Vídeo – Entre o céu e as marés

O estuário do Sado constitui uma das principais zonas húmidas de Portugal.
Separado do oceano pelo extenso cordão dunar da península de Tróia, o estuário proporciona características excepcionais à vida selvagem, principalmente às aves aquáticas. Aqui podemos observar cerca de metade das espécies de aves existentes em todo o país. O documentário revela a vida das aves nos vários habitats do estuário e a forma como é condicionada pela grande força motriz deste ecosistema – as marés.

Filmagens de Daniel Pinheiro e locução de Eduardo Rêgo. Sem dúvida do melhor que temos em divulgação da vida selvagem nacional!

Provérbios da biodiversidade – I

Em tempo de cuco, pela manhã molhado e à noite enxuto

Vídeo – “Murmúrio” de estorninhos

É frequente vermos em programas de televisão sobre vida selvagem exemplos de animais que formam grandes bandos, obtendo-se por vezes efeitos espectaculares, como é o caso de muitas espécies de insectos, cardumes de peixes ou bandos de aves. Destas um dos melhores exemplos são os belos bandos formados por estorninhos (no vídeo o estorninho-vulgar, Sturnus vulgaris), que podem chegar a ser formados por milhares de indivíduos, e que em inglês se designam por murmurations, que poderemos traduzir como “murmúrios” de estorninhos.

Tal como a maioria dos animais com este tipo de comportamento, os estorninhos fazem-no provavelmente por questões de segurança, para evadir predadores como os falcões, ocorrendo sobretudo após a época de nidificação nos meses mais frios do ano. Os estranhos movimentos surgem pela combinação de movimentos individuais de estorninhos a responderem aos movimentos dos indivíduos ao lado, ocorrendo uma fuga ao centro do bando que leva à formação de padrões ondulantes, que podem ajudar a confundir o predador.

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Referências

– King, A. J. & Sumpter, D. J. T. (2012) Murmurations. Current Biology 22: R112-R114. (link)

Imagem do dia – Ovos de gaivota-de-patas-amarelas

Foto (c) Pedro Andrade

Os habitantes das cidades costeiras em Portugal não terão grandes dúvidas: o número de gaivotas está em franco crescimento. A espécie em questão é a gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis), que junto à costa é apenas mais uma de várias espécies de gaivota (outras comuns são a gaivota-d’asa-escura ou o guincho), mas que nos últimos anos, em especial nas grandes cidades da costa mas não só, indivíduos da espécie têm começado a aventurar-se cada vez mais para os meios urbanos, nidificando nos telhados de casas e prédios (como é o caso da foto, de um ninho com dois ovos no terraço de um prédio no Porto).

Em condições naturais a gaivota-de-patas-amarelas nidifica em colónias (mas não sempre) ao longo de toda a costa portuguesa, sobretudo para Sul do Cabo Carvoeiro, sendo a colónia mais importante a das Berlengas, e sendo deste local que mais estudos se fizeram sobre a sua biologia reprodutiva. Nidifica sobretudo em zonas rochosas (e por isso talvez se adapte tão bem à nidificação em edifícios), e dados das Berlengas indicam um período reprodutor que se estende de Fevereiro (quando começa a definição  de territórios de nidificação) até Julho (quando nascem os últimos juvenis). Em média são postos entre 2 a 3 ovos (o ninho na foto tinha dois), que demoram pouco menos de 30 dias a eclodir.

A expansão populacional recente desta espécie no nosso país, sobretudo nos grandes centros urbanos, poderá estar relacionada com vários factores. Por um lado, a espécie é tudo menos esquisita quando se trata de arranjar alimento, sendo comum vê-las em lixeiras ou mesmo no meio da cidade a alimentar-se perto de caixotes do lixo, aproveitando os abundantes restos alimentares desperdiçados pelas pessoas. Junto aos portos, é comum também as gaivotas alimentarem-se do peixe desperdiçado pelos pescadores. Outro factor importante pode ser a perda da tradição da apanha dos ovos de gaivota: até meados do século XX era comum as comunidades locais dedicarem-se à exploração deste recurso, mas com o abandono desta actividade as gaivotas-de-patas-amarelas deixaram de ter mais uma fonte de pressão que ajudava a controlar os efectivos populacionais.

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Actualização a 26/06/2012 – hoje fui visitar este ninho e uma das crias já eclodiu, e anda toda contente pelo terraço do meu prédio. O outro ovo ainda está por eclodir, por isso provavelmente essa cria já morreu.

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Referências

– Catry, P., Costa, H., Elias, G. e Matias, R. (2010) Aves de Portugal – ornitologia do território continental. Assírio & Alvim

O pisco-de-cauda-azul: uma nova espécie de ave registada para Portugal

Este artigo foi publicado originalmente na Revista Parques e Vida Selvagem nº39 (Primavera de 2012)

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Quando passeamos nos nossos parques, quando vamos à praia, sempre que estamos no nosso quintal, e ouvimos a grande diversidade de espécies de aves a cantar, raras são as vezes que nos apercebemos que uma grande parte delas são animais migratórios, que anualmente realizam grandes movimentos entre os locais onde se reproduzem e os refúgios de inverno. Estes pequenos animais alados dispõe de um grande arsenal de “tecnologias” naturais de navegação que lhes permitem deslocarem-se na época e orientação correctas, e cuja eficácia quase envergonham os nossos sofisticados sistemas de GPS: dependendo da espécie, têm capacidade de se orientarem pelas estrelas, pelo campo magnético da Terra ou pela posição do Sol, com cada ave a utilizar estes mecanismos de acordo com a sua programação genética e com a experiência adquirida de migrações anteriores. Embora cada espécie tenha uma ou outra rota preferencial, seguida pela grande maioria dos indivíduos, alguns acabam por se desviarem do caminho ideal, acabando em terras onde não é suposto os encontrarmos.

O pisco-de-cauda-azul (Tarsiger cyanurus) – Fonte: Tetsuya Shimizu (http://www.flickr.com/photos/mushimizu/)

António Marques é um ornitólogo algarvio já com 30 anos de experiência, responsável pelos trabalhos de monitorização da estação de anilhagem de aves de Loulé (na Fonte da Benemola). Para além deste trabalho de anilhagem no campo, também recolhe anilhas de aves mortas por caçadores da zona: “Uso o sistema de colocar em zonas estratégicas no meio rural, em cafés como em restaurantes onde se juntam muitas pessoas, um pequeno recipiente onde depois são colocadas anonimanente as anilhas. Todo este trabalho é perigoso e arriscado porque mexe com hábitos ainda muito enraizados na nossa cultura. Mas tem só uma finalidade para mim que é a científica.” Num dia como qualquer outro em que foi recolher essas anilhas, encontrava-se uma pata com uma anilha que indicava que a ave em questão viria de longe: mais concretamente, da Suécia. Encontrar aves com anilhas estrangeiras não é raro, por isso António tratou de entrar em contacto com as autoridades suecas para saber a espécie a que pertencia a pata.

Pelas informações que chegaram do país nórdico, a ave foi anilhada em Utklippan, no Sul da Suécia, em 15 de Outubro de 2011, e encontrada morta em Boliqueime 96 dias depois, em 19 de Janeiro de 2012, a 2724 quilómetros de distância. Nada de incomum para um pássaro. A grande surpresa veio ao saber a identidade do animal: era um macho juvenil de pisco-de-cauda-azul (Tarsiger cyanurus), uma espécie nunca antes observada em Portugal! Na verdade, até para a Suécia esta espécie é rara – só 32 indivíduos foram anilhados neste país, mas este número está rapidamente a aumentar à medida que a distribuição desta espécie se está expandir para a Europa – esta é uma ave tipicamente asiática, ocorrendo mais raramente nos países do Norte da Europa (Finlândia e parte europeia da Rússia). No Inverno deslocam-se habitualmente para o Sul do continente asiático, pelo que a ave algarvia se desviou muito da rota normal!

Os movimentos migratórios (simplificados) usuais no pisco-de-cauda-azul – no final do Verão, voam para o Sul do continente asiático, onde passam o Inverno (azul), migrando de novo para Norte na Primavera quando o tempo começar a aquecer (vermelho). O local mais a Oeste onde esta espécie nidifica é a Rússia e Finlândia, e uns poucos casais na Suécia – destes, uma cria voou no sentido contrário ao normal, vindo parar a Portugal (amarelo)

Encontrar uma espécie nova de ave para Portugal não é algo que aconteça com frequência. Parece muito pouco provável que as autoridades suecas se tenham enganado na identificação do espécime, mas com uma pata apenas ficaria sempre uma réstia de dúvidas quanto à identidade da ave, sobretudo num achado tão singular. Por esta razão Júlio Neto, investigador do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO) da Universidade do Porto, realizou as análises genéticas necessárias que poderiam determinar a identidade da ave. Retirada uma amostra de DNA da pata da ave, Júlio utilizou técnicas de biologia molecular para estudar um gene específico (designado ND2) para o qual já era conhecida uma sequência para o pisco-de-cauda-azul. Feitas as comparações entre a amostra da ave de António e a sequência do gene ND2 já conhecida de um destes piscos asiáticos, o investigador conseguiu concluir que eram idênticas, ou seja, tanto a amostra como a sequência publicada pertencem a aves da mesma espécie.

A descoberta do pisco-de-cauda-azul no Algarve é importante por várias razões. Para além de ser um registo (mesmo que acidental) de uma espécie antes desconhecida em Portugal, é um importante testemunho da forma como as rotas migratórias das aves evoluem ao longo do tempo. Por enquanto, animais como este que venham parar nestes lados da Europa não deverão ter muito sucesso, mas quem sabe, num futuro longínquo, com o aumento progressivo da espécie no continente europeu, talvez o pisco-de-cauda-azul venha a estabelecer-se como uma ave portuguesa.

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References

-Naturhistoriskariksmuseet. Red-flanked Bluetail found in Portugal. 16/02/2012 (http://www.nrm.se/frontpage/researchandcollections/zoology/vertebratezoology/birdringingcentre/latestnews.272_en.html)

–  Neto, J. M. An unusual find. 09/03/2012 (http://web.mac.com/julio.m.neto/Webpage/Blog/Entries/2012/3/9_An_unusual_find.html)

Chapim-real peculiar

Este artigo foi publicado originalmente na Revista Parques e Vida Selvagem nº31 (Primavera de 2010)

Foto (c) Pedro Andrade

Um dos novos visitantes frequentes nas sessões de anilhagem no Parque Biológico de Gaia é um bocado diferente do habitual. Está um pouco esbranquinçado, mas não é a idade a causa. Este chapim-real (Parus major, uma espécie bastante comum) apresenta várias penas do corpo descoloradas, mas a razão não parece clara. A explicação mais habitual nestes casos é o leucismo, uma condição genética que difere do albinismo porque, enquanto este representa uma incapacidade na síntese dos pigmentos chamados melaninas (determinam cores como castanhos, cinzentos e pretos), as aves leucistas sintetizam as melaninas mas não conseguem que estas sejam depositadas em algumas, ou todas, as penas. Esta explicação não é no entanto completamente satisfatória, porque este chapim possui algumas penas individuais parcialmente descoloradas – isto é mais nítido nas grandes penas caudais. Embora se conheçam casos de leucismo em que isto ocorre, o mais provável é que a ave tenha tido problemas alimentares no momento em que produziu este conjunto de penas (isto é comum em aves que vivem em cidades, como em Londres, onde por vezes se vêem gralhas com algumas penas brancas).

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Referências

– Grouw, Hein van (2006). “Not every white bird is an albino: sense and nonsense about colour aberrations in birds”. Dutch Birding 28: 79–89 (pdf)

Os estorninhos e a Sociedade Americana de Aclimatização

A cidade de Nova Iorque fica em dívida para com a Sociedade Americana de Aclimatização por pôr em liberdade estorninhos-comuns … no Central Park … Desde o momento em que sai do ninho, começa a manifestar a sua alegre e jovial disposição cantando alegremente durante todo o dia, independentemente do quão inclemente estiver o tempo, ou da escassez da sua comida, ensinando-nos uma lição de contentamento mais eficazmente que alguns dos nossos maiores filósofos.

O problema das espécies exóticas e invasoras é hoje em dia reconhecido como um dos mais nefastos para a conservação da biodiversidade a nível mundial, quer seja pela introdução de predadores das espécies nativas, herbívoros vorazes ou plantas de crescimento rápido. Para além do problema óbvio de que estas espécies possuem uma maior capacidade para competir pelos recursos que as nativas, levando à sua substituição, levam a problemas graves para a nossa economia.

Mas nem sempre foi assim. Noutros tempos, de maior descontracção, quem diria que introduzir espécies longínquas poderia ser um problema? Que mal faz lançar uns estorninhos europeus no meio do Central Park de Nova Iorque?

O estorninho-comum (Sturnus vulgaris) - simpática ave europeia, nefasta praga americana - Fonte: Dick Daniels (http://carolinabirds.org/)

A Sociedade Americana de Aclimatização (AAS, American Acclimatization Society) foi fundada em 1871 por Eugene Schieffelin e John Avery, inspirada por várias outras sociedades com o mesmo fim, das quais a primeira foi criada em 1854 em França sob a direcção do naturalista Isidore Geoffroy Saint-Hilaire, com o objectivo de importar espécies exóticas por motivos ornamentais ou de produção. Schieffelin, o mais proeminente membro e impulsionador da AAS, importante magnata da indústria farmacêutica nova-iorquina, era fascinado pela forma como William Shakespeare retratava o mundo natural nas suas obras, e por isso tomou como objectivo introduzir no continente americano todas as aves retratadas na obra do grande bardo.

Os esforços de introdução intencional de aves exóticas em Nova Iorque já tinham começado anteriormente, quando 50 casais de pardais (Passer domesticus) foram libertados no Central Park, tendo-se multiplicado nos anos subsequentes. Outras aves, como tentilhões ou melros também tinham sido libertados em 1974, sem sucesso, até que foi tentada a libertação de estorninhos-comuns (Sturnus vulgaris) em 1877. Esta primeira tentativa não resultou, mas libertações feitas nos anos de 1890 (60 estorninhos) e 1891 (40) tiveram grande sucesso.

Inicialmente viu-se com bons olhos esta introdução: para além do seu inegável valor estético e cultural (pelo menos para as gentes da AAS), o estorninho tornou-se um predador de várias espécies de insectos vistas como nocivas. Infelizmente também se tornou rapidamente um incómodo para as espécies nativas de aves, com o seu comportamento agressivo e competição por locais de nidificação. Não demorou muito até que se começassem a debater os méritos da introdução desta espécie. Os defensores dos estorninhos defendiam que esta alegre ave, para além de controlar pragas agrícolas, era menos prejudicial para as culturas que várias espécies nativas, e exaltavam as maravilhas dos grandes bandos que formavam.

Sem dúvida um espectáculo magnífico! Excepto se estiverem num avião. - Fonte: Walter Baxter (http://www.geograph.org.uk/photo/1069339)

No entanto, mais de 100 anos após a introdução desta espécie, é fácil ver os vários problemas:

– Transmissão de doenças – salmonela, clamidiose, paratuberculose, gastroenterite, shigelose, histoplasmose e febre do Nilo ocidental são doenças transmissíveis para pessoas ou gado, algumas delas altamente perigosas, que usam os estorninhos como vector de transmissão;

– Impactos económicos – cerca de 800 milhões de dólares por ano perdem-se devido aos estorninhos, que para além de transmitirem doenças perigosas, comem a comida destinada ao gado, comem produtos agrícolas, e invadem pomares;

– Problemas sociais – os “alegres” estorninhos de Shakespeare são, em muitos casos, extremamente irritantes! Barulho, dejectos e danos a imóveis são alguns destes problemas;

– Problemas para o tráfico aéreo – os maravilhosos bandos exaltados pelos defensores da introdução dos estorninhos tornaram-se a partir do séc. XX um problema para aviação, com o risco de colisões das aves com os reactores dos aviões, tendo em alguns casos levado à morte de pessoas;

– Problemas ecológicos – ironicamente, é para estes que tenho mais dificuldade em encontrar referências. Um estudo feito em 2003 por Walter Koenig com 27 espécies americanas que fazem ninhos em cavidades (e que por isso competem com os estorninhos), demonstrou que apenas pica-paus do género Sphryapicus estão em risco. No entanto outras espécies podem também estar ameaçadas, e há também o perigo dos estorninhos auxiliarem a dispersão de sementes de plantas exóticas.

Hoje em dia os estorninhos estão espalhados por todo o continente americano, e parece difícil erradicá-los. As técnicas de controlo envolvem assustá-las usando explosivos, ou o uso de químicos para envenenar as aves – chegou-se mesmo a criar o Starlicide (estarlicida) especificamente para lidar com os estorninhos e outras exóticas nefastas como os melros, mas estes produtos podem também ser tóxicos para outras aves. Como para tantos outros casos de espécies exóticas, pior a emenda que o soneto… mais valia não ter levado o raio dos estorninhos!

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Referências

– American Acclimatization Society, New York Times, 15/11/1877 (link)

– Coates, P. (2006) American Perceptions of Immigrant and Invasive Species: Strangers on the Land. University of California Press, Berkeley, CA, 256 pp

– Linz, G. M., H. J. Homan, S. M. Gaukler, L. B. Penry, and W. J. Bleier, “European starlings: a review of an invasive species with far-reaching impacts,” Proceedings of the Management of Invasive Species Conference, 378-86. (link)

– Tober, J. A. (1981). Who Owns the Wildlife? The Political Economy of Conservation in Nineteenth-Century America. Greenwood Press, Westport, CT. 254 pp.

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