Das mimosas e outras acácias…

“as Acacias são o baptismo milagroso pelo qual a esterilidade se converte à cultura”

Jayme Magalhães Lima, 1920

ResearchBlogging.orgAs acácias são maravilhosas espécies vegetais. Um vasto grupo de espécies distribuído sobretudo pelo Hemisfério Sul, inúmeras experiências naturais que demonstram o adaptar de cada uma delas a diferentes condições ambientais, uma parte integrada do meio que coexiste com outras espécies vegetais e que dá abrigo e alimento a várias espécies animais, sobretudo na Austrália, onde juntamente com os eucaliptos as acácias representam 75% da vegetação lenhosa. Entre estas muitas espécies, uma especialmente bonita é a mimosa, que na floração apresenta inflorescências globulares amarelo-brilhante, como se fossem bonitos cachos amarelos de flores. Infelizmente, hoje em dia as “milagrosas” acácias deixaram de estar restritas aos continentes do Sul, tornando-se uma praga que ameaça vários ecossistemas bem longe da Austrália, incluindo os ecossistemas portugueses.

A mimosa (Acacia dealbata), uma árvore com inflorescências lindas mas uma terrível capacidade de invasão no Sul da Europa – Fonte: Eugene Zelenko (http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Acacia_dealbata-1.jpg)

As acácias (género Acacia) formam um grupo de cerca de 1380 espécies, 1000 das quais nativas da Austrália (o resto dos continentes do Hemisfério Sul, excepto por algumas espécies norte-americanas), que pertencem À grande família das leguminosas (Leguminosae), embora alguns autores defendam que pertence a uma família própria, independente, as Mimosaceae. Tal como outras plantas leguminosas, como o feijão, as sementes das acácias desenvolvem-se em pequenas favas, nada mais que o fruto, que se abrem na altura da libertação da semente. Como espécies essencialmente australianas, as acácias têm tendência a estarem muito bem adaptadas a climas quente e secos, e com ocorrência regular de fogos – de facto, muitas delas são espécies que podemos designar de pirófitas, ou seja, “amantes do fogo”, espécies para as quais o fogo actua como um estímulo ao crescimento e colonização. Assim se vê que em áreas em que o clima é quente e seco, como no Sul da Europa, as acácias estão muito bem preparadas para competir com as espécies nativas por recursos como espaço, água e nutrientes. O ser humano tem sido um excelente agente dispersor de biodiversidade pelo mundo inteiro, e espécies que antes estavam restritas a uma determinada área podem ser facilmente transportadas para outro lado do mundo. Estas plantas não nativas, que designamos como exóticas, podem até nem causar grandes problemas – de facto, em muitos casos, o novo habitat não tem as condições ideais que a espécie tinha em “casa”. Por vezes, no entanto, a espécie exótica apresenta características biológicas (crescimento rápido, formação de maior número de sementes, alteração das características do meio…) que a tornam um competidor formidável num local onde não é nativa, começando a proliferar – nestes casos estamos perante uma espécie invasora, e o fenómeno designa-se por invasão biológica. No Sul da Europa as espécies mais problemáticas são a acácia-negra (A. melanoxylon), a acácia-de-espigas (A. longifolia) e a mimosa (A. dealbata), sendo que esta é no geral a mais problemática delas.

Mas como é que as mimosas chegaram à Europa? Tal como a maioria das outras acácias, esta espécie é nativa da Austrália, mas não dos quentes desertos do interior – podemos encontrá-la no Sul da Austrália e na Tasmânia, em climas mais temperados e húmidos, com regimes de precipitação não muito elevados e temperaturas amenas. O seu habitat são florestas abertas de eucaliptos, mas apresenta bastante plasticidade para se adaptar a outras condições, e apesar de preferir climas amenas é ainda assim uma espécie bastante bem adaptada a condições ambientais onde os fogos são frequentes. Foi no final do séc. XVIII e inícios do séc, XIX que se começaram a importar para a Europa espécimes desta planta, inicialmente por navegadores britânicos e franceses, que primeiro as disseminaram por colónias como África do Sul ou Madagáscar, antes de virem parar à Europa, espalhando-se pelos países anteriormente mencionados – a principal razão da sua dispersão e aceitação por parte dos europeus foram as suas bonitas flores, embora a madeira também fosse apreciada assim como a sua capacidade para fixar taludes. Os primeiros registos da ocorrência de mimosa em Portugal apontam para a sua fixação como planta ornamental na segunda metade do séc. XIX, como aponta um artigo de 1871 do Jornal de Horticultura Prática acerca da plantação de mimosas no Porto, no qual foi oferecido ““um coupon que dava direito aos assignantes a receberem gratuitamente um pacote de semente da Acacia dealbata””.

Durante muito tempo continuou-se a ver a mimosa e as outras acácias como espécies de excepcional valor económico ou botânico, e embora já se começassem a fazer observações sobre o seu carácter invasor, só em 1937 surgiu a primeira legislação a controlar a plantação de mimosas, embora apenas controlasse distâncias mínimas para terrenos sensíveis (pastos, agrícolas, urbanos, taludes…). Só nas décadas de 1970 e 1980 se começou a olhar para este problema como algo sério, mas nesta altura os principais focos de expansão estavam relacionados não com as plantações, mas com os fogos florestais que permitem a esta e outras acácias colonizarem rapidamente terreno antes ocupado por espécies nativas. Uma vez colonizadas pelas acácias, estas áreas dificilmente voltarão a ter condições para que as espécies nativas de desenvolvam, pois para além de crescerem muito depressa, criam um extenso banco de sementes no solo que permite a rápida re-colonização em caso de perturbações como fogos ou remoção de vegetação, as suas folhas possuem compostos tóxicos que inibem o crescimento de outras plantas quando se acumulam no solo (um fenómeno designado alelopatia), e principalmente alteram bastante a composição química do solo.

Um grande número de acácias-de-espiga (Acacia longifolia) a competir com alguns carvalhos-alavrinhos (Quercus robur), numa encosta perto de Aveiro. Quase de certeza o carvalho não vai conseguir aguentar o ritmo de crescimento das acácias… – Fonte Projecto de Recuperação Ecológica do Cabeço Santo (http://ecosanto.wordpress.com/category/apelos/)

Como já foi referido, as acácias pertencem à família das leguminosas, que são especialistas em formarem, nas suas raízes, relações simbióticas  com bactérias fixadoras de azoto. Embora esta característica permita ao solo ficar mais rico neste nutriente essencial, as características invasoras da acácia fazem com que rapidamente um solo repleto destas plantas fique com uma composição química bastante diferente do original, e que beneficia precisamente as acácias em relação às plantas nativas. Estudos realizados em Espanha e Portugal com solos invadidos por mimosas e solos de carvalhais autóctones (de carvalho-alvarinho, Quercus robur) demonstram as grandes diferenças entre estes dois tipos de terrenos: os solos invadidos por mimosas possuem menos espécies de plantas, maior percentagem de outras espécies exóticas, menos fetos e musgos, são muito mais ricos em azoto e possuem um pH mais ácido. Todas estas alterações nos solos repercutem-se na restante biodiversidade vegetal, e consequentemente na restante biodiversidade, na regulação do ciclo hídrico e todos os outros processos e funções que existem num ecossistema e dos quais também nós retiramos benefícios, os chamados serviços dos ecossistemas. As acácias não são só um problema para as outras plantas e animais, são um problema para nós também.

Com um problema assim tão grande nas nossas mãos, como o resolver? O uso de herbicidas e o corte das acácias são uma forma de as controlar, mas nunca será por muito tempo – o banco de sementes criado pelas acácias nos nossos solos é tão grande que mesmo que arrancássemos todas as acácias neste preciso momento, teríamos ainda sementes suficientes para que acácias continuassem a brotar por largos anos. A melhor hipótese, para além da remoção sempre que possível destas plantas, é ir impedindo a sua invasão em locais ainda livres da influência destas infestantes, conservando as nossas florestas e outros habitats autóctones – quanto mais natural e estável for um habitat, menor é a hipótese de ocorrerem invasões, dado que as plantas invasoras como as acácias têm mais dificuldades em encontrarem recursos ainda não utilizados pelas nativas. Uma outra hipótese que tem sido estudada é a introdução de predadores naturais das acácias no seu habitat natural (como escaravelhos ou vespas), como já tem sido usado em larga escala na África do Sul com bons resultados. Para Portugal já foi testada a espécie de vespa Trichilogaster acaciaelongifoliae para a acácia-de-espigas, com resultados promissores, mas é preciso ter cuidado se realmente viermos a introduzir esta vespa – se esta espécie começar a atacar as nossas plantas nativas, poderemos ter em mãos mais uma espécie invasora…

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Referências

– Doran, J.C. & Turnbull, J.W. (1997), Australian Trees and Shrubs: Species for Land Rehabilitation and Farm Planting in the Tropics. ACIAR Monograph No. 24. Australian Centre for International Agricultural Research, Canberra. (link)

– Fernandes, M.J. (2008) Recuperação ecológica de áreas invadidas por Acacia dealbata Link no vale do rio Gerês: um trabalho de Sísifo. Tese de Mestrado UTAD (link)

– González-Muñoz, N.,, Costa-Tenorio, M.,, & T. Espigares (2012). Invasion of alien Acacia dealbata on Spanish Quercus robur forests: Impact on soils and vegetation Forest Ecology and Management (269), 214-222 DOI: 10.1016/j.foreco.2011.12.026 (link)

– Lorenzo, P., González, L. e Reigosa, M.J. (2010) The genus Acacia as invader: the characteristic case of Acacia dealbata Link in Europe. Annals of Forest Science. 67(1): 101-111. (link)

– Marchante, H., Freitas, H. & Hoffmann, J.H. (2011) Assessing the suitability and safety of a well-known bud-galling wasp,Trichilogaster acaciaelongifoliae, for biological control of Acacia longifolia in Portugal. Biological Control, 56, 193–201. (link)

– Wilson, J.R.U., Gairifo, C., Gibson, M.R., Arianoutsou, M., Bakar, B.B., Baret, S., Celesti-Grapow, L., DiTomaso, J.M., Dufour-Dror, J.-M., Kueffer, C., et al. (2011). Risk assessment, eradication, containment, and biological control: global efforts to manage Australian acacias before they become widespread invaders Diversity and Distributions 17, 1030-1046. (link)

2 Responses to Das mimosas e outras acácias…

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