There is nothing like geology – Darwin e a Geologia

Darwin was a biological evolutionist, because he was first a uniformitarian geologist. Biology is pre-eminent to-day among the natural sciences, because its younger sister, Geology, gave it the means.

– Charles Lapworth

Charles Robert Darwin - Fonte: John G. Murdoch

ResearchBlogging.org

Charles Darwin é conhecido como um dos grandes cientistas da história, um dos maiores naturalistas britânicos do século XIX. A sua viagem à volta do mundo a bordo do HMS Beagle foi relatada ao pormenor, incluindo as várias descobertas que foram  feitas, das quais se tornaram famosas as observações sobre a fauna das ilhas Galápagos e outros locais, e que viriam a influenciar em boa parte o desenvolvimento da teoria de evolução por selecção natural que o haveria de tornar famoso até aos dias de hoje. Esta teoria, entretanto complementada com as descobertas feitas no campo da genética, é um dos pilares fundadores da biologia moderna, e por isso pensamos em Darwin como um dos grandes biólogos.

No entanto, Darwin não se interessava apenas pelo mundo vivo. Actualmente estamos habituados ao papel do cientista especialista numa determinada área, mas antigamente não era raro vermos cientistas que se debruçavam sobre várias temáticas, e Darwin era um cientista que se ajustava como uma luva ao conceito de cientista multi-disciplinar.

Inicialmente, Darwin considerava a geologia como algo aborrecido, fruto das poucas aulas que teve na Universidade de Edinburgo, tendo até considerado não abordar de todo este disciplina. Esta percepção mudou quando travou conhecimento com Adam Sedgwick, iminente geólogo e mentor de Darwin (embora mais tarde se tornasse um oponente à sua teoria de evolução). Quando embarcou na famosa viagem do Beagle, no final de 1831, Darwin começava já a interessar-se por esta ciência, e foi nesta altura que recebeu mais um grande incentivo: o capitão da embarcação, Robert Fitzroy, ofereceu-lhe uma cópia do recentemente editado primeiro volume de Principles of Geology, talvez o mais influente livro da história das geociências, escrito por um dos mais iminentes geólogos da história, Sir Charles Lyell, no qual expande e populariza a teoria do uniformitarismo: esta afirma que a evolução geológica do nosso planeta se dá lentamente, ao longo de vastos períodos de tempo, por resultado cumulativo de pequenas alterações produzidas pelos mesmos agentes e processos que se observam hoje em dia, como a erosão, o vento, a chuva ou a sedimentação. O presente é a chave para interpretar o passado.

There is nothing like geology; the pleasure of the first days partridge shooting or first days hunting cannot be compared to finding a fine group of fossil bones, which tell their story of former times with almost a living tongue.

– Charles Darwin

A leitura da obra de Lyell teve grande influência sobre o jovem Darwin durante a sua viagem (mais tarde os dois iriam tornar-se bons amigos), durante a qual fez registos da geologia dos vários locais por onde passou, incluindo longos registos da geologia da América do Sul e de várias ilhas vulcânicas, assim como dos recifes de corais. Na realidade, Darwin parecia mais interessado em registar os aspectos geológicos destes exóticos locais do que a sua fauna e flora, dado ter produzido uma maior quantidade de dados neste sentido. Obviamente, isto não quer dizer que os aspectos biológicos foram negligenciados: tal como foi acima referido, muitos apontamentos serviram de base ao desenvolvimento da sua teoria de evolução das espécies.

Quando regressou da sua grande viagem, Darwin era já considerado um cientista de renome. A sua principal contribuição para o campo das geociências, a sua teoria sobre a formação dos atóis, ainda é considerada válida hoje em dia (algumas das suas outras observações tiveram que ser re-interpretadas à luz da teoria da tectónica de placas). Antes de Darwin pensava-se que os atóis (ilhas circulares formadas por corais, com uma laguna no interior) formavam-se pelo levantamento do fundo do oceano de crateras rodeadas por corais. Darwin notou no entanto que os atóis se localizavam no meio do oceano, em áreas de subsidência, e que por isso o mais provável era que os atóis fossem formados por corais que cresciam na periferia de ilhas que gradualmente se afundavam no mar.

Diagrama de Darwin a representar o estado final do desenvolvimento de um atol - Fonte: http://darwin-online.org.uk/converted/published/1874_Coral_F275/1874_Coral_F275.html

A experiência de Darwin como geólogo, assim como a influência das teorias uniformitaristas, deram-lhe ferramentas essenciais para abordar um dos maiores problemas da biologia da época: como surgiriam as espécies? E que relação teriam as espécies actuais com as espécies fósseis? As observações de Darwin durante a viagem do Beagle ajudaram-no a teorizar que numa população de seres vivos há competição entre os vários indivíduos pelos recursos, sobrevivendo apenas aqueles que teriam as características que lhes permitiram adaptarem-se melhor às condições do meio, passando essas características às gerações seguintes. Para Darwin, este seria um processo gradual de modificação que só seria compatível com uma longa história geológica, nunca um passado recente de milhares de anos como deduzido a partir da Bíblia. Só no século XX, com o desenvolvimento da datação radiométrica, se demonstrou que Darwin estaria correcto – o nosso planeta parece existir há cerca de 4600 milhões de anos, tempo suficiente para a Vida se desenvolver e evoluir, até às maravilhosas formas que vemos hoje em dia!

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Referências

Kutschera, U. (2010). Darwin’s geological time dilemma Nature Geoscience, 3 (2), 71-72 DOI: 10.1038/ngeo767 (link)

– Laporte, L. F. (1996) Darwin the Geologist. GSA Today. December 1996, pp 8-10 (link)

4 Responses to There is nothing like geology – Darwin e a Geologia

  1. José Batista diz:

    Eis um artigo com muito interesse para a disciplina de biologia/geologia de 11º Ano, agora que está prestes a ser abordado o evolucionismo, com relevência particular para a obra e pensamento de Charles Darwin. Mas também para a conveniente relação com o uniformitarismo de James Hutton e Clarles Lyell, quer enquanto matéria do âmbito da geologia, parte integrante da disciplina, quer como fundamento do darwinismo, que este texto tão bem refere.
    Repito: este sítio, pelo qual apenas dei umas olhadelas, é fantástico para professores e alunos do ensino secundário da área da biologia e da geologia. Pelo conteúdo e pela adequação e correção – pontuação, rigor, clareza – da linguagem escrita, assim como pela beleza e qualidade das fotografias.

    • vidaterra diz:

      Olá José, obrigado de novo pelos comentários!

      Darwin é um excelente representante de uma bonita era da história natural – quando as pessoas queriam descobrir porque sim, quando a ciência não precisava necessariamente de ser uma profissão, e as pessoas podiam contribuir para o seu avanço sem terem que ser grandes cientistas num mega-laboratório. Uma visão romântica, sem dúvida, e na minha opinião que infelizmente caiu em desuso. Deveriam haver mais maneiras de envolver as pessoas nos processos de descoberta científica que fossem além das visitas guiadas e dos livros (esses, por si só, já com grande importância), e que passassem por incentivar as pessoas as participar activamente no processo de descoberta científica. Talvez escreva um post sobre isso no futuro…

  2. José Batista diz:

    Concordo. Uma boa forma de “alimentar” a ciência é divulgá-la do modo mais acessível que se possa pelo maior número de pessoas. Não que todos passem a fazer ciência, ou sequer a entendê-la, mas muitos se sentiriam mais próximos dela, o que traria grandes vantagens sociais, suponho, e constituiria um incentivo e um apoio aos verdadeiros cientistas. Ora, hoje, a ciência, pelo menos em países como o nosso, é algo restringido à compreensão de muito poucos, e muito longe do entendimento de quase todos.
    Um divórcio sem nenhuma vantagem, e com muitos prejuízos.

    PS: lá em cima, onde escrevi “relevência” devia, obviamente, ter escrito “relevância”.

  3. paulo diz:

    muito interessante a hestoria de darwin.

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