A toutinegra e a migração das aves

ResearchBlogging.orgMilhões de aves cruzam os nossos céus todos os anos. Tal como muitos outros animais, as aves respeitam os seus ciclos anuais, por isso dependendo da altura do ano uma determinada ave pode estar à procura de comida, a fugir de um predador ou a voltar ao ninho para cuidar dos ovos, e em determinadas alturas do ano, sobretudo no fim do Inverno e final do Verão, muitas das aves que vemos estão a meio de um longo caminho de migração. São um sem-número de seres vivos em movimento, a efectuar um dos fenómenos naturais mais espectaculares que conhecemos, mas que histórias poderá contar cada uma delas?

Desde 2007 que pertenço a um grupo de trabalho que faz anilhagem científica de aves selvagens no Parque Biológico de Gaia. A anilhagem é um método de estudo que consiste na captura das aves em redes especializadas, seguida da colocação de uma anilha metálica numerada na pata da ave. Ao tirarmos os vários dados vitais, eles ficam associados ao número da anilha correspondente, e assim podemos ficar a saber as características dos membros das populações de aves de um determinado local. Esta base de conhecimento pode ainda ser expandida se considerarmos que esta ave pode ser recapturada – podemos assim acompanhar o seu ciclo de vida e as suas deslocações.

Em Fevereiro de 2009, mais concretamente no terceiro fim-de-semana durante uma das sessões de anilhagem no Parque, apanhamos nas redes um macho de toutinegra-de-barrete (Sylvia atricapilla), que tinha algumas características interessantes. Estas toutinegras são uma das espécies mais comuns em habitats florestais e parques urbanos, e por isso não foi novidade a captura de um indivíduo desta espécie, mas quando tirei a ave da rede reparei que ela tinha uma anilha, com o número de série A251844. Uma recaptura portanto, e de uma ave anilhada por nós. Mas naquela época do ano estávamos no pico de migração desta espécie, que para além de ter indivíduos residentes (passam o ano todo cá), tem indivíduos que só passam o Verão cá (nidificantes), ou que só passam o Inverno (invernantes), e até mesmo aves que passam pelo Parque no seu caminho entre locais de invernada mais a Sul e locais de nidificação a Norte.

A251844, um macho de toutinegra-de-barrete (Sylvia atricapilla) com um excelente sentido de orientação - Foto (c) Rui Andrade

E este parecia o caso: quando fomos comparar com os dados da captura anterior, vimos que era uma ave bastante grande, maior do que o habitual para esta espécie (todos sabemos que os nórdicos tendem a ser gente grande!), tinha reservas de gordura (o “combustível” para a migração), e o mais curioso é que a anterior captura tinha ocorrido exactamente um ano antes (terceiro fim-de-semana de Fevereiro de 2008), exactamente na mesma zona do Parque!

Como é que uma ave com pouco mais de 16 gramas viaja milhares de quilómetros, e ao fazê-lo, acaba por parar exactamente no mesmo local, na mesma altura do ano, em anos consecutivos? Está na altura de vermos como as aves migram.

Muitas aves, como este lugre (Carduelis spinus), viajam todos os anos do Norte da Europa para países como Portugal para passar o Inverno, e quando a Primavera se aproxima partem de novo - Foto (c) Pedro Andrade

O porquê das aves migrarem não parece muito difícil de responder: acaba por ser uma questão de poupança de energia. É certo que voar por grandes distâncias pode parecer incrivelmente dispendioso a nível energético, mas temos que ter em conta que o voo é das formas mais eficientes de deslocação. Estudos feitos na América do Norte sugerem que, se uma ave consumir 1% do seu peso durante a migração, isso traduz-se num gasto de energia de 418 joules (J) por grama de tamanho corporal por hora. Assumindo que algumas aves conseguem acumular reservas de gordura até quase metade do seu peso (lembro de um dia no paúl de Tornada ter anilhado uma felosa-dos-juncos, Acrocephalus schoenobaenus, que pesava cerca de 18 gramas, quando o normal é pesarem 10!), facilmente percebemos que essa energia dá para uma quantidade considerável de horas de voo.

Pelo contrário, para a maioria das aves o real custo energético surge se passarem o Inverno em locais mais frios: aquecer o corpo gasta bastante energia, e com pouco alimento disponível nos meses frios torna-se bastante arriscado ficar para trás. O custo imediato de energia durante a migração acaba por ser compensado quando se passa o Inverno num local mais quente, e com mais alimento.

No entanto, algumas aves como o chapim-siberiano (Parus cinctus) aguentam até os rigores do inverno da Sibéria - Fonte: Estormiz (http://en.wikipedia.org/wiki/File: Siberian_Tit_Parus_Cinctus_2006_03_07.JPG)

Mesmo assim é necessário para as aves pararem pelo caminho, e durante as suas rotas de migração as aves escolhem habitats apropriados para descansar uns dias e restabelecer as reservas de energia. Uma ave que viaja da Inglaterra até ao Senegal (ou vice-versa quando a Europa começar a aquecer) não o consegue fazer de uma vez só, por isso vai parando ao longo do caminho várias vezes – estes locais designam-se “stopover sites“. Para a nossa toutinegra, o Parque tem essa importância, é um local de apoio durante a migração, quase como se fosse uma estação de serviço durante uma longa viagem de auto-estrada. Embora não sejam zonas de invernada ou nidificação, é essencial preservarmos locais que actuam como stopover sites, pois sem eles é impossível às aves migrarem.

Já vimos porque é que as aves migram, mas como é que o fazem? O controlo da migração nas aves, a forma como navegam os ares, vai ser feito essencialmente por factores endógenos à ave, mas as aves também aprendem com os anos.

De facto, estudos demonstram que as aves adultas, para além de terem melhores probabilidades de sobreviverem aos rigores da migração, melhoram as suas capacidades de orientação com o passar dos anos e de sucessivas migrações – elas literalmente acertam a rota cada vez que fazem a migração. Isto reside no facto de já saberem o caminho, pois as aves conseguem fixar características da paisagem, como as linhas de costa, rios, determinadas montanhas, e quando voltam a fazer a mesma rota já sabem o que devem seguir para chegar ao destino. Muitas das aves raras que aparecem em países onde não são esperadas são juvenis que ficam perdidos a meio do caminho.

Principais rotas de migração de passeriformes no Paleártico - Fonte: SE European Bird Migration Network (http://www.seen-net.eu/)

No entanto, tiveram que fazer essa viagem pela primeira vez! É impressionante pensar que um pequeno rouxinol consegue no seu primeiro ano de vida fazer uma viagem de milhares de quilómetros que nunca antes fez, sem ser ensinado pelos pais, e no fim chegar ao mesmo destino que os seus parentes. Há vários mecanismos inatos que as aves usam para se orientarem, usando o Sol como uma bússola, orientando-se pelas estrelas (reconhecendo constelações específicas, como demonstrado em experiências feitas em planetários!), e o campo magnético terrestre, usando para isso fotopigmentos presentes nos olhos e receptores de magnetite no nervo trigeminal. A integração destas informações e de outras secundárias, assim como da experiência, asseguram que a ave consiga completar a sua rota migratória com sucesso, e a forma como as usam varia de espécie para espécie.

Mas como se dá essa variação? E as variações entre indivíduos da mesma espécie? Como já vimos para a toutinegra-de-barrete, diversas populações possuem diferentes respostas migratórias. Em parte isso pode ser definido pelos próprios factores ambientais, mas se as aves saem dos locais para escapar a condições adversas, têm que o fazer antes delas chegarem, porque se não perdem a oportunidade de acumularem reservas de gordura. As aves têm assim um “programa migratório” que é definido geneticamente – isto é comprovado por experiências realizadas em laboratório ou condições controladas em campo nas quais aves mantidas em cativeiro, sem acesso a estímulos ambientais, exibem na mesma uma forte tendência para migrar numa direcção específica, e numa altura do ano determinada, um fenómeno chamado de zugunruhe, palavra alemã que se traduz mais ou menos como “ansiedade de migração”. Curiosamente, aves em zugunruhe mantidas em laboratório mimetizam de forma quase perfeita a rota migratória das congéneres selvagens. Por exemplo, uma ave cuja espécie migre normalmente da Bélgica para África, passando por Portugal, mesmo em laboratório apresentará um período de zugunruhe com uma duração semelhante à migração em estado selvagem, e em que adopta direcções preferenciais correspondentes – de início tende a orientar-se para sudoeste (na direcção de Portugal), depois para Sul (como se estivesse a percorrer a costa portuguesa), e depois para sudeste (em direcção a África).

Zugunruhe em Saxicola torquata axillaris (não migrador, em cima) e Saxicola torquata rubicola (migrador, em baixo) - embora a subespécies axillaris não seja migradora, apresenta "ansiedade de migração" - Fonte: Helm & Gwinner (2006)

No entanto, não são só as espécies migratórias que exibem zugunruhe: num artigo de 2006, os ornitólogos Barbara Helm e Eberhard Gwinner demonstraram que as aves residentes, que passam todo o ano no mesmo território, também exibem zugunruhe. Comparando subespécies migradoras e não migradoras do cartaxo (Saxicola torquata rubicola e Saxicola torquata axillaris, respectivamente), verificaram que a subespécie não-migradora também apresentava zugunruhe, embora de forma menos intensa.

É precisamente a base genética dos comportamentos migratórios que permite flexibilidade nas populações de aves, levando a que as populações se possam adaptar a mudanças nas condições ambientais. Um exemplo disto são as toutinegras-de-barrete do centro da Europa. Tradicionalmente estas aves deslocam-se no Inverno para o Sul europeu para fugir aos rigores dos meses frios, mas nas últimas décadas tem-se assistido a um aumento no número de aves invernantes nas ilhas britânicas, provenientes dos países centro-europeus – aves que na sua primeira migração de final de Verão, em vez de estarem programadas para seguir para o Sul, seguirem para Oeste e tiveram sorte de encontrar condições adequadas para passar o Inverno. Não é que antes não houvessem toutinegras com esta tendência, simplesmente ao chegarem às ilhas britânicas encontravam condições demasiado inóspitas; ultimamente, com o aumento das temperaturas a nível global, já têm hipóteses, e acabam por passar esta tendência migratória para as próximas gerações – mais um exemplo perfeito da ocorrência de evolução por selecção natural!

Com tantas aves a migrar todos os anos, várias vezes ao ano, num processo tão complexo, já viram as considerações que se podem tecer quando começamos a falar de uma única toutinegra com uma anilha?

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Referências

– Gill, F. (1995). Ornithology (3rd ed.). New York: W.H. Freeman

Helm B, & Gwinner E (2006). Migratory restlessness in an equatorial nonmigratory bird. PLoS biology, 4 (4) PMID: 16555925 (link)

Pulido, F. (2007). The Genetics and Evolution of Avian Migration BioScience, 57 (2) DOI: 10.1641/B570211 (link)

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