A (in)utilidade das categorias taxonómicas

Nota prévia: algumas pessoas encararam este post como uma crítica à taxonomia, o que não é de todo o seu objectivo. A taxonomia sempre foi e será uma das disciplinas-base da biologia, um dos alicerces que permite todo o estudo da Vida no nosso planeta. Este post é uma crítica apenas a uma das suas práticas clássicas, o uso de categorias associadas ao nome dos grupos.

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Uma das primeiras coisas que se aprendem num curso de biologia, mas também no estudo das ciências naturais, é que as pessoas gostam de ordem, de nomear e classificar o fenómeno de estudo de forma a melhor o poder compreender e estudar, o que faz todo o sentido dado que o universo nos é apresentado a nós, humanos, desprovido de quaisquer etiquetas que nos ajudem a fazer sentido dele. Criamos a ordem que mais nos convém. Isto acontece, como já referi, no estudo da Vida, desde antes de existir um estudo da Vida como hoje o conhecemos: não é preciso uma pessoa ter instrução formal para perceber que um carvalho é diferente de um pinheiro, que um pinheiro-manso é mais parecido com um pinheiro-bravo do que com um salgueiro, e de que os sobreiros reúnem em si características que os separam dos outros tipos de árvores. Quando este processo de agrupamento de seres vivos é feito de forma científica, estamos a falar de taxonomia.

Dado que toda a gente faz uma espécie de “taxonomia não-intencional”, se queremos uma verdadeira taxonomia com valor científico é preciso que esta seja regida por regras. Embora tenham sido propostos vários sistemas de classificação do mundo vivo (e natural) ao longo dos séculos (o primeiro conhecido foi proposto por Aristóteles), a taxonomia só arrancou verdadeiramente com os trabalhos do naturalista sueco Carl von Linné (também conhecido como Lineu), que no século XVIII publicou essa verdadeira obra-prima histórica da biologia que foi o Systema Naturae, monografia na qual ele desenvolve um meio de classificar todos os seres vivos de forma hierárquica com base nas suas características partilhadas.

Lineu e a 10ª edição (1758) de Systema Naturae, a sua grande obra que popularizou o uso científico de categorias bem definidas para agrupar seres vivos - Fonte Wikimedia

Lineu e a 10ª edição (1758) de Systema Naturae, a sua grande obra que popularizou o uso científico de categorias bem definidas para agrupar seres vivos – Fonte Wikimedia Commons

O método de Lineu era simples: um sistema hierarquizado em que cada grupo (taxon) de seres vivos pertencia a um grupo maior, mais inclusivo, e que era constituído por grupos mais pequenos, mais exclusivos. Nesta hierarquia cada grupo pertencia a uma categoria predefinida, de acordo com a diversidade de membros que incluía: os grupos maiores eram os reinos (animais, plantas, fungos….), que incluíam grupos cada vez mais pequenos e exclusivos – filos, classes ordens, famílias géneros e espécies. Na altura de dar um nome a uma espécie, a designação adoptada contém obrigatoriamente duas palavras, os restritivos genérico e específico (a chamada nomenclatura binomial). Lineu construiu este sistema em parte resgatando ideias já desenvolvidas por naturalistas anteriores.

Assim, por exemplo, as pessoas pertencem à espécie Homo sapiens, ao género Homo, família Hominidae, ordem Primates, classe Mammalia, filo Chordata e reino Animalia (o grupo mais inclusivo). A intenção de Lineu era uniformizar a classificação e eliminar a subjectividade que existia nas várias designações para as categorias naturais. Eu posso ser humano, ou human, mensch, homme, lâng, insaan, om, bniedem, cylvaks, tlacatl, olombelona, zmogus, ëse uman… mas no meio científico, eu sou sempre Homo sapiens, independentemente da minha nacionalidade.

Infelizmente (ou felizmente, do ponto de vista de um taxonomista!), a Natureza desafia as nossas tentativas de a arrumar em caixotes ou categorias perfeitas. Ao descobrirmos que os seres vivos não são entidades imutáveis, que evoluem, que se modificam com o passar do tempo em resposta a pressões selectivas do meio, percebemos que em vez de termos que considerar a Vida como um conjunto de caixas individuais, ela é melhor idealizada como uma estrada que ao longo do tempo se vai bifurcando, cada desvio a acabar num beco ou a continuar, eventualmente modificando-se e continuando a dividir-se. A Vida é um continuum de formas ligadas entre si através do tempo. A classificação de Lineu é assim bastante prática, mas nem sempre muito rigorosa.

Mosquito

Um mosquito (Ochlerotatus notoscriptus) a picar um humano (Homo sapiens): será que há alguma equivalência entre a ordem dos dípteros (origem há cerca de 245 milhões de anos e com mais de 120 000 espécies actualmente descritas) e a ordem dos primatas (com origem há 85 milhões de anos e cerca de 430 espécies actuais)? – Fonte: JJ Harrison, Wikimedia Commons

Por exemplo, ao considerar as aves e os répteis como pertencentes a diferentes classes, ignora todas as evidências que apontam que as aves evoluíram de répteis (logo podem ser considerados um subgrupo dentro dos répteis). Podíamos incluí-las nos répteis, mas a quantidade de novos grupos iria esticar o nosso conceito de categorias: muitas vezes vemos categorias como subclasse, infraclasse, parvoclasse, mas até que ponto podemos esticar as sete categorias tradicionais? E mesmo que não estiquemos as categorias tradicionais, e espremermos as linhagens e grupos adicionais que vamos descobrindo lá para o meio sem inventar prefixos, de que valem essas categorias já existentes? Um “reino” de animais vale tanto como um “reino” de plantas? E uma “ordem” de insectos tanto como uma “ordem” de mamíferos? A que nível, de número de espécies, diversidade morfológica, diversidade genética, ecológica, comportamental, fisiológica, reprodutiva? De forma alguma podemos dizer que as diversas categorias possuem qualquer equivalência entre si. Como poderemos afirmar que as moscas formam uma ordem, e isso dar-nos qualquer informação sobre a sua diversidade, e dizer que os primatas formam também a sua ordem, e dizer que há níveis equivalentes de diversidade biológica entre estes dois grupos de animais tão distintos?

Apesar de tudo, as classificações que criamos não são completamente artificiais, e o trabalho de Lineu continua a ser bastante válido ainda nos dias de hoje. A árvore da Vida realmente é um sistema hierarquizado, hierarquia essa criada pelo padrão de bifurcação que surge com a evolução e divergência das espécies. Quando um grupo origina outros dois, estes podem considerar-se subordinados ao primeiro, pois evoluíram dele. Do primeiro mamífero ancestral evoluíram milhares de formas, todas elas mamíferos ligadas entre si por via do seu ancestral comum, da mesma forma que todos os netos pertencem à mesma linhagem do seu avô. E em nenhum ponto deixa um ser vivo de pertencer ao seu grupo ancestral: as aves são descendentes longínquas do ancestral comum de todos os dinossauros, logo também elas são dinossauros. As classificações actuais, embora não sejam completamente naturais, também não são completamente artificiais, logo é legítimo usarmos os padrões evolutivos das espécies para impormos ordem no mundo natural – caso contrário como faríamos sentido dos quase 2 milhões de espécies que já foram descritas?

Papa-ratos

Aves como este Papa-ratos (Ardeola ralloides) são descendentes de uma linhagem de dinossauros terópodes. Formarão as aves uma “classe” aparte da “classe” dos répteis, ou deverão ser incluídas dentro dessa mesma “classe”, como mais uma (na realidade, várias) categoria adicional? E porque não serem apenas do clado “Aves”, descendente do clado “Dinosauria”, sem qualquer categorização adicional? – Fonte: Mark S. Jobling, Wikimedia Commons

Classificar torna-se assim um acto de equilibrismo entre a utilidade e o rigor, em que nenhum deverá ser demasiado sacrificado, mas que deverá tender para um exercício de rigor, porque se não a classificação deixa também de nos servir. Penso que a melhor alternativa será que de uma vez deixemos de usar categorias para “caracterizar” os grupos de seres vivos. Embora seja inicialmente mais difícil de pensar sem estas categorias, rapidamente nos apercebemos também que elas não nos estavam a transmitir nada de relevante em termos biológicos, apenas as nossas expectativas (ou se calhar mesmo a continuar as expectativas do próprio Lineu) quanto a uma qualquer medida de diversidade de um grupo de seres vivos. Podemos simplesmente considerar os grupos como sendo constituídos por seres vivos que partilham um antepassado comum entre si, mais ou menos distante no tempo, formando conjuntos, ou “clados” sucessivamente mais inclusivos. Em vez de termos a “classe” dos répteis e a “classe” das aves, podemos simplesmente referir-nos ao clado Aves, que inclui os descendentes do antepassado comum das aves actuais, e que por sua vez é descendente de outros clados mais inclusivos como Dinosauria, Reptilia (ou, mais correctamente, Sauropsida), Sarcopterygia, ou Animalia, até chegarmos ao antepassado comum a todos os seres vivos… Esta visão evolutiva, filogenética, do parentesco dos seres vivos é bem mais útil e representativa de uma realidade biológica que a visão fenética que agrupa os seres vivos com base apenas nas semelhanças, e deverá por isso servir melhor os propósitos da taxonomia.

Há uma categoria, no entanto, que pode levantar mais questões. Existirão mesmo espécies, ou serão elas também construções da nossa mente classificativa? Debate para um próximo post…

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Referências

– Benton, M. J. (2005), Vertebrate Palaeontology, 3rd ed. Blackwell Science Ltd

Bertrand, Y., Pleijel, F., & Rouse, G. (2006). Taxonomic surrogacy in biodiversity assessments, and the meaning of Linnaean ranks Systematics and Biodiversity, 4 (2), 149-159 DOI: 10.1017/S1477200005001908 (link)

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