformização, mais hipótese de reconhecimento entre indivíduos de colónias longínquas. A causa da quebra de diversidade é que ainda é debatida: inicialmente tendia-se mais para considerar que a reduzida diversidade teria surgido porque estas populações representam apenas uma fracção de toda a diversidade original da espécie. Testes genéticos, no entanto, não apoiam isto, indicando que nos novos habitats a selecção natural actua de forma a reduzir a diversidade genética para esta característica em particular. A razão pode ter a ver com a competição com outras formigas: como não há tanta competição nos novos países como no habitat original, os custos de defesa de habitat contra membros da mesma espécie são maiores do que os benefícios. Colónias pacíficas dirigem mais recursos para a reprodução, aumentando a eficiência da colónia.

E que eficiência! Em 1918 John Raymond Horton publicou os resultados de uma tentativa de erradicar estas formigas de um laranjal com 7,7 hectares: durante um ano, recolheu 1,3 milhões de rainhas, e mais de 3800 litros de formigas, o suficiente para encher 760 garrafões de água! Não admira que não me consiga livrar das formigas cá de casa…

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Referências

Giraud T, Pedersen JS, & Keller L (2002). Evolution of supercolonies: the Argentine ants of southern Europe. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 99 (9), 6075-9 PMID: 11959924 (link)

Hou C, Kaspari M, Vander Zanden HB, & Gillooly JF (2010). Energetic basis of colonial living in social insects. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 107 (8), 3634-8 PMID: 20133582 (link)

Suarez AV, Holway DA, & Case TJ (2001). Patterns of spread in biological invasions dominated by long-distance jump dispersal: Insights from Argentine ants. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 98 (3), 1095-100 PMID: 11158600 (link)

– Tsutsui, ND & AV Suarez. (2003). The colony structure and population biology of invasive ants. Conservation Biology 17:48-58 (link)

– Wetterer, J. K., X. Espadaler, A. L. Wetterer, D. Aguin-Pombo, and A. M. Franquinho-Aguiar. (2006). Long-term impact of exotic ants on the native ants of Madeira. Ecological Entomology 31: 358-368 (link)

One Response to Formigas invasoras do inferno (ou mais correctamente, da Argentina)

  1. sil diz:

    Acho que minha casa está sendo invadida por esse tipo de formiga,pois não consigo
    combate-las de forma alguma, é uma coisa terrível quanto mais eu me privo delas,mais elas invadem minha vida meu lar.

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