À sombra de uma azinheira…

À sombra duma azinheira

Que já não sabia a idade

Jurei ter por companheira

Grândola a tua vontade

ResearchBlogging.org

Hoje, dia 25 de Abril, comemora-se em Portugal o Dia da Liberdade, o dia em que uma revolução pacífica acabou com décadas de jugo fascista. Iniciada por militares e imediatamente acarinhada pelo povo, a revolução teve como senha a música de Zeca Afonso “Grândola Vila Morena”. Neste poema da liberdade surge uma referência à ligação à Natureza da vila alentejana, a referência à azinheira, uma das árvores mais típicas da paisagem alentejana.

À sombra de uma azinheira na Primavera alentejana, em Noudar – Fonte: Paulo Heitlinger (http://www.flickr.com/photos/heitlinger/)

Antes de mais, o que podemos considerar como uma azinheira? A azinheira (também conhecida na região de Trás-os-Montes por sardão) é uma planta da família das fagáceas (Fagaceae), que incluem grupos vegetais conhecidos como os outros carvalhos, as faias e os castanheiros. A azinheira é assim um carvalho, uma espécie do género Quercus, e dentro deste grupo tem como parente mais próxima a azinheira-de-folhas-de-louro, sendo a natureza desta relação de parentesco e consequentemente os seus estatutos taxonómicos alvo de debate dentro da comunidade botânica: há quem considere estas duas azinheiras como distintas o suficiente para serem consideradas espécies diferentes (Q. ilex e Q. rotundifolia) ou como subespécies dentro da mesma espécie (Q. ilex ilex e Q. ilex rotundifolia). Independentemente destas considerações de estatuto, a verdade é que as evidências morfológicas e genéticas apontam para que estejamos na presença de duas entidades biológicas distintas. Por uma questão de coerência, e porque me informaram que actualmente tem-se encarado com mais frequência a divisão em duas subespécies, farei referência à nossa azinheira como Q. ilex rotundifolia, pedindo apenas aos leitores que não tomem isto como uma opinião pessoal informada!

Distribuição actual da espécie Quercus ilex (sensu lato), evidenciando os locais onde predomina Q. ilex ilex (ilhas mediterrânicas, Itália, Grécia e Balcãs), Q. ilex rotundifolia (Península Ibérica e Norte de África) e indivíduos na zona de contacto (sobretudo no Sul de França) - retirado de Lumaret et al (2002)

Distribuição actual da espécie Quercus ilex (sensu lato), evidenciando os locais onde predomina Q. ilex ilex (ilhas mediterrânicas, Itália, Grécia e Balcãs), Q. ilex rotundifolia (Península Ibérica e Norte de África) e indivíduos na zona de contacto (sobretudo no Sul de França) – adaptado de Lumaret et al (2002), carregar na imagem para maior detalhe

E que características podemos então encontrar habitualmente numa azinheira? Estas atingem normalmente um porte arbóreo (até cerca de 15 metros de altura, em contraste com a azinheira-de-folha-de-louro que cresce mais frequentemente acima dos 20 metros);  casca acinzentada inicialmente lisa nos jovens e que vai ficando rugosa nas árvores adultas; folhas perenes, arredondadas (por vezes com margens espinhosas), verde-escuras e rígidas, típicas de plantas de ambientes quentes, densamente pilosas na página inferior e glabras (lisas, sem pilosidades) na página superior; a floração dá-se no início da Primavera, através de flores de aspecto discreto geralmente polinizadas pela acção do vento, originando depois um fruto bastante característico dos carvalhos, as bolotas (um tipo de fruto a que damos o nome de glande).

As bolotas da azinheira são aliás uma das suas riquezas mais reconhecidas e um dos recursos mais aproveitados pelas comunidades humanas que aprenderam a conviver com esta árvore. Ao contrário das bolotas dos outros carvalhos, as da azinheira são menos amargas, podendo ser usadas para confeccionar vários alimentos como pão ou mesmo assadas como se fossem castanhas! Na maioria das vezes, as bolotas são colhidas para dar aos animais domésticos, como aos porcos que bem as apreciam, sendo uma das bases da sua alimentação na região alentejana – suspeita-se que foi esta a razão para a implementação dos primeiros montados de azinho no século XVIII.  Também os animais selvagens se aproveitam dos nutrientes fornecidos pelas bolotas, desde grandes mamíferos como javalis e veados a várias espécies de aves que delas se alimentam.

Folhas e bolota de azinheira (Quercus ilex rotundifolia) – Fonte: Paulo Heitlinger (http://www.flickr.com/photos/heitlinger/)

A azinheira é uma árvore tipicamente Mediterrânica, bem adaptada a climas quentes e secos, razão pela qual predomina na zona Sudeste do nosso país, no Oeste Alentejano mais seco, em comparação com o sobreiro predominante no Sudoeste mais húmido. As condições óptimas para a azinheira encontram-se em quase qualquer substrato (excepto os arenosos) entre 300 a 550 mm anuais de precipitação, sendo substituída por matagais ou por carvalhos melhor adaptados a climas húmidas caso os valores sejam inferiores ou superiores (respectivamente) à gama de precipitação ideal. Ocupando pouco menos de 400 000 hectares do nosso território, e sendo por isso uma das mais importantes espécies de árvores que ocorrem no nosso território, não podemos no entanto dizer que as azinheiras formem habitats florestais naturais comuns em Portugal.

Na realidade, um verdadeiro azinhal natural será algo raro no nosso país, a maioria das árvores desta espécie integra o sistema de exploração agrosilvopastoril que conhecemos como montado, ou seja, um sistema com densidade de árvores relativamente baixa coexistindo com pastagens e outros usos agrícolas. Apesar de não ser um habitat natural, que precisa da acção humana directa para ser mantido no presente estado, o montado (não só o de azinho) é um tipo de habitat com uma riqueza faunística singular,  no qual espécies típicas de habitats florestais mais densos e de pastagens conseguem encontrar boas condições de sobrevivência. Quando bem gerido, o montado é um bom exemplo de uma paisagem em que a acção humana se sente profundamente numa exploração de recursos sustentável e benéfica para uma grande quantidade de espécies (no caso dos montados de sobreiro, acresce ainda a possibilidade de exploração da cortiça).

Apesar da grande importância económica, social, histórica e natural destes agrupamentos vegetais, os montados de azinho estão em regressão, tendo sofrido um decréscimo acentuado no último meio século – por volta das décadas de 1950 e 1960 teríamos cerca de 600 000 hectares de montado de azinho. Com a regressão progressiva da área de distribuição desta espécie vamos assistindo a uma perda lenta de uma porção importante da biodiversidade do nosso país, mas também uma parte da herança de um povo que descobriu uma boa forma de utilizar um recurso natural de forma sustentável.

.

Referências

– Capelo, J. & Catry, F.  (2007) – Biologia, ecologia e distribuição da azinheira. In Os montados – Muito para além das árvores. Árvores e Florestas de Portugal nº3. Público

Lumaret, R., Mir, C., Michaud, H., & Raynal, V. (2002). Phylogeographical variation of chloroplast DNA in holm oak (Quercus ilex L.) Molecular Ecology, 11 (11), 2327-2336 DOI: 10.1046/j.1365-294X.2002.01611.x (link)

3 Responses to À sombra de uma azinheira…

  1. Ana Rosa diz:

    Eu adoro bolotas; cruas, cozidas, assadas, prefiro-as ás castanhas, mas não sei onde comprá-las. Alguem me ajuda?

    • ferreira da silva diz:

      no terrávistacavacome aqui em montmor a rosa manda um mail e depois o pago e nós mandamos as cruas porque já vi que a menina é apreciadora de bolota pois eu também gosto vou-lhe dar uma receita de favor que era da minha bisavó albina de jesus que era devora e que teve ensinamentos de um frade do convento da cartucha isto está nos nossos arquivos aqui em montmor do terravistacavacome@sapo.pt é a seguinte põe as bolotas de molho dois diascom 2 colheres de sal antes da-lhe com um garfo duas vezes cuidado não espete o garfo na mão depois põe num tabuleiro de barro e põe uns cardos e umas folhas de catacuzes, catacuzes é uma erva que nasce espontaneamente nos valados berma da estrada o cardo convém ser apanhado antes do nascer do sol para ficar macio e tirar-se a pele e alguns picos não convém tiralos todos que é o que vai dar o sabor a quem a come
      se tiver forno a lenha aconselho senão peça na padaria por ultimo faça no eletrico que já tem griil acho que é assim acompanhe com um caracol do alquéve junto com as nossas bolotas e depois diga-nos se gostou á já me esquecia o caracol do alquéve é um borrego acabado de desmamar não lhe posso dizer o chamar-se caracol do alqueve porque isso está no nosso arquivo do terrávistacavacome que era da minha bisavó albina de jesus qe era devora e foi-lhe dado este segredo por um frade do convento da cartucha por quem tinha muita estima pela sua grande sabedoria assim dizem os arquivos ROSA mande noticias eu de momento estou a safaryar em angola mas o meu colega carapinha que está em montmor fas-lhe o avio uma boa tarde para a ROSA de ferreiradasilvafs@gmail.com

  2. ferreira da silva diz:

    fereira da silva
    rosa então e as nossas bolotas já arranjou ou ainda não se ainda não arranjou fale com o meu colega lourenço carapinha que está em montmor novo ele pode ir com a rosa se a menina tiver vagar apnhalas ele sabe onde estão as azinheiras boas ,os cardos e os catacuzes
    o caracol do alqueve é um pouco mais caro mas o carapinha acompanha a menina rosa lá ó monte e depois diga-me se gostou tudo o que a menina quizer nós arranjamos senão vamos
    ao arquivo do terravistacavacome que era da minha bisavó albina de jesus que era devora e que está lá tudo pois o frade por quem a minnha bisavó albina tinha muita estima ensinou-lhe muita coisa naquela altura havia muito tempo para ensinar rosa ainda estou em angola quando regressar espero vêla a comer as nossas bolotas adeus rosa de ferreiradasilva

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: