A extinção da experiência natural

I believe that one of the greatest causes of the ecological crisis is the state of personal alienation from nature in which many people live. We lack a widespread sense of intimacy with the living world. Natural history has never been more popular in some ways, yet few people organize their lives around nature, or even allow it to affect them profoundly. Our depth of contact is too often wanting.

Robert Michael Pyle, 1993

Fala-se muito por aí, nos meios científicos, nas escolas, e na comunicação social, que a destruição da Natureza avança, com aumento de poluição, emissão de gases com efeitos de estufa, destruição de habitats, introdução de espécies exóticas e mais um sem número de razões que vão levando à extinção de cada vez mais espécies de seres vivos, a um ritmo e magnitude tais que poderemos quase considerar que estamos a caminho de uma sexta grande extinção da biodiversidade. Com estas espécies e ecossistemas desaparecidos ou degradados, irão muitos dos benefícios que retiramos da Natureza, quer sejam bens de consumo, de regulação ambiental ou benefícios ao nosso próprio bem-estar. Considerando o crescente número de estudos que apontam a imperiosa necessidade de preservamos o nosso meio natural, é tragicamente irónico que continuemos pela nossa mão a destruir a nossa real fonte de sustento actual e futuro. Então porque é que não protegemos mais a Natureza? Talvez uma parte da resposta esteja numa outra “extinção”, um pouco menos discutida…

Em 1978 o ecólogo americano Robert Michael Pyle cunhou a expressão “extinção da experiência”, referindo-se à crescente tendência nas sociedades modernas para as pessoas se afastarem e isolarem do mundo natural. À medida que nos refugiamos em meios urbanos cada vez mais artificiais, com uma fauna e flora depauperadas, aumenta o afastamento, o desconhecimento e a apatia em relação à Natureza, meio cada vez mais estranho a nós (um número cada vez maior de pessoas vive em meios urbanos, actualmente cerca de metade da população mundial, percentagem que será bem maior nos países ocidentais). Para Pyle, o afastamento de elementos naturais do nosso dia-a-dia equivale de certa forma a uma extinção desses elementos, pois emocionalmente torna-se progressivamente mais difícil estabelecer laços com eles: “If a species becomes extinct within our own radius of reach […] it might as well be gone altogether, in one important sense.”

Esta pequena brincadeira que tem sido divulgada na internet, comparando o nosso conhecimento de logótipos de marcas famosas com o conhecimento botânico, mostra bem como a complexidade do nosso mundo moderno nos vai desligando da experiência natural

Mas não estamos cada vez mais consciencializados sobre os problemas ambientais, as suas causas, consequências, o papel da nossa espécie nisto tudo, estratégias para mitigar a destruição da Natureza, com o nos devemos comportar? De facto, o estudo sobre estes temas nunca esteve tão desenvolvido como agora, e nunca como agora esse conhecimento foi divulgado junto do público, através de campanhas de sensibilização para adultos e crianças, bibliografia acessível, programas de televisão, conteúdos na internet e os próprios programas escolares, que ensinam as crianças desde pequenas sobre a necessidade da reciclagem, da protecção das florestas, o problema do aquecimento global e a extinção dos pandas. Se a sensibilização e educação ambientais crescem cada vez mais (e ainda podem e devem crescer mais), porque teimam os indicadores ambientais em dizer que o nosso ambiente vai ficando pior a nível global?

Possivelmente, tal como Pyle previu, estará a faltar a componente da experiência emocional na nossa sociedade, razões que nos façam ligar à Natureza. Para a maioria de nós, é quase compreensível esta indiferença: a água sai da torneira e bebe-se do garrafão; a carne vem do talho, o leite do pacote, os cereais também do supermercado, o papel em resmas branquinhas; a diversão e outros estímulos surgem-nos cada vez mais de ecrãs dos mais variados dispositivos; os móveis do IKEA; tudo é imediato. Quando algo se estraga, vai para o lixo e desaparece das nossas vidas para sempre. Nas ruas, predominam o betão, o vidro, as lâmpadas e o alcatrão. Já realizei acções de sensibilização com jovens do ensino secundário que não sabiam o que eram coisas simples como o musgo! Pouco na vida urbana nos remete directamente para a Natureza se não soubermos prestar atenção. E se não faz parte da nossa vida, para quê preservar?

Fonte: Wikimedia Commons (respectivamente Beemwej e jbrito007)

O usofruto de produtos como o azeite na nossa sociedade é simples – vai-se ao supermercado, compra-se, usa-se, deita-se a embalagem fora. Subjacente a esta simplicidade, estão vários factores e acontecimentos como a história do olival e das oliveiras, a biodiversidade a elas ligada, a forma como foram ou não combatidas as pragas, a água que se gastou, as horas de trabalho empregues, a extracção do azeite, todos os recursos gastos no armazenamento e transporte até ao supermercado e todos os processos subsequentes de lidar com os resíduos gerados. Todos nós sabemos isto, mas quantas vezes nos lembramos destes impactos todos, e mesmo se nos lembrarmos, como senti-los, dado o quão afastados estamos de tudo isto?  Fonte: Wikimedia Commons (respectivamente, dos usuários Beemwej e jbrito007)

Isto quer dizer que para protegermos a biodiversidade e a Natureza no geral de forma mais eficaz, ela tem que significar algo para nós, ter uma componente emocional, uma relação com o nosso dia-a-dia. Segundo um grande número de especialistas, o problema deverá começar a ser solucionado ao invertermos a artificialização dos centros urbanos, e levarmos os elementos naturais de volta para as cidades, de forma a que possam voltar a ser preponderantes na vida das pessoas. Estruturas como parques urbanos ou corredores verdes são excelentes formas não só de devolvermos condições para os seres vivos se estabelecerem, dispersarem e evitar o isolamento de populações das várias espécies, como são comprovadamente eficazes na redução de problemas de saúde física e mental das pessoas que lá habitam, no melhoramento da satisfação com a vida e benéficas para o desenvolvimento cognitivo dos jovens. A promoção da construção de comedouros e abrigos para a fauna urbana é uma forma adicional de ajudar a biodiversidade e combater a apatia, pois permite um contacto mais directo com os muitos animais que partilham as cidades connosco. Se formos mais responsáveis pela produção de parte da nossa alimentação, com a possibilidade (muitas vezes negada em cidades sobre-lotadas) de termos um espaço onde possamos crescer os nossos produtos, gastaremos menos dinheiro, aprenderemos a valorizar mais o que consumimos (em vez de serem as maçãs neo-zelandesas da secção de frutas, são as nossas maçãs da nossa macieira do nosso quintal) e geraremos menos resíduos directos e indirectos.

Todo este processo de devolver a natureza às nossas vidas não pode ser feito de qualquer forma. Só porque algo é verde não quer dizer que seja benéfico para a Natureza. Pejar o nosso país de campos de golfe só serve para substituir a flora nativa por um relvado estéril cuja manutenção dá cabo dos recursos hídricos. Há muitas plantas bonitas que se introduzem um pouco por todo o mundo fora da sua área de ocorrência natural que se tornam pragas nefastas para a biodiversidade local, como as acácias. Há que saber ter um espírito crítico, e é para isso que deveria servir a nossa educação. Para que as áreas verdes sejam eficientes a preservar a biodiversidade urbana e incutir nas pessoas um sentido útil de familiaridade e identificação com a  Natureza, é preciso que o estabelecimento destas infraestruturas, e potencialmente o restauro de ecossistemas degradados a um estado semelhante ao original, sejam regidos por uma lógica de protecção e promoção da fauna e flora nativas, respeitando os processos ecológicos de regulação sem descurar as necessidades das comunidades humanas que habitam o espaço.

A reintrodução de elementos naturais nas cidades, quando feito de forma organizada e atendendo a bons princípios ecológicos, será uma boa ajuda para combater a desconexão crescente com o mundo natural, mas não será por si só a solução – Fonte: NCEAS (http://www.nceas.ucsb.edu/featured/aronson)

No entanto, a reconversão do espaço humano e restauro do espaço natural não serão por si sós suficientes para nos incutir o sentido de proximidade com a natureza necessário para nos mobilizarmos para a sua conservação. Pyle idealiza um futuro em que a humanidade se consiga inserir com sucesso na chamada “matriz natural”, da qual mesmo agora dependemos para a nossa sobrevivência, somos parte integrante e onde encontramos as nossas raízes junto com os restantes elementos da Natureza. Esta espécie de modelo de funcionamento de sociedade estaria alicerçado em seis princípios fundamentais: 1) preservação do espaço natural; 2) o estudo da Natureza; 3) foco na gestão local, de recursos e administrativa, sob supervisão de entidades de monitorização centrais (ao contrário dos sistemas predominantes actualmente de gestão centralizada); 4) governação por consensos (e não por opiniões maioritárias, que impedem a estabilidade da gestão; ao mesmo tempo repele o corporativismo autoritário); 5) justiça comunitária (real igualdade de direitos, deveres e oportunidades, numa lógica de manutenção dos recursos) e 6) restauro ecológico. O próprio Pyle reconhece que este modelo é sobretudo utópico, mas que isso não impede a adopção progressiva destes ideais que permitam o caminhar para um futuro mais humana e ecologicamente justo e seguro.

Tal como no resto, também nisto concordo com o ecólogo americano: talvez nunca venhamos a ultrapassar os nossos instintos mais básicos que nos empurram para competirmos uns com os outros, que nos fazem procurar glórias artificiais no desenvolvimento tecnológico e económico desenfreados, ou que nos levam a a encontrar as soluções mais cómodas para os problemas do dia-a-dia. E confesso que tal como todos vocês sou igualmente culpado de muitos estes problemas. Mas nada nos impede de sonhar, de tentar e, quem sabe um dia, concretizar uma mudança.

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Referências

Barnosky AD, Matzke N, Tomiya S, Wogan GO, Swartz B, Quental TB, Marshall C, McGuire JL, Lindsey EL, Maguire KC, Mersey B, & Ferrer EA (2011). Has the Earth’s sixth mass extinction already arrived? Nature, 471 (7336), 51-7 PMID: 21368823 (link)

Miller, J. (2005). Biodiversity conservation and the extinction of experience Trends in Ecology & Evolution, 20 (8), 430-434 DOI: 10.1016/j.tree.2005.05.013 (link)

Pyle, R. (2003). Nature matrix: reconnecting people and nature Oryx, 37 (02) DOI: 10.1017/S0030605303000383 (link)

– Sampson, S. The Extinction of Experience. 11/01/2010 – http://scottsampson.blogspot.pt/2010/01/extinction-of-experience.html

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