A dança das aranhas-pavão

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É sabido que muitos animais se esforçam bastante para impressionar os seus parceiros. Os leões têm grandes jubas, os veados hastes imponentes, e muitas aves têm cantos e danças bastante elaboradas para convencer o companheiro do sexo oposto, quase sempre a fêmea, de que são o homem das suas vidas. O exemplo mais conhecido, popularizado por inúmeros documentários e livros, é o do pavão, a majestosa ave indiana cujo colorido macho eleva as compridas penas da “cauda” (na realidade são penas que crescem do dorso) para criar uma exibição para conquistar as fêmeas.

Mas não foi só nos pavões que esta técnica evoluiu. Outros animais como as aves-do-paraíso também criam bonitas exibições em “leque”. E também algumas aranhas! Um pequeno grupo de aranhas australianas, do género Maratus, são especialistas em exibições, como nos mostra este vídeo:

O primeiro animal deste grupo foi descrito pelo reverendo inglês Octavius Pickard-Cambridge em 1874, que lhe deu o nome de Salticus volans: a característica mais curiosa desta aranha, pertence à família dos Salticidae, as aranhas saltadoras, eram as abas na parte lateral do abdomen, que os machos abriam e que Cambridge pensou que ajudavam a aranha a planar, razão que explica o nome científico atribuído a esta espécie. Mais tarde, em 1991, esta e outras espécies semelhantes foram incluídas no género Maratus, exclusivo da Austrália.

Macho de Maratus volans - Fonte: Jürgen Otto (http://www.flickr.com/photos/59431731@N05/)

Ao contrário do que Cambridge pensava (crença que se tornou comum nos aracnólogos), as aranhas-pavão realmente não voa. As abas são usadas durante o ritual de acasalamento, durante o qual os machos, os únicos a possuírem estas abas, as abrem revelando o que é frequentemente um espectacular padrão colorido. R. A. Dunn foi o primeiro a confirmar isto, quando descreveu em 1957 a espécie M. pavonis (na altura ainda incluída no género Saitis), mas só recentemente é que esta observação foi confirmada por Julianne Waldock do Western Australian Museum.

Uma outra personagem entra nesta história recentemente, o fotógrafo e aracnólogo Jürgen Otto, que nutre por estas aranhas um grande interesse. É da autoria dele os únicos vídeos conhecidos destas aranhas, e ele tem-se empenhado nos últimos anos a dar a conhecer ao mundo este curioso comportamento, fotografando várias espécies de Maratus, publicando artigos a descrever o comportamento e descobrindo até espécies anteriormente desconhecidas!

Maratus amabilis - Fonte: Jürgen Otto (http://www.flickr.com/photos/59431731@N05/)

Mas então como é que se dança como uma aranha-pavão? Segundo um estudo feito com a espécie M. amabilis, o ritual começa quando o macho e a fêmea se reconhecem visualmente e se viram um para o outro. O macho de seguida levanta o terceiro par de patas (para os que não se recordam, as aranhas têm quatro pares de patas), levanta o abdómen e abre as abas coloridas. Após uma período de três minutos e meio em que o macho fica imóvel, começa a abanar as patas como se estivesse a fazer a “ola mexicana” num estádio de futebol! A espécie M. pavonis faz a dança de maneira ligeiramente diferente, aproximando-se da fêmea com as patas no ar, só mostrando as abas quando está muito próximo.

Maratus splendens - Fonte: Jürgen Otto (http://www.flickr.com/photos/59431731@N05/)

Se as fêmeas, castanhas e pouco distintivas, acharem graça à demonstração, deixam o macho aproximar-se o suficiente para o deixar trepar para o dorso e acasalar. Esta aproximação tem que ser feita com muito cuidado – uma fêmea que não ache piada à exibição do macho não se fará rogada para o transformar numa refeição! Se o macho vir que a fêmea não fica encantada com os seus atributos, bate em retirada com uma rapidez impressionante! O que parece curioso é que as fêmeas parecem satisfeitas em se deixarem levar na cantiga de machos de espécies diferentes de Maratus: no estudo que referi sobre M. amabilis os investigadores observaram a interacção entre um macho desta espécie e fêmeas que já tinham respondido à dança de M. volans (e que seriam provavelmente também desta última espécie, a mais comum na região de Sydney, onde se fez o estudo).

Após o acasalamento, que pode durar até duas horas, o macho bate em retirada antes que a fêmea dê sinal de interesse… gastronómico!

O discreto macho de Maratus vespertilio - Fonte: Jürgen Otto (http://www.flickr.com/photos/59431731@N05/)

Mas nem todas as Maratus são coloridas: o macho da espécie M. vespertilio tem uma cor quase tão discreta como as fêmeas, mas isso não o impede de usar as abas para exibição, mesmo que mais discreta, pois não levanta as patas como as outras aranhas-pavão. A cor deste macho é sobretudo castanha (com alguns toques de azul iridescente), talvez para o ajudar a camuflar-se no meio das folhas.

Hoje em dia estão descritas cerca de 7 espécies de Maratus, mas parece provável que o possam existir mais de 20, pelo que ainda há muito trabalho a fazer para conhecer os hábitos destas fascinantes aranhas. Para adoçar o apetite, fica mais um vídeo, de uma dessas espécies que ainda não foram descritas:

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Referências

– Otto, J. C. and D. E. Hill. 2010. Observations of courtship display by a male Maratus amabilis Karsch 1878 (Araneae:Salticidae). Peckhamia 79.1: 1-16. (link)

– Otto, J. C. and D. E. Hill. 2011. Maratus vespertilio (Simon 1901) (Araneae: Salticidae) from southern Australia. Peckhamia 92.1: 1-6. (link)

– Waldock, J. M. 2007. What’s in a name? Or: why Maratus volans (Salticidae) cannot fly. Western Australian Museum. (link)

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