O pisco-de-cauda-azul: uma nova espécie de ave registada para Portugal

Este artigo foi publicado originalmente na Revista Parques e Vida Selvagem nº39 (Primavera de 2012)

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Quando passeamos nos nossos parques, quando vamos à praia, sempre que estamos no nosso quintal, e ouvimos a grande diversidade de espécies de aves a cantar, raras são as vezes que nos apercebemos que uma grande parte delas são animais migratórios, que anualmente realizam grandes movimentos entre os locais onde se reproduzem e os refúgios de inverno. Estes pequenos animais alados dispõe de um grande arsenal de “tecnologias” naturais de navegação que lhes permitem deslocarem-se na época e orientação correctas, e cuja eficácia quase envergonham os nossos sofisticados sistemas de GPS: dependendo da espécie, têm capacidade de se orientarem pelas estrelas, pelo campo magnético da Terra ou pela posição do Sol, com cada ave a utilizar estes mecanismos de acordo com a sua programação genética e com a experiência adquirida de migrações anteriores. Embora cada espécie tenha uma ou outra rota preferencial, seguida pela grande maioria dos indivíduos, alguns acabam por se desviarem do caminho ideal, acabando em terras onde não é suposto os encontrarmos.

O pisco-de-cauda-azul (Tarsiger cyanurus) – Fonte: Tetsuya Shimizu (http://www.flickr.com/photos/mushimizu/)

António Marques é um ornitólogo algarvio já com 30 anos de experiência, responsável pelos trabalhos de monitorização da estação de anilhagem de aves de Loulé (na Fonte da Benemola). Para além deste trabalho de anilhagem no campo, também recolhe anilhas de aves mortas por caçadores da zona: “Uso o sistema de colocar em zonas estratégicas no meio rural, em cafés como em restaurantes onde se juntam muitas pessoas, um pequeno recipiente onde depois são colocadas anonimanente as anilhas. Todo este trabalho é perigoso e arriscado porque mexe com hábitos ainda muito enraizados na nossa cultura. Mas tem só uma finalidade para mim que é a científica.” Num dia como qualquer outro em que foi recolher essas anilhas, encontrava-se uma pata com uma anilha que indicava que a ave em questão viria de longe: mais concretamente, da Suécia. Encontrar aves com anilhas estrangeiras não é raro, por isso António tratou de entrar em contacto com as autoridades suecas para saber a espécie a que pertencia a pata.

Pelas informações que chegaram do país nórdico, a ave foi anilhada em Utklippan, no Sul da Suécia, em 15 de Outubro de 2011, e encontrada morta em Boliqueime 96 dias depois, em 19 de Janeiro de 2012, a 2724 quilómetros de distância. Nada de incomum para um pássaro. A grande surpresa veio ao saber a identidade do animal: era um macho juvenil de pisco-de-cauda-azul (Tarsiger cyanurus), uma espécie nunca antes observada em Portugal! Na verdade, até para a Suécia esta espécie é rara – só 32 indivíduos foram anilhados neste país, mas este número está rapidamente a aumentar à medida que a distribuição desta espécie se está expandir para a Europa – esta é uma ave tipicamente asiática, ocorrendo mais raramente nos países do Norte da Europa (Finlândia e parte europeia da Rússia). No Inverno deslocam-se habitualmente para o Sul do continente asiático, pelo que a ave algarvia se desviou muito da rota normal!

Os movimentos migratórios (simplificados) usuais no pisco-de-cauda-azul – no final do Verão, voam para o Sul do continente asiático, onde passam o Inverno (azul), migrando de novo para Norte na Primavera quando o tempo começar a aquecer (vermelho). O local mais a Oeste onde esta espécie nidifica é a Rússia e Finlândia, e uns poucos casais na Suécia – destes, uma cria voou no sentido contrário ao normal, vindo parar a Portugal (amarelo)

Encontrar uma espécie nova de ave para Portugal não é algo que aconteça com frequência. Parece muito pouco provável que as autoridades suecas se tenham enganado na identificação do espécime, mas com uma pata apenas ficaria sempre uma réstia de dúvidas quanto à identidade da ave, sobretudo num achado tão singular. Por esta razão Júlio Neto, investigador do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO) da Universidade do Porto, realizou as análises genéticas necessárias que poderiam determinar a identidade da ave. Retirada uma amostra de DNA da pata da ave, Júlio utilizou técnicas de biologia molecular para estudar um gene específico (designado ND2) para o qual já era conhecida uma sequência para o pisco-de-cauda-azul. Feitas as comparações entre a amostra da ave de António e a sequência do gene ND2 já conhecida de um destes piscos asiáticos, o investigador conseguiu concluir que eram idênticas, ou seja, tanto a amostra como a sequência publicada pertencem a aves da mesma espécie.

A descoberta do pisco-de-cauda-azul no Algarve é importante por várias razões. Para além de ser um registo (mesmo que acidental) de uma espécie antes desconhecida em Portugal, é um importante testemunho da forma como as rotas migratórias das aves evoluem ao longo do tempo. Por enquanto, animais como este que venham parar nestes lados da Europa não deverão ter muito sucesso, mas quem sabe, num futuro longínquo, com o aumento progressivo da espécie no continente europeu, talvez o pisco-de-cauda-azul venha a estabelecer-se como uma ave portuguesa.

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References

-Naturhistoriskariksmuseet. Red-flanked Bluetail found in Portugal. 16/02/2012 (http://www.nrm.se/frontpage/researchandcollections/zoology/vertebratezoology/birdringingcentre/latestnews.272_en.html)

–  Neto, J. M. An unusual find. 09/03/2012 (http://web.mac.com/julio.m.neto/Webpage/Blog/Entries/2012/3/9_An_unusual_find.html)

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