O Banco de Gorringe, o grande monte submarino de Portugal

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Quando pensamos nas grandes elevações em território português, lembramos-nos da Serra da Estrela, com os seus 1993 metros de altitude, ou a Montanha do Pico, vulcão que atinge os 2351 m. No entanto, podemos também procurar debaixo do mar, e se o fizermos iremos encontrar grandes elevações a que damos o nome de montes submarinos. A maior destas elevações em território europeu é o chamado Banco de Gorringe, localizado na Zona Económica Exclusiva portuguesa, e só foi descoberto em 1875 por uma expedição americana (o USS Gettysburg), comandada pelo capitão Henry Gorringe.

Elevações submarinas da costa sudoeste da Península Ibérica – Fonte: Filipe M. Rosas (http://lisbonstructuralgeologist.blogspot.com/) e GoogleEarth

Os montes submarinos são elevações que geralmente se erguem 1000 m acima do fundo oceânico (embora num sentido mais lato se possam incluir elevações com menos de 1000 m), e cujo cume tem uma extensão limitada. Possuem uma grande variedade de formas, e são geralmente de natureza vulcânica, distribuindo-se de forma irregular pelos fundos oceânicos do nosso planeta, localizadas em zonas de convergência de placas tectónicas, em riftes divergentes (como a crista médio-atlântica) ou em resultado de vulcanismo intraplaca. As ilhas oceânicas podem ser consideradas como montes submarinos que se elevam acima do nível da água do mar.

O Banco de Gorringe é um monte submarino que se localiza a cerca de 200 km do Cabo de S. Vicente (em Sagres), e que tem cerca de 180 km de comprimento, elevando-se cerca de 5000 m acima do fundo oceânico (neste caso, a Planície Abissal do Tejo) – isto significa que é uma elevação mais do que duas vezes maior do que a Montanha do Pico (se contarmos esta apenas a partir do nível da água do mar – se contarmos a partir do fundo oceânico será bem mais alta).

Isto faz com que o pico mais alto do Banco de Gorringe, o Monte Gettysburg, se localize apenas a cerca de 25 m da superfície!

Os dois grandes picos do Banco de Gorringe, os montes Gettysburg e Ormonde – Fonte: Nautilus Expedition (http://www.nautiluslive.org/blog/2011/10/13/welcome-gorringe-bank)

Geologicamente, o Banco de Gorringe situa-se próximo de uma das falhas mais importantes do globo, a falha Açores-Gibraltar, que separa a placa Euroasiática da placa Africana. Estudos petrológicos demonstram que Gorringe é constituído sobretudo por gabros e peridotitos serpentinizados, rochas normalmente características de profundidade que foram trazidas para mais próximo da superfície durante a abertura do Atlântico, e finalmente exumadas durante os movimentos compressivos mais recentes.

Contexto geo-tectónico da falha Açores-Gibraltar e da Península Ibérica – Fonte: Ivone Jiménez-Munt (http://www.ija.csic.es/gt/ivone/research_AFEU.html)

Estes locais peculiares, grandes elevações no meio do oceano, causam alterações nas correntes oceânicas e funcionam como refúgio para um grande número de espécies marinhas, formando comunidades adaptadas a diferentes condições desde a base até ao topo do monte. Neste ponto o Gorringe mostra-se também fascinante – ao contrário da maioria dos montes submarinos, que têm picos a grande distância da superfície do mar, os picos do Gorringe são bastante superficiais, permitindo o estabelecimento de comunidades com base na capacidade fotossintética de várias algas.

Das cerca de 150 espécies conhecidas neste local, os grupos de animais mais representados são os moluscos e os peixes, seguidos dos cnidários, equinodermes e esponjas. Das algas, o que mais facilmente salta à vista são as florestas de kelp da espécie Laminaria ochroleuca, que em conjunto com outras espécies mais pequenas de algas formam um habitat diverso que alberga uma grande quantidade de espécies animais.

Uma raia-eléctrica-marmorada (Torpedo marmorata) a nadar numa floresta de kelp (Laminaria ochroleuca) do Banco de Gorringe – Fonte: Oceana/Carlos Suarez (http://na.oceana.org/en/blog/2011/08/expedition-in-the-med-comes-to-a-close)

No geral, estes ecossistemas marinhos funcionam como “ilhas submarinas” – como se encontram separados unss dos outros por planícies abissais, estes montes acabam muitas vezes por desenvolver uma fauna e flora endémicas de cada um, chegando em alguns montes do Pacífico a cerca de 30%-50% de endemismos. No Gorringe a percentagem de espécies únicas é muito baixa, e uma das razões parece ser a baixa profundidade dos seus cumes, que permite mais facilmente a migração de espécies provenientes de montes submarinos e continentes próximos, adquirindo desta forma uma grande importância ecológica.

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Referências

Jiménez-Munt, I., Fernàndez, M., Vergés, J., Afonso, J., Garcia-Castellanos, D., & Fullea, J. (2010). Lithospheric structure of the Gorringe Bank: Insights into its origin and tectonic evolution Tectonics, 29 (5) DOI: 10.1029/2009TC002458 (link)

– Oceana (2005) – The seamounts of the Gorringe Bank (link)

– Wessel, P. (2009) Seamounts, Geology, in Clague, D. A., and Gillespie, R. (eds),. Encyclopedia of Islands, UC Press, Berkeley, CA, pp. 821–825. 59

4 Responses to O Banco de Gorringe, o grande monte submarino de Portugal

  1. Maria diz:

    Muito interessante. Gostei muito do artigo.

  2. ana cristina diz:

    vou utilizar

  3. João lancastre diz:

    Possuo um barco com capacidade de visitar o banco Gorronge e lá permanecer 5 dias.

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