Um ano depois, mais histórias de rotíferos!

ResearchBlogging.org

O meu primeiro post neste blog foi sobre rotíferos, um grupo de pequenos animais (aliás, bastante pequenos) comuns em virtualmente qualquer habitat onde se encontre humidade. Na altura planeei fazer um segundo post para continuar a escrever informação sobre estes fascinantes invertebrados, infelizmente desconhecidos da maioria das pessoas, mas o tempo lá passou… e escrevi sobre outras coisas… e pronto, lá decidi que seria hoje que voltaria aos rotíferos. E aqui estamos nós!

O bdelóide Habrotrocha rosa - Fonte: Rtitko (http://commons.wikimedia.org/wiki/User:Rkitko)

Recapitulando um pouco do que foi dito no artigo que escrevi no ano passado,  os rotíferos são animais invertebrados, que formam um grupo evolutivo coerente, os Rotifera. São na sua maioria animais microscópicos que habitam zonas com humidade, e que podem ser reconhecidos pela característica anatomia do corpo dividida em três partes principais: uma cabeça (na qual se localiza a coroa de cílios), o tronco (que contém a maioria dos órgãos corporais) e a cauda (serve para os rotíferos se agarrarem ao substrato). O nome destes animais provém do aparente movimento rotatório da coroa de cílios quando estes se mexem para canalizar alimento para a boca. Um dos pontos de interesse mais conhecidos dos rotíferos é o facto dos membros de um dos seus grupos, os Bdelloidea, apresentarem um estilo de vida completamente assexual – cerca de 300 espécies das quais só se conhecem fêmeas, um estilo de vida partilhado desde há cerca de 80 milhões de anos, antes da extinção dos dinossauros não-avianos (mais de 10 milhões de anos antes de terem surgido Tyrannosaurus)!

Dentro da grande cadeia de relações evolutivas que formam o grupo dos animais, os rotíferos são parte do grupo dos Lophotrochozoa (animais protostómios). Tradicionalmente considerava-se que os seus parentes mais próximos eram os acantocéfalos (Acanthocephala), um grupo com cerca de 1000 espécies, essencialmente parasitas intestinais de vertebrados (o seu nome refere-se aos espinhos presentes no probóscide anterior dos adultos, que servem para se agarrarem à parede intestinal dos hospedeiros), até que o advento de técnicas moleculares para determinação de filogenias ter revelado que estes parasitas são na realidade rotíferos extremamente modificados! As características morfológicas não parecem dar indicações conclusivas, mas os estudos moleculares apontam para que os acantocéfalos e os bdelóides formem um grupo próximo dentro dos rotíferos. Assim temos como grandes grupos de rotíferos os Monogononta, Seisonidea, Bdelloidea e Acanthocephala.

Andracantha tandemtesticulata, um acantocéfalo parasita de corvos-marinhos - Fonte: Monteiro et al 2006 (http://www.scielo.br/pdf/rbzool/v23n3/a27v23n3.pdf)

Uma característica conhecida dos bdelóides (sem dúvida as estrelas no mundo dos rotíferos!) é a sua grande resistência a condições ambientais extremas, nomeadamente radiação e falta de água. Na realidade, a resistência à radiação elevada ocorre como resultado da resistência à seca – o habitat de muitos rotíferos são corpos de água temporários como charcos. Quando o meio onde vivem seca, para além da falta de água, as cadeias de transporte de electrões são afectadas pela falta de água, levando à formação de agentes oxidantes (algo que também acontece quando o animal é exposto a radiação ionizante). Como tinha sido mencionado no primeiro post, os bdelóides possuem mecanismos celulares que lhes permitem recuperar o seu material genético quando este é degradado pelas condições de dessecação, fazendo com que o genoma actual destes animais seja um resultado de milhões de anos de corta-e-cola de DNA, incluindo por vezes material genético de outros organismos.

Um pequeno charco a secar é um futuro perigo para a maioria dos animais que lá habitam, mas uma boa perspectiva de sobrevivência para os bdelóides - Fonte: Jim Champion (http://www.geograph.org.uk/profile/1086)

Embora geralmente um estilo de vida assexual, como o dos bdelóides, seja evolutivamente pouco estável (a reprodução sexuada permite que adaptações favoráveis às alterações ambientais surjam e se espalhem mais rapidamente pela população), neste grupo este estilo de vida pode ter sido mantido precisamente graças à grande resistência à seca – poucos serão os animais que aguentam condições de seca tão extrema, logo estes rotíferos conseguem sobreviver quando muitos dos seus predadores, agentes patogénicos ou outros não conseguem, para além de poder facilitar a sua dispersão (deixam de estar completamente dependentes da água).

E por hoje fico-me por aqui. Talvez daqui um ano escreva mais alguma coisa sobre rotíferos! Para concluir, mais uma vez, deixo-vos com um bonito vídeo com bonitos animais.

.

Rotifera – pequeno resumo (parte 1)

Um ano depois, mais histórias de rotíferos! (parte 2)

.

Referências
– Brusca, R. C., and G. J. Brusca (2003). Invertebrates. Second edition. Sinauer Associates, Inc., Sunderland, MA.

Garey, J.R., Schmidt-Rhaesa, A., Near, T.J., & Nadler, S.A. (1998). The evolutionary relationships of rotifers and acanthocephalans Hydrobiologia (387-388), 83-91 DOI: 10.1007/978-94-011-4782-8_12 (link)

Gladyshev, E., & Meselson, M. (2008). Extreme resistance of bdelloid rotifers to ionizing radiation Proceedings of the National Academy of Sciences, 105 (13), 5139-5144 DOI: 10.1073/pnas.0800966105 (link)

2 Responses to Um ano depois, mais histórias de rotíferos!

  1. Pingback: Rotifera – pequeno resumo « Histórias da Vida e da Terra

  2. Gosto tanto quando os vejo nas minhas amostras de musgo, assim muito calmos e de repentes começam a andar muito freneticamente com as suas coroas, como se fosse um carro limpador do chão.🙂

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: