Cidadania científica – a ciência nas mãos de cada um de nós

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Que visão temos nós dos cientistas? A visão tradicional, de uma figura estilo Einstein, génio louco de cabelo desalinhado a inventar estranhos compostos químicos num laboratório em explosão? Ou talvez o académico sério, rigoroso, mestre em decorar todas as características e termos anatómicos de obscuros seres vivos? Um físico com resmas de papel a fazer cálculos e estudar equações impossíveis para o comum mortal para desvendar os mistérios do universo? Quem sabe, ainda, o sortudo astronauta cujo árduo treino ao longo dos anos lhe forneceu o bilhete para a mais extraordinária das viagens…

Decerto teremos alguns casos destes. A maioria dos cientistas são pessoas perfeitamente normais com um interesse em descobrir como o nosso mundo funciona. Mas e se eu lhe disser que, por entre os meandros da descoberta científica, há espaço para cada um de nós? Que há espaço para um escritor descobrir elementos importantes do nosso sistema solar? Para um fotógrafo descobrir novas espécies de insectos para a ciência? Para uma educadora de infância ajudar a monitorizar populações de aves selvagens? Para uma contabilista registar afloramentos rochosos temporários, que de outra forma se perderiam? Não precisam de formação superior, apenas de tempo e vontade de ajudar os cientistas na recolha de informação.

Todos os dias, milhares de amadores fazem observação de aves um pouco por todo o mundo, registando dados sobre a ocorrência, abundância, migração ou reprodução destes animais. A grande maioria desta informação, que poderia ser usada para ajudar em esforços de conservação, é perdida sem que estabeleça um elo entre os cidadãos e os cientistas – Fonte: Daniel Schwen (http://commons.wikimedia.org/wiki/User:Dschwen)

Com um número limitado de cientistas a trabalhar num determinado ramo do conhecimento, ao mesmo tempo que temos várias pessoas com interesse pela ciência e alguma vontade de contribuir, surge a oportunidade para um “casamento” bastante interessante, a que damos o nome de cidadania científica (CC). Este conceito pode ser aplicado a qualquer projecto no qual investigadores profissionais trabalham com elementos do público que de forma voluntária colaboram em tarefas necessárias ao projecto, sob a orientação dos cientistas. As vantagens desta abordagem são várias, para todas as partes envolvidas: para os investigadores, surge uma maneira para recolher uma grande quantidade de dados que dificilmente poderiam ser obtidos de outra forma, por falta de recursos ou tempo; por seu lado, o voluntário ganha experiência directa prática de uma parte do trabalho científico, ganha conhecimentos, e permite-se que este seja incluído no processo, algo muito importante especialmente quando cada vez mais é preciso demonstrar às pessoas a validade do trabalho científico e justificar os apoios recebidos e o seu lugar na sociedade. Por vezes o voluntário pode mesmo chegar a ser uma parte essencial de uma grande descoberta científica!

Como de costume, estes benefícios vêm acompanhados dos problemas da CC. Embora seja excelente ter grandes séries de dados recolhidos por uma equipa de amadores, estes não servirão para nada se não forem fiáveis: é absolutamente necessário garantir que os voluntários são eficientes e capazes na tarefa que lhes é pedida, para que os dados possam ter validade, processo esse cuja responsabilidade terá que ser assumida pelo investigador que coordena o projecto (mas que nem sempre pode ser controlado). Para além disso, o uso de voluntários não-cientistas está restrito à capacidade para a sua formação: se o projecto for demasiado complicado, com recolha de dados ou análises de difícil execução, o investigador perderá menos tempo sem a ajuda.

Não obstante estas limitações, vários exemplos demonstram como iniciativas de CC podem ter sucesso. Uma das áreas onde amadores mais contribuem para uma disciplina científica é na astronomia, com muitos astrónomos amadores a prescrutarem o céu à procura de algo diferente do habitual  – e vão descobrindo, meteoritos, cometas, supernovas e galáxias. Em Fevereiro de 1987, por exemplo, o astrónomo amador neo-zelandês Albert Jones foi uma das primeiras pessoas a descobrir a supernova 1987A, que se tornou a supernova mais próxima da Terra descoberta até esse momento, e que continua uma das supernovas mais estudadas.

O fascínio do meu irmão pelos insectos, e em particular por moscas (Diptera), levou-o a interessar-se pela fotografia e recolha de espécimes destes invertebrados. Em 2008 fotografou uma espécie curiosa, uma mosca de hábitos terrestres com asas extremamente reduzidas. Enviou as fotos e espécimes para especialistas estrangeiros e a resposta foi surpreendente: tratava-se de uma espécie nunca antes observada! Mais tarde, foi baptizada com o nome Ariasella lusitanica. Muitas mais espécies andam por aí à espera da descoberta… – Fonte: Rui Andrade (http://www.flickr.com/photos/ruiamandrade)

Como conduzir um projecto de CC? Como qualquer outro projecto científico, o planeamento é uma etapa fundamental, que deverá ser feita de modo a responder a uma questão. Para responder a esta questão, o investigador tem que desenvolver um protocolo que o permita fazer, e neste caso em particular o protocolo deverá prever formas para o público poder ajudar nas tarefas. Para que os voluntários possam ajudar na recolha e análise dos dados, um processo é fundamental: a formação. Como já foi referido, de nada serve temos pessoas a ajudarem no nosso projecto se os dados que elas recolherem não forem recolhidos de forma correcta, podendo enviesar os resultados e levar a conclusões erradas. A formação dos participantes é um passo chave! Mesmo assim, e especialmente se houver um grande número de observadores e não se poder controlar no campo a recolha de dados, deverá haver uma triagem dos dados antes da análise de forma a que se possam detectar erros mais óbvios. Finalmente, e como deveria ser feito em qualquer trabalho científico, os resultados deverão ser publicitados para o público.

A par da astronomia, referida anteriormente, as ciências naturais no geral, e a biologia de campo em particular (a minha área de estudo), prestam-se bastante a este tipos de projectos. O registo e monitorização de espécies são uma excelente forma de envolver as pessoas na recolha de dados científicos, dado o interesse habitual que os seres vivos despertam nas pessoas. Um dos melhores exemplos a nível mundial é o projecto eBird (http://ebird.org), desenvolvido pelo Cornell Lab of Ornithology, que encoraja qualquer utilizador registar os resultados de sessões de observação de aves, permitindo o registo das espécies observadas, nº de indivíduos, protocolo de observação e localização geográfica, entre outros dados, reunindo dados de observação numa base de dados global, que pode ser usada para trabalhos científicos. Outros projectos pretendem estudar animais normalmente menos apelativos, mas igualmente importantes, como é o caso do projecto canadiano WormWatch (http://www.naturewatch.ca/english/wormwatch), que aplica o mesmo princípio do eBird para espécies de minhocas. Já o GeoExposures (http://www.bgs.ac.uk/citizenScience/geoexposures.html) é um projecto do British Geological Survey voltado para as ciências da Terra, que pede a colaboração das pessoas para registarem afloramentos temporários, ou seja, curtos momentos em que a escavação do substrato permite um olhar sobre a geologia escondida do local, o que ocorre normalmente durante construções ou obras na via pública.

O projecto Líquenes à moda do Norte é uma iniciativa recente que pretende encorajar voluntários a recolher informação sobre a ocorrência de várias espécies de líquenes no nosso país, em especial na região Norte. Estes dados poderão ser um dos primeiros passos para definir futuras estratégias de conservação num campo pouco estudado em Portugal – Fonte: Joana Marques (http://liquenes.tumblr.com/)

E em Portugal? Apesar de não termos projectos tão bem desenvolvidos como noutros países, já alguns esforços são feitos, e a tendência deverá ser para cada vez mais os investigadores apostarem na colaboração com voluntários amadores. Um exemplo bem conhecido por cá é a elaboração dos Atlas das Aves Nidificantes em Portugal, cuja recolha de informação dependeu em boa parte de trabalho voluntário (e o mesmo acontecendo para o Atlas das Aves Invernantes e Migradoras, que está de momento em elaboração). O BioDiversity4All (http://www.biodiversity4all.org), iniciado em 2010, pretende criar uma base de dados online onde qualquer pessoa possa registar dados de ocorrência para qualquer espécie de ser vivo a ocorrer no nosso país, algo em parte também explorado pelo Naturdata, mas de forma ainda mais inicial (este projecto dedica-se mais à disponibilização de informação). Voltando à avifauna, vários projectos de anilhagem científica (http://www.apaa.pt/) desenvolvidos por todo o país, em que as aves são marcadas com anilhas metálicas para estudos populacionais, beneficiam em muito de trabalho de voluntários.  E para além de projectos definidos, há sempre hipótese de colaborar com especialistas de forma mais livre, entrando em contacto com cientistas da nossa área de interesse e perguntar se haverá hipóteses de colaboração – é desta forma que algumas pessoas no mundo dos insectos têm contribuído recentemente para o avanço do conhecimento, inclusive com a descoberta de novas espécies.

As hipóteses de contribuirmos são, cada vez mais, muitas!

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Referências

Bonney, R., Cooper, C., Dickinson, J., Kelling, S., Phillips, T., Rosenberg, K., & Shirk, J. (2009). Citizen Science: A Developing Tool for Expanding Science Knowledge and Scientific Literacy BioScience, 59 (11), 977-984 DOI: 10.1525/bio.2009.59.11.9 (link)

– Knappen, J. H. (2010)  Scientific collaborations in astronomy between amateurs and professionals. Proceedings of the international ProAm workshop on stellar winds, Convento da Arrabida, Portugal (link)

– Tweddle, J.C., Robinson, L.D., Pocock, M.J.O. & Roy, H.E (2012). Guide to citizen science:  developing, implementing and evaluating  citizen science to study biodiversity and the  environment in the UK. Natural History Museum  and NERC Centre for Ecology & Hydrology for UK-EOF (link)

2 Responses to Cidadania científica – a ciência nas mãos de cada um de nós

  1. Nos Estados Unidos é muito usado este tipo de “casamento” como disseste. Os que tenho visto mais é com insectos, mas de certeza que nos outros ramos haverão mais projetos em que envolvam publico e cientistas. Penso que para além do auxilio direto para o projeto, é uma óptima forma de educação ambiental para o publico geral, porque ao estar mais em contacto com a ciencia começam a ficar mais despertos para certos assuntos e como aprendem já entendem o porque de certas medidas e acções que se devem ter.

    Se quiseres saber mais sobre os projetos de entemologia eu leio este blog. Ela trabalha num museu e faz bastantes projetos e participa em bastante com cidadania cientifica. Participou no ano passado num com borboletas gigantesco!http://thedragonflywoman.com/

    Beijos
    Sofia G

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