Os estorninhos e a Sociedade Americana de Aclimatização

A cidade de Nova Iorque fica em dívida para com a Sociedade Americana de Aclimatização por pôr em liberdade estorninhos-comuns … no Central Park … Desde o momento em que sai do ninho, começa a manifestar a sua alegre e jovial disposição cantando alegremente durante todo o dia, independentemente do quão inclemente estiver o tempo, ou da escassez da sua comida, ensinando-nos uma lição de contentamento mais eficazmente que alguns dos nossos maiores filósofos.

O problema das espécies exóticas e invasoras é hoje em dia reconhecido como um dos mais nefastos para a conservação da biodiversidade a nível mundial, quer seja pela introdução de predadores das espécies nativas, herbívoros vorazes ou plantas de crescimento rápido. Para além do problema óbvio de que estas espécies possuem uma maior capacidade para competir pelos recursos que as nativas, levando à sua substituição, levam a problemas graves para a nossa economia.

Mas nem sempre foi assim. Noutros tempos, de maior descontracção, quem diria que introduzir espécies longínquas poderia ser um problema? Que mal faz lançar uns estorninhos europeus no meio do Central Park de Nova Iorque?

O estorninho-comum (Sturnus vulgaris) - simpática ave europeia, nefasta praga americana - Fonte: Dick Daniels (http://carolinabirds.org/)

A Sociedade Americana de Aclimatização (AAS, American Acclimatization Society) foi fundada em 1871 por Eugene Schieffelin e John Avery, inspirada por várias outras sociedades com o mesmo fim, das quais a primeira foi criada em 1854 em França sob a direcção do naturalista Isidore Geoffroy Saint-Hilaire, com o objectivo de importar espécies exóticas por motivos ornamentais ou de produção. Schieffelin, o mais proeminente membro e impulsionador da AAS, importante magnata da indústria farmacêutica nova-iorquina, era fascinado pela forma como William Shakespeare retratava o mundo natural nas suas obras, e por isso tomou como objectivo introduzir no continente americano todas as aves retratadas na obra do grande bardo.

Os esforços de introdução intencional de aves exóticas em Nova Iorque já tinham começado anteriormente, quando 50 casais de pardais (Passer domesticus) foram libertados no Central Park, tendo-se multiplicado nos anos subsequentes. Outras aves, como tentilhões ou melros também tinham sido libertados em 1974, sem sucesso, até que foi tentada a libertação de estorninhos-comuns (Sturnus vulgaris) em 1877. Esta primeira tentativa não resultou, mas libertações feitas nos anos de 1890 (60 estorninhos) e 1891 (40) tiveram grande sucesso.

Inicialmente viu-se com bons olhos esta introdução: para além do seu inegável valor estético e cultural (pelo menos para as gentes da AAS), o estorninho tornou-se um predador de várias espécies de insectos vistas como nocivas. Infelizmente também se tornou rapidamente um incómodo para as espécies nativas de aves, com o seu comportamento agressivo e competição por locais de nidificação. Não demorou muito até que se começassem a debater os méritos da introdução desta espécie. Os defensores dos estorninhos defendiam que esta alegre ave, para além de controlar pragas agrícolas, era menos prejudicial para as culturas que várias espécies nativas, e exaltavam as maravilhas dos grandes bandos que formavam.

Sem dúvida um espectáculo magnífico! Excepto se estiverem num avião. - Fonte: Walter Baxter (http://www.geograph.org.uk/photo/1069339)

No entanto, mais de 100 anos após a introdução desta espécie, é fácil ver os vários problemas:

– Transmissão de doenças – salmonela, clamidiose, paratuberculose, gastroenterite, shigelose, histoplasmose e febre do Nilo ocidental são doenças transmissíveis para pessoas ou gado, algumas delas altamente perigosas, que usam os estorninhos como vector de transmissão;

– Impactos económicos – cerca de 800 milhões de dólares por ano perdem-se devido aos estorninhos, que para além de transmitirem doenças perigosas, comem a comida destinada ao gado, comem produtos agrícolas, e invadem pomares;

– Problemas sociais – os “alegres” estorninhos de Shakespeare são, em muitos casos, extremamente irritantes! Barulho, dejectos e danos a imóveis são alguns destes problemas;

– Problemas para o tráfico aéreo – os maravilhosos bandos exaltados pelos defensores da introdução dos estorninhos tornaram-se a partir do séc. XX um problema para aviação, com o risco de colisões das aves com os reactores dos aviões, tendo em alguns casos levado à morte de pessoas;

– Problemas ecológicos – ironicamente, é para estes que tenho mais dificuldade em encontrar referências. Um estudo feito em 2003 por Walter Koenig com 27 espécies americanas que fazem ninhos em cavidades (e que por isso competem com os estorninhos), demonstrou que apenas pica-paus do género Sphryapicus estão em risco. No entanto outras espécies podem também estar ameaçadas, e há também o perigo dos estorninhos auxiliarem a dispersão de sementes de plantas exóticas.

Hoje em dia os estorninhos estão espalhados por todo o continente americano, e parece difícil erradicá-los. As técnicas de controlo envolvem assustá-las usando explosivos, ou o uso de químicos para envenenar as aves – chegou-se mesmo a criar o Starlicide (estarlicida) especificamente para lidar com os estorninhos e outras exóticas nefastas como os melros, mas estes produtos podem também ser tóxicos para outras aves. Como para tantos outros casos de espécies exóticas, pior a emenda que o soneto… mais valia não ter levado o raio dos estorninhos!

.

Referências

– American Acclimatization Society, New York Times, 15/11/1877 (link)

– Coates, P. (2006) American Perceptions of Immigrant and Invasive Species: Strangers on the Land. University of California Press, Berkeley, CA, 256 pp

– Linz, G. M., H. J. Homan, S. M. Gaukler, L. B. Penry, and W. J. Bleier, “European starlings: a review of an invasive species with far-reaching impacts,” Proceedings of the Management of Invasive Species Conference, 378-86. (link)

– Tober, J. A. (1981). Who Owns the Wildlife? The Political Economy of Conservation in Nineteenth-Century America. Greenwood Press, Westport, CT. 254 pp.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: