Amanita muscaria e o os seus efeitos tóxicos

Nota: detesto apagar comentários. No entanto, tive que apagar alguns comentários a este post de pessoas que queriam discutir maneiras de obter e utilizar esta espécie como alucinogéno  Mesmo não sendo normalmente mortal a espécie é tóxica, pelo que não deixarei que se utilize este blog como plataforma para discussão de como consumir este tipo de cogumelos. São livres de o fazer por vossa conta e risco, mas noutro local.

.

ResearchBlogging.org

Amanita muscaria (o nome comum é o estranho “Mata-moscas”) é uma espécie de fungo do grupo dos Basidiomycota, e provavelmente o cogumelo mais famoso, a par com Agaricus bisporus, a espécie que mais frequentemente se encontra no supermercado. Tem um aspecto bastante característico e reconhecível (a única espécie com a qual se pode confundir é Amanita caesarea), com o seu chapéu (píleo) vermelho com pintas brancas, e um pé (estipe) igualmente branco. As pintas brancas no chapéu não fazem parte da coloração – são antes resíduos do véu universal, uma membrana que recobre o cogumelo quando este é jovem. A cor vermelha serve provavelmente para afastar qualquer animal que tenha intenções de o ingerir, alertando para a sua toxicidade. As hifas deste fungo (o seu verdadeiro corpo) formam associações simbióticas com raízes de várias árvores (micorrizas), entre as quais bétulas, pinheiros ou carvalhos.

Foto (c) Pedro Andrade

Em muitos locais do mundo este fungo ganhou designações que remetem para o seu poder insecticida, nomeadamente a sua capacidade de matar moscas. Embora esta noção esteja até algo enraizada na cultura popular desses locais, na verdade isto é discutível – estudos demonstram que moscas expostas aos fluidos do cogumelo não morrem, ficam antes intoxicadas. É possível que a associação com “moscas” tenha outra origem – na Idade Média acreditava-se que as moscas podiam entrar na cabeça das pessoas e provocar loucura, algo porventura semelhante ao poder halucinogénico deste cogumelo.

Tentarei resumir os vários aspectos que podemos considerar ao falar da intoxicação causada por A. muscaria.  Esta é raramente fatal, e os sintomas surgem rapidamente (entre 30 minutos a 2 horas após a ingestão), consistindo de tonturas, confusão, cansaço, perda de noção de espaço e tempo e hipersensibilidade. Outros sintomas são relatados apenas por vezes (secura da boca, dilatação das pupilas, alucinações) ou nunca se demonstrou acontecerem (comportamento agressivo). O período de intoxicação (que dura até 24h) prossegue com um período de sonolência, e termina com um sono profundo, após o qual não se revelam sequelas visíveis – contudo, é de notar que não se sabem exactamente os resultados de continuadas experiências com este cogumelo, e que estudos feitos em ratos sugerem que possa estar relacionado com risco de lesões cerebrais.

Na vida real, os cogumelos não fazem crescer – Fonte: http://fashionablygeek.com

Estes sintomas parecem ser causados essencialmente por dois compostos, ácido iboténico e muscimol, com alguma influência de outros compostos (com destaque para a muscazona, um molécula relacionada com o muscimol). Os dois principais possuem uma estrutura semelhante a alguns neurotransmissores do nosso sistema nervoso central – estes vão competir com o ácido iboténico e o muscimol pela ligação a receptores envolvidos no controlo de actividade neuronal.

A intoxicação por A. muscaria enquadra-se no que se designa por síndrome panterínica, causada principalmente por esta espécie e por Amanita pantherina.

Referências

– Michelot D, & Melendez-Howell LM (2003). Amanita muscaria: chemistry, biology, toxicology, and ethnomycology. Mycological research, 107 (Pt 2), 131-46 PMID: 12747324

Anúncios
%d bloggers like this: